A Bunch of Meninos

A Bunch of Meninos

Musicalidades em português suave, que nos atingem como balas. A conversa com Pedro Gonçalves em torno do novo registo da dupla

Quando o estilo de apresentação de um grupo passa a ser a associação válida entre o indivíduo e a sua própria musicalidade, é sinal de que conseguiram a evidência plena – imagem versus linguagem. A cartola, os óculos de sol, os fatos clássicos e os sapatos Oxford. Em palco, rosas vermelhas e um altar com caveiras que relembra a comemoração do dia dos mortos, muito celebrado no México. Por conseguinte, a sua expressão musical dispensa palavras. Todos os instrumentos musicais utilizados conversam entre vi, criando uma linguagem própria e de fácil interpretação. Desta forma, contam estórias e dão vida a personagens que não passam de pessoas reais do quotidiano.

Passaram-se dez anos desde que Pedro Gonçalves e Tó Trips cruzaram caminhos musicais. Facilmente os identificamos enquanto Dead Combo, a dupla imbatível, perfeita e inconfundível que eleva o nome de Portugal além-fronteiras através da sua música. Aliás, Portugal não é só futebol e fado como se costuma dizer. Na bagagem dos Dead Combo cabem todos os estilos musicais (o gosto do fado, do tango, do blues, os ritmos quentes de África e a ilusão dos westerns) assim como várias formas de vida, como por exemplo, a Dona Emília, que é empregada de limpezas da Galeria Zé dos Bois, entre outros nomes que dão título a diversas canções nos vários discos da banda. Desde o álbum de estreia, “Vol. 1”, até “Lisboa Mulata”, editado em 2012, os Dead Combo trilharam um caminho muito especial.

Mas ao olhar para trás, quais os prós e os contras de dez anos de espectáculos dos Dead Combo? “Prós: diria que há muitos, contras nem por isso. Começar uma banda sem ambições e sem expectativas e ao fim de dez anos conseguir, sem ceder a pressões ou concessões de qualquer tipo, chegar a tanta gente e de tantos sítios é fantástico. E mesmo assim conseguimos manter o hábito de regularmente tocar em pequenas salas, como a Galeria Zé dos Bois. Isso também é fantástico” – diz-nos Pedro Gonçalves, a meia laranja do grupo, que esteve à conversa com a RDB.

No início de 2014 os Dead Combo brindam-nos com um novo disco, cujo título deixou o público a conspirar nas redes sociais com opinião unânime – este título é do caraças. À semelhança dos discos anteriores, “A Bunch Of Meninos” continua a homenagear (entre aspas) pessoas e espaços que fazem parte do quotidiano dos músicos, como a já referida Dona Emília que “é uma velha amiga. Achámos que já era altura de a homenagearmos visto ter-nos aturado ao longo de vários anos e em ocasiões menos dignas, para nós claro. Ela ligou-nos pouco tempo depois de o disco sair a dizer que se sentia muito honrada com a música, o que nos deixa muito felizes e sentidos” – comentou. Mas se um dia houvesse alguém que os contactasse a dizer: “escrevi uma música sobre vocês em jeito de homenagem”, “poderia ser um vizinho, um condutor de autocarro, o gasolineiro, a senhora das finanças, desde que fosse verdadeira, seria sempre muito bem-vinda!” – acrescentou prazerosamente.

“A Bunch of Meninos” trata-se de um disco de rápida composição e onde não existiu nenhum tipo de nervosismo na fase de gravação. “Nunca houve, na verdade. Há é depois, quando o disco está feito. A espera de saber qual vai ser a reacção das pessoas. Isso sim é de arrancar os cabelos!”. Mas afinal, quem são os A Bunch of Meninos da actualidade? “Ui! O governo de Portugal e toda a escorja que o rodeia, bem como o “governo” europeu e mundial! É muita gente!”

Ao escutar este disco apercebemo-nos de que é desprendido de géneros e de temáticas como os discos anteriores. A acompanhar Tó Trips e Pedro Gonçalves nesta epopeia estão Alexandre Frazão na bateria e António Serginho na percussão, determinando assim a simplicidade das melodias ao mesmo tempo que lhes dão alguma dinâmica e cadência. Admitem abraçar o erro enquanto estão a gravar em estúdio e assim tornam o erro parte integrante da música. Dessa forma, “o que fazemos é gravar juntos dois ou três takes de cada música e o que tiver menos erros fica” e quem sabe o que faz, faz perfeito; nós enquanto ouvintes nem sequer damos conta disso.
«Miúdas e motas» podia muito bem fazer parte de um filme de Robert Rodriguez, mas se Tó Trips e Pedro Gonçalves são os autodenominados cangalheiro e gangster, não deixam de ser eles as personagens principais das suas próprias composições. «Povo que Cais Descalço» e «Zoe Llorando» roçam o fado, a melancolia, a saudade em pensamento com uns acordes que choram em cada compasso.

Dead Combo

Depois há a memória africana em «B.Leza», bela só por si e a farra de «Dona Emília» que nos põe a abanar a anca, a correr em modo libertador e em danças vibrantes. O single só poderia chamar-se «A Bunch Of Meninos» e é onde ouvimos vozes semi-apagadas, uma bateria pulsante e uma guitarra que grita bem alto. «Dos Rios» eleva bem alto a marca de música do mundo pois roça o limiar do rock ou a chacarera argentina. Dão as boas-vindas a Simone («Welcome Simone») e falam de sonhos («Mr. Snowden’s Dream»). Terminam a viagem musical em Chelas, ou no Hawai, com o que há de melhor nos dois sítios – «Hawai em Chelas» – pois quem nunca sonhou estar no Hawai sem sair do recanto do seu lar? Há ainda a sensual «Arraia» que nos hipnotiza com a sua melodia.

Ao longo destes anos, os Dead Combo são praticamente veteranos nos palcos nacionais. Recentemente passaram pelo Coliseu dos Recreios para um concerto especial e têm dado concertos um pouco por todo o País. “Tiramos igual gozo das duas situações [concertos para uma plateia maior ou algo mais intimista] embora sejam bastante diferentes. Continuamos a tocar em pequenas salas e ao mesmo tempo em grandes espaços e mais uma vez achamos que é fantástico poder ter essa versatilidade e plasticidade de nos reinventar a cada concerto ou espaço. O que gostamos mesmos é de tocar ao vivo; repetir espaços não nos chateia, bem pelo contrário” – conclui Pedro Gonçalves.

Para quem ainda não teve a oportunidade de assistir a um concerto desta dupla maravilha, o grupo tem mais concertos agendados de norte a sul de Portugal, passando pelas ilhas e marcará presença no festival Super Bock Super Rock no dia 19 de Julho, assim como no Festival Fusing Cultural Experience. Sempre com rock na bagagem, sempre com fantasias e transposição de boas melodias.



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