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Death Stranding

Único e surreal.

Após trés longos anos, o lendário diretor de videojogos, Hideo Kojima, conhecido pelo seu trabalho de excelência na série Metal Gear, regressa com o seu primeiro projeto independente. Após a sua saída polémica da empresa Konami, para a qual trabalhou durantes vários anos, Kojima e o seu novo estúdio (Kojima Productions) não perderam tempo e começaram a trabalhar num novo jogo. Um jogo que provocou mistério e polémica à volta de cada teaser e trailer até ao dia do seu lançamento, chamado Death Stranding.

O propósito de Death Stranding é inovar e marcar indústria dos videosjogos através da sua narrativa e da sua jogabilidade única, numa jornada por um mundo como nunca antes visto. Este é sem dúvida um projeto especial de Hideo Kojima, que aposta todo o seu conhecimento que adquiriu ao longo destes anos e a sua liberdade criativa num videojogo que respira a sua paixão cinematográfica.

Desde o primeiro trailer, em que apenas vemos o ator da série The Walking Dead, Norman Reedus, nu numa praia com um bebé ao colo, podémos assumir que estamos perante um jogo que realmente parece querer marcar a indústria pela sua ridicularização e nada mais.

Na verdade, Hideo Kojima volta a supreender e oferece aos jogadores uma nova jornada maluca, arrojada e extraordinária. Mas, infelizmente, esta apenas irá marcar os jogadores mais abertos e dedicados, que estejam dispostos a aceitar esta experiência diferente devido à sua jogabilidade.

Mas primeiro, vamos começar por um dos aspetos mais importantes e curiosos sobre o jogo, a sua narrativa.

// Narrativa

Conhecendo os trabalhos anteriores de Hideo Kojima, sabemos que os seus jogos costumam abordar temas como a política, guerra e a sociedade em si. Death Stranding não é diferente.

Aliás, Death Stranding vai mais longe, apostando numa narrativa cinematográfica composta por uma mensagem profunda sobre a sociedade, com a utilização de várias metáforas a serem interpretadas pelo jogador. No entanto, apesar de tanta influência pelo cinema, esta é uma história que só é possível ser contada pela magia dos videojogos.

O jogo tem uma mensagem a transmitir e o nosso objetivo como Sam “Porter” Bridges (nossa personagem no jogo), interpretado por Norman Reedus, é de reconnectar a América. Na verdade, reestabelecer relações com as pessoas, criando assim uma sociedade. Isto é claramente uma mensagem que é paralela ao nosso mundo real, cada vez mais dividido com ideologias e políticas diferentes, muitas vezes causando guerras e conflitos entre a sociedade. No fundo, Hideo Kojima está a transmitir-nos que, se toda a população se unir, ou seja, se nos reconnectarmos, conseguimos transformar a realidade num mundo melhor.

Mas a narrativa de Death Stranding é muito mais do que isso, a narrativa foca-se e desenvolve-se à volta de Sam e do fenómeno que deixou o seu mundo em caos, o Death Stranding.

O jogo é introduzido com palavras vindas de Sam, palavras sobre umas certas explosões que aconteceram no mundo e que o deixaram em caos, sendo este fenómeno denomidado Death Stranding. Esta última explosão fez com que o mundo se conecta-se com o outro lado (depois da vida) e causou o aparecimento de outros fenómenos sobrenaturais.

O mundo encontra-se destronado e a população é obrigada a isolar-se, criando a necessidade de distribuir recursos como comida, medicamentos entre outros para a população conseguir sobreviver nas casas isoladas. Assim, começaram a aparecer transportadores, pessoas que fariam entregas desses recursos para qualquer cliente que necessitasse de alguma entrega.

Sam é um desses transportadores e a certa altura entra em contacto com a Bridges, uma empresa com o objetivo de voltar a unir a sociedade fragmentada dos Estados Unidos da América. É aqui que uma das personagens principais, acaba por convencer o protagonista a lutar pelo objetivo da Bridges. Sam terá de reconnectar este mundo ao realizar encomendas e ao conectar as pessoas à Chiral Network (rede/internet de comunicação da Bridges) para todas se interligarem.

A narrativa é retratada por episódios que funcionam como capítulos, tendo o jogo no total 14 episódios mais um prólogo. Cada episódio foca-se numa personagem e na sua história, sendo o seu nome referido no título.

As poucas personagens do Death Stranding são muito bem realizadas e fundamentais ao desenvolvimento da narrativa. Durante o jogo Sam irá trabalhar junto a cinco personagens. Cada uma destas personagens irá ser importante na jornada do protagonista, sendo que é através delas também que muitos dos acontecimentos do jogo ir-se-ão desenrolar. Como antagonistas fantásticos, temos o Higgs, interpretado pelo veterano do voice acting em videojogos Troy Baker (mais conhecido pelo seu trabalho em The Last of Us como Joel) e o Cliff, interpretado pelo grande ator Mads Mikkelsen. Ambos apresentam um visual arrojado e uma presença forte que se irá tornar um obstáculo para Sam muitas vezes.

