David Lynch presents: Chrysta Bell @ Musicbox (09.06.2013)

David Lynch presents: Chrysta Bell @ Musicbox (09.06.2013)

Viagem assombrada

Com óculos escuros e intercalado por imagens que parecem resgatadas a uma película mal preservada, David Lynch apresenta o espectáculo que se avizinha: a subida ao palco de Chrysta Bell, que o mítico artista recomenda vivamente e diz estar certo de que a audiência irá gerar em si um amor igual pela sua musa. Nem por acaso, Lynch é o produtor do álbum de estreia (e, até à data, único) da norte-americana, “This Train”, e a sua influência é evidente.

E digamos que o Musicbox foi o cenário ideal para acolher este regresso de Chrysta Bell à capital. Apresentando-se com três músicos que se enconchavam no pequeno palco da sala, Bell é uma musa por natureza que se posiciona ao centro. O pano de fundo, esse, é invadido por projecções com um sentido cénico verdadeiramente apurado (não esperaríamos outra coisa), que têm uma quota-parte nuclear na edificação de uma experiência resgatada ao insconsciente menos incauto.

Há uma escuridão que povoa tudo isto, ou antes um sentido apurado de mistério que assenta em fundações erigidas sobre um jogo de aparências e que transcendem em larga escala o set minimal que gera estas notas musicais. Uma vez mais, há aqui muito de David Lynch – quase poderíamos imaginar estes músicos em palco no trepidante Club Silencio, se bem que aqui haja de facto banda. Mas, ao mesmo tempo, há algo que acaba por distanciar os dois artistas: o universo de Bell apresenta-se ligeiramente mais tangível do que o de Lynch, o que em parte é consequência do pouco material editado.

Visivelmente feliz pela audiência que a recebe com entusiasmo, a artista possui visível abrangência sobre o que é debitado pelos amplificadores e uma forte noção da composição das peças do jogo. Até porque, a certa altura, nos leva para um bar obscuro do Texas para tocar «Swing With Me», improvisando nas especificações técnicas definidas anteriormente. Não há formatação neste espectáculo: o que existe, existe no momento.

A colaboração com Lynch terá começado no assombroso “Inland Empire”, de onde brotou uma das mais mesmerizantes composições da artista – «Polish Poem» que, infelizmente, não tivemos oportunidade de ouvir na noite do passado domingo. Mas as ambiências foram daí resgatadas, com o final do primeiro acto ao som de «Sycamore Trees»: uma balada assombrada que se suporta num sentido de subsconsciente genialmente aterrorizador e embala as trevas nas palavras perpetuadas por Bell.

David Lynch presents: Chrysta Bell @ Musicbox (09.06.2013)

Mas haveria um regresso para o segundo acto (vulgo encore), que daria continuidade a esta atmosfera: «I Die» reforça esta tendência na materialização de uma atmosfera sinistra quase palpável. E ao vivo não se perde força nenhuma: o trio que podia tocar no bar texano mal iluminado adapta-se perfeitamente a este registo e, em concordância com o formato cénico em que se apresentam, transportam-nos para a floresta de Twin Peaks; só não prometem a viagem de regresso.

Ainda resgatado ao filme de Lynch, o alinhamento acaba numa versão de «Black Tamborine», original de Beck. Um corte à faca com o negrume anterior que traz uma frecha de luz pela sala e encerra uma noite que não só se recusou a exorcizar os demónios presentes como fez descer novas e estranhamente familiares trevas. Assombroso.

Fotografia por José Eduardo Real



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