Under the Skin – Debaixo da Pele

Debaixo da Pele

Uma experiência singular que cruza a sensualidade com o desconhecido

A cor predominante é o negro, neste universo surrealista de Jonathan Glazer, onde o horror e a ficção científica são duas faces da mesma moeda. Debaixo da Pele (Under the Skin) existe num espaço muito próprio entre a sedução e o medo, e, acima de tudo, é uma experiência única.

Nove anos depois, o realizador de Sexy Beast (2000) e Birth (2004) está de regresso, desta vez com a adaptação, escrita por Walter Campbell, do livro Under the Skin de Michel Faber (2000). Profundamente perturbador e visualmente impressionante, o filme assenta na perspetiva de um alienígena que se esconde debaixo da pele de uma voluptuosa e tentadora Scarlett Johansson.

Vermelho carregado nos lábios, um casaco de pelo falso e uma esgadelhada peruca negra – eis a indumentária de um alien ‘avampirado’ que anda à solta nas ruas de Glasgow. Atrás do volante de uma Ford Transit branca, este extraterrestre é um verdadeiro predador de homens que, quando interpelados pela arrebatadora figura de Scarlett Johansson, não acreditam na sua sorte. O sonho de estar com aquela mulher acaba por se tronar um pesadelo sem escapatória para estas vítimas, que são selecionadas e caçadas como se estivessem à disposição num talho.

Nesta carrinha da tentação, foram colocadas câmaras de vigilância com o objetivo de captar as reações dos transeuntes, que não reconheceram a atriz e tão pouco se aperceberam de que estavam a ser filmados. Um golpe de génio por parte do realizador, ao criar uma perspetiva exterior – como se o próprio filme se tornasse um expectador da genuinidade humana –, ao mesmo tempo que nos coloca por detrás do olhar do “predador” – o alien –, que circula pela cidade tirando as medidas às suas potenciais “presas”. No entanto, muito tempo sob a forma humana parece resultar na dissolução dos instintos alienígenas, o que põe em causa a concretização desta missão, cujo propósito, segundo a lógica nos leva a crer (sendo que nunca é especificado), é a sobrevivência.

Fria e inexorável, Scarlett Johansson, agora em ‘carne e osso’, traz-nos, com esta nova personagem, uma espécie de antónimo da empática e calorosa voz do sistema operativo autodenominado Samantha – papel que protagonizou no ano passado em Her. E, ao contrário do que acontece no filme de Spike Jonze, onde a chave para a sedução está no domínio da oralidade, em Under the Skin, com recurso a poucas palavras, a atriz serve-se, antes, de uma expressão inoxidável e de um corpo despido para suscitar, simultaneamente, desejo e medo.

É através de uma realização extraordinariamente invulgar, que Glazer brinca com a ideia de estabelecer uma relação entre o nosso mundo e esta estranha figura – um jogo de proximidade, em busca de uma sintonia que se vai revelando intangível. Enganadas e seduzidas, as “presas” supõem esse falso cenário de compatibilidade com uma mulher provocadora – numa situação em que a conversa fiada está prestes a culminar em sexo, o alien despe-se enquanto se afasta lentamente, e o homem, iludido pelo desejo, precipita-se na direção daquela mulher, cego e desapercebido da substância negra e oleosa que agora o envolve, e na qual progressivamente se afunda.

Como uma metáfora para o desconhecido, a estética do filme está muito associada ao negro e a uma ambiência essencialmente fria – não é por acaso que a ação se desenrola numa Escócia chuvosa e invernal. A banda sonora (uma estreia muito promissora de Mica Levi) ajusta-se perfeitamente às cenas. À semelhança daquilo que fez Darren Aronofsky, com a fascinante composição musical de Clint Mansell, em Requiem for a Dream, a música (por vezes confundida com efeitos sonoros) de Under the Skin, além de conferir uma identidade muito mais palpável ao filme, está de tal forma intrincada no ritmo e na caracterização da ação que acaba por se tornar numa segunda personagem principal.

Jonathan Glazer tem um estilo muito próprio e uma visão muito abstrata. Ingredientes que, combinados com horror, ficção científica e a dose certa de estranheza, dão origem a uma mescla bastante kubrickiana – um aspeto que muitos críticos não deixam de assinalar.

Esta personagem extraterrestre, que chega dia 8 às salas portuguesas, alude, de certa forma, a uma outra figura – o senhor Meursault, presente na obra L’Étranger, do Nobel Literário Albert Camus. Esse “estrangeirismo” vem, essencialmente, da natureza do protagonista, que vive quase mecanicamente em função das suas necessidades físicas, e, como tal, demonstra uma fraca capacidade para se relacionar com outros e em adequar o seu comportamento a determinadas situações – muito à semelhança do que acontece com a criatura feminina de Michel Faber. Posto isto, é incrível como a brilhante descrição camusiana nos leva a crer que o senhor Meursault só pode vir de outro planeta, da mesma forma que este alien predador, igualmente inadaptado a um meio que não lhe pertence, parece estar na pele de um estrangeiro.

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