Existem outras personagens NPC’s que se apresentam como cameos como, por exemplo, o grande apresentador e comediante Americano, Conan O’Brian, e o apresentador do The Game Awards, Geoff Keighley.

Este tipo de pormenores ou referências, já existentes de jogos anteriores aos quais gosto de chamar Kojimices (por considerá-los uma espécie de brincadeira para com o jogador), acabam por ajudar a estabelecer uma conexão mais íntima com o jogador, acabando por dar alguma piada ao mundo do jogo. Estes existem até mesmo nas sequências importantes da narrativa.

Para concluir, a narrativa é uma jornada intensa e emocional sobre o quão importante é mantermos relações com os outros e o quanto devemos lutar juntos pelo nosso futuro. Esta visão encontra-se muito bem escrita e com um bom desenvolvimento ao longo do jogo, apresentando um conjunto de personagens carismáticas que nos vão deixar curiosos e agarrados pelas suas histórias até ao fim. Death Stranding facilmente entrega uma das melhores narrativas do ano nos videojogos.

// Visuais e audio

Apenas ver a introdução do jogo é o suficiente para se ficar intrigado e boquiaberto com os visuais fantásticos que este apresenta. O mundo pós-apocalíptico transmite uma escala e uma atmosfera surreal, mostrando-se isolado e silencioso mas diria com um certo charme, que desperta uma imensa curiosidade de o explorar e conhecer as suas histórias. O nível de atenção ao mundo e às suas personagens é imenso.

O motion-capture é dos melhores que podemos ver na indústria, as animações são muito bem realizadas e as expressões faciais são extremamente detalhadas ao ponto de conseguirmos perceber e sentir as emoções de cada personagem. Isto também se deve ao incrível elenco de luxo, que conta com atores profissionais e outros convidados especiais, escolhidos pelo criador do jogo, e que realizam um papel incrível nas suas personagens.

No entanto, apesar deste esplendor técnico, também acabei por encontrar algumas vezes um bug gráfico que causava o aparecimento de uma especie de texturas, em linhas finas e pretas à volta do mundo. Não foi algo que me perturbasse muito pois apenas durava alguns segundos mas infelizmente tive um momento em que aconteceu durante uma cutscene muito importante e que me obrigou a reiniciar o jogo, pois naquele momento era demasiado distrativo (reiniciar o jogo é solução mais rápida para o bug desaparecer).

Quanto ao som, tenho de referir que foi das primeiras coisas que me surpreendeu no jogo e até hoje não me sai do pensamento o som incrível que o jogo tem. A primeira vez que se encontram os nossos “amigos” do outro lado, ou seja os BT’s (Beached Things) foi o suficente para me arrepiar e me fazer sentir imerso no mundo, só pelo quanto o som é trabalhado pois aquele momento alterou o ambiente do jogo de uma forma excelente.

A banda sonora presente encaixa que nem uma luva no mundo do jogo, as músicas inseridas em certas partes da narrativa e durante a exploração conseguem criar uma melhor conexão (ou devo dizer strand?) entre o jogador e o seu mundo, tornando tudo muito mais imersivo. De elogiar também as músicas originais que foram compostas por grandes artistas e bandas da atualidade.

// Jogabilidade

É neste ponto que Death Stranding vai dividir o público que simplesmente não vai conseguir gostar, acabando por jogar apenas pela narrativa, do público que lentamente se vai acostumar, acabando por gostar a experiência de jogabilidade diferente que oferece.

Death Stranding foi um jogo que nos seus primeiros momentos também me custou a adaptar às suas mecânicas. Inicialmente, senti um desconforto nos controlos, ao ponto de achar um pouco desajeitado o movimento da personagem. Poucos minutos depois, comecei a ganhar gosto à jogabilidade e às formas diversificadas para explorar este mundo.

As mecânicas de transporte consistem em vários fatores que são fundamentais nas decisões que o jogador terá de tomar de acordo com as encomendas que aceita realizar. Estes se transmitem para a jogabiblidade, onde Sam terá de ter cuidado ao transportar as encomendas, pois bastam pequenos deslizes (como cair ou entrar num rio fundo) para se sofrerem algumas consequências.

Como por exemplo, ao cair é possível assustar BB (bebé que acompanha Sam), que acaba por chorar sendo necessário acalmá-lo (utilizando os motioncontrols). No entanto, o jogo não se torna nenhuma espécie de simulador onde passamos a ser uma ama, ou seja, não é algo que vamos necessitar de fazer constantemente. Através do BB e de um scanner é possível detetar os BT’s.

De forma a não tornar as encomendas muito aborrecidas, existe a possibilidade de criar veículos, pontes, entre outras estruturas creativas, assim como equipamento que Sam pode equipar, introduzindo novos métodos de exploração que acabam por contribuir para um maior proveito do mundo.

