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David Mares

Abrigo de cortiça traz para Portugal Prémio Guggenheim.

Aos 26 anos e a começar a dar os primeiros passos na profissão, David Mares direccionou os holofotes da arquitectura para Portugal, ao vencer o Prémio do Público no Concurso Internacional de Design “Shelter Competition”, promovido pelo Museu Guggenheim de Nova Iorque. Passados três anos de ter concluído a licenciatura, e actualmente a trabalhar num atelier da capital portuguesa, o jovem arquitecto vê assim reconhecido o seu trabalho e prova uma vez mais que a arquitectura nacional dá cartas além-fronteiras, dando a conhecer o que de melhor se pensa, desenha e projecta com alma lusa.

Conjugando aço, madeira e cortiça, e tendo em mente criar um espaço para estudar, descansar e dormir, David Mares deu corpo ao CBS – Cork Block Shelter, posicionando-se entre os dez finalistas num universo de cerca de 600 participantes oriundos de 68 países, e acabou por reunir 64.875 votos dos cibernautas. O dinamarquês David Eltang recebeu o “Prémio do Júri Especializado”, pelo projecto de um abrigo marítimo contra tempestades, na costa dinamarquesa.

O poder da cortiça

“Ter vencido este concurso, que é na minha opinião muito importante, visto estar associado a duas entidades de renome mundial, é uma honra. É com muito orgulho que recebo o prémio, é sinal de reconhecimento de um trabalho meu o que é muito importante para um jovem arquitecto. Penso que é uma oportunidade para as pessoas sentirem alguma curiosidade em ver o meu trabalho, e quem sabe surgirem novos projectos, novos desafios”, revelou-nos David Mares. É desta forma que o jovem arquitecto reage ao prémio que poderá ter uma considerável influência no seu percurso como arquitecto.

Questionado sobre o conceito que serviu de alicerce ao Cork Block Shelter, David explica que o abrigo foi o resultado de uma “ideia que se foi materializando aos poucos”, uma vez que, “o processo de projectar é algo muito dinâmico, nunca se tem uma ideia inicial que se concretiza na sua plenitude”, logo, a mesma foi-se transformando no decorrer do projecto. O resultado? Um abrigo para estudantes a construir na localidade de Vale dos Barris, em Setúbal, que se concretizou numa caixa de cortiça com “alguma dinâmica nas fachadas”, isto é, um volume que permite duas vivências: fechar-se por completo, conferindo sossego e privacidade ao seu ocupante; ou abrir-se ao exterior através de um rasgo que permite desfrutar das vistas, explicou-nos o autor do projecto.

Com uma grande percentagem de cortiça na sua concepção, factor que segundo David foi o elemento-chave da vitória, esta é uma característica que, para além de ter suscitado curiosidade em torno do objecto arquitectónico, dá um toque nacional à proposta, uma vez que Portugal é o maior exportador mundial de cortiça. Mas então, porquê a cortiça? “Surgiu como resposta às necessidades de conforto. Num microclima que varia entre o calor seco do Verão e o frio húmido do Inverno era necessário um material com bom isolamento térmico. Em resposta às necessidades funcionais do abrigo (para estudar e descansar/dormir) também eram necessárias boas condições acústicas. A cortiça respondia a estas características além de ser um material altamente ecológico e um produto português”, explicou-nos David Mares. O jovem arquitecto sublinhou ainda que, do seu ponto de vista, o conceito do Cork Block Shelter “pode ser adaptado a outros usos, sendo exequível a sua construção”, e enumerou alguns deles: “pode ser adaptado para um stand de feira, quiosques do mais variado tipo de vendas, abrigos de eco-turismo, anexos de jardim, entre outros”. Opinião que, ao que nos avançou David Mares, é partilhada por mais pessoas, uma vez que já houve quem demonstrasse interesse em ter um CBS.

Geração Z

Depois das gerações X e Y, David Mares pertence à chamada geração Z, de jovens gabinetes e arquitectos emergentes, que, de acordo com o mesmo, têm para oferecer à arquitectura o facto de “questionarem tudo”. Amante do desenho, design gráfico, fotografia, cinema e banda desenhada, por vezes são estas temáticas que lhe servem de musa de inspiração quando chega a hora de projectar; no entanto, sublinha, “de igual forma dá-se o inverso”, uma vez que, “a arquitectura é uma área que pode e influencia tudo que seja físico, e por vezes o imaterial.

A arquitectura pode conter as outras artes, já estas não podem conter a arquitectura na sua plenitude”. Aos 26 anos de idade, David diz não sentir a pressão de quem cedo brilhou no panorama arquitectónico, nem tão pouco acha que Portugal é pequeno demais. “Grandes nomes da arquitectura nacional, como Álvaro Siza Vieira e Eduardo Souto de Moura, apesar de serem reconhecidos internacionalmente, não deixaram de projectar em Portugal. Seria um sonho projectar como autor no meu País”, confessou. Contudo, o arquitecto não deixa de referir que, agora, um grande desafio seria “trabalhar num atelier estrangeiro”.

Depois do reconhecimento, da projecção internacional e de o prémio lhe proporcionar uma viagem a Nova Iorque, David Mares diz que “o futuro passa por continuar a adquirir conhecimentos ao exercer arquitectura num atelier”. Se um dia o futuro vai passar por projectar por conta própria… ”gostava de acreditar que sim”.



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