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“Debaixo da pele” de David Machado

O corpo é o início de tudo

Júlia, Catarina, Manuel. Três nomes, três pessoas, três visões de uma vida que se ganha sem querer e que a ela se somam múltiplas perdas, pois a quebra dos elos que se vão conquistando refletem a dor de respirar, a dificuldade de prosseguir em frente quando somos toldados por violências várias que abanam a estrutura do nosso edifício físico e emocional.

E é neste trio, ligado por uma sequência de não causalidades, que David Machado centra Debaixo da Pele (D. Quixote, 2017), um romance denso, por vezes doloroso, fundado num conjunto de memórias e que resulta num processo contínuo de subtração.

Num primeiro momento, o romance centra-se em Júlia, uma adolescente de 19 anos atormentada por um momento que mudaria a sua vida e que teima em não aceitar e esconder toda a sua verdade a pais e amigos, e também a si própria. Acreditando que forçar o esquecimento é a melhor forma de seguir em frente, afasta-se do mundo. Mas escolher a solidão apenas adensa um vazio crescente (mal) anestesiado pelo consumo de canábis.

A noite e as insónias são cada vez mais personagens do pesadelo que se transformou a vida de Júlia mas é também a ausência de sono que lhe permite ouvir os ecos da madrugada. Numa dessas noites, ouve uma discussão paredes meias e vê, pela primeira vez, Catarina, uma menina de quatro ou cinco anos que é filha de uns vizinhos cujos diálogos violentos Júlia escuta através das paredes.

Impotente em salvar-se a si própria, Júlia decide ajudar Catarina e, num dia de inverno, igual a tantos outros, decide fugir com ela, dando origem a uma aventura que atravessa décadas e faz-nos acompanhar alguns dos momentos mais marcantes das suas vidas, através de um destino que as vai juntando (ou desunindo), e que terá em comum um terceiro e ingénuo elemento.

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Com um ritmo muito próprio, David Machado, que confirma a excelência enquanto criador de intérpretes de corpo e alma, consegue transformar o sucessor de Índice Médio de Felicidade num livro aglutinador que conquista, progressiva e eficazmente, o leitor através de uma dinâmica tridimensional onde a violência rasga a inocência e traz a palco vários medos e uma certeza: o amor nunca poderá ser justificação para qualquer agressão.

Aos narradores, qualquer um dos três, também eles personagens (bem) construídas, solitárias e sublinhadas com um desencanto próprio, é dada a responsabilidade de desenhar um cenário, de vocalizar um espaço reservado a pessoas que se escondem do mundo, a gente que se protege de outros ou de si mesmos. E que existem como que em camadas de um isolamento, umas vezes por opção, outras induzidas, e à mercê de um crescimento forçado por um destino avesso que os marcou, profundamente, sem olhar a idades, e catapulta a existência para um estado de sítio sublinhado por feridas que não saram.

Envolto num drama que se revela através dos silêncios, do medo, da angústia, da incerteza e insegurança, Debaixo da Pele é um delicioso desafio que confunde a noção de vítima com agressor e que transforma essa mesma vítima num predador fugidio, sem raízes ou esperança, e onde a verdade é algo que pode ser trabalhado, manipulado e se transforma em pura e egoísta conveniência, em nome do futuro.



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