Durante o seu percurso, para além de se encontrarem BT’s, existem outros tipos de inimigos que podemos encontrar. Estes poderão ser obstáculos na realização do trabalho de Sam, sendo possível enfrentá-los em combate fisíco ou através de uma grande variedade de armas disponíveis no jogo, sendo algumas delas divertidas de se utilizar. Existe também a possibilidade de praticar stealth, algo que não é nada desconhecido nos jogos de Hideo Kojima. No entanto, embora seja possível evitar estes confrontos, haverá sempre algum tipo de recompensa para o jogador que os enfrentar.

Um ponto fraco na jogabilidade de Death Stranding são as suas bossfights. Apesar de serem espetaculares a nível visual, os controlos não acompanham, acabando por se tornarem um pouco aborrecidas e algumas até frustrantes.

Durante as suas aventuras, Sam vai acumulando cansaço e necessita de realizar uma pausa no seu trabalho (até o compreendemos). As cidades ou estabelecimentos, que podemos encontrar no mundo, contêm um quarto privado onde Sam pode recuperar e ainda realizar um conjunto de interações. Umas podem ser benéficas para a sua jornada, outras são apenas para o divertimento do jogador (cá voltamos às Kojimices), como por exemplo, tirar fotos com caras parvas em frente ao espelho, recebendo “likes” do BB como resultado.

Assim, aproveito a oportunidade para introduzir o sistema de “likes” presente no jogo. Este sistema está incluído no multiplayer, que fornece uma grande parte da experiência de Death Stranding. O mesmo permite aos jogadores encontrar, partilhar ou realizar encomendas de outros jogadores, sendo possível partilhar veículos e todas as outras contruções criadas pelo jogador, adicionando também a opção de colocar sinais/placas para assinalar o local das mesmas ou de eventuais perigos do mundo. O sistema de “likes” existe como uma forma de avaliar se um sinal ou uma própria construção do jogador ajudou outros jogadores.

Esta implementação do online, denominada “Social Strand System”, torna a experiencia de exploração muito mais rica e estabelece uma conexão entre jogador e outros jogadores, acabando por dar mais significado à mensagem que o jogo transmite.

// Longevidade

Após a conclusão da narrativa e as suas encomendas (média de duração entre 35 a 40 horas), existe ainda muito conteúdo secundário para os jogadores continuarem a explorar este mundo.

Para além disso, existem vários tipo de encomendas secundárias, com várias recompensas, contribuindo também, para o aumento do ranking como transportador. Existem também as encomendas perdidas pelo mundo, sendo possível encontrá-las ao longo do jogo e realizar a sua entrega ou partilhar as mesmas com outros jogadores.

Também é possível encontrar construções que necessitam de vários recursos (materiais) para serem elaboradas ou reparadas. Estas estruturas vão facilitar a navegação pelo mundo exigindo a cooperação e partilha de recursos entre vários jogadores. As suas vantagens seram significativas para realizar as encomendas, pois irá facilitar o seu processo, contribuindo para uma experiência mais agradável.

Em conclusão, existe uma variedade de conteúdo opcional que os jogadores mais dedicados vão conseguir tirar proveito, assim como também existem easter eggs, colecionáveis (com mais background e histórias do mundo) e mais algumas Kojimices escondidas por descobrir.

// Veredicto

Apesar de abordar cada um dos pontos do jogo com bastante informação, sinto que o jogo ainda tem muito mais para falar, mas cabe agora ao leitor enfrentar esta experiência incrível e descobrir todas as surpresas do jogo por si mesmo.

Sem dúvida, Death Stranding deixará uma marca na indústria pela sua inovação a nível técnico e pela sua narrativa incrível, apresentando uma experiência que irá ficar na memória. A sua jogabilidade é única e, apesar de não ser perfeita e de apresentar alguns problemas, a sua diferença é positiva, numa altura em que cada vez mais nos habituamos a formas de jogabilidade já estabelecidas. Porém, haverá sempre de cada lado da ponte uma parte do público e este será com certeza um jogo que irá continuar a gerar polémica.

E é com gosto que se anuncia que ao fim destes anos de espera e de um grande recomeço na sua carreira, o lendário Hideo Kojima está de volta!

Prós:

  • Uma narrativa fantástica sendo o seu ponto mais forte.
  • Visuais soberbos com um dos melhores desempenhos de motion-capture.
  • Áudio surreal criando uma experiência muito imersiva.
  • Jogabilidade única e inovadora.
  • Multiplayer que fornece uma experiência mais rica e um mundo menos solitário. 

Contras:

  • A jogabilidade nem sempre acompanha os seus pontos positivos, nomeadamente nas bossfights.
  • Bug gráfico que pode perturbar a experiência do jogo.

 

 

N.º de Porta:­

9/10



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