Deep.In

Um dos maiores produtores de música de dança decidiu descer até nós. A viagem foi profunda...

Nuno Madeira tem 24 anos e divide a sua vida entre a arquitectura e a concretização de um sonho vivido dia-a-dia por ele: a música. Entre o lançamento de Simple e Freedom saíu em inúmeras compilações internacionais e ganhou o prémio de melhor single no DanceClub Awards 2002. O próximo ano adivinha um novo álbum e a RDB teve o privilégio de ouvir parte dele. Adivinha-se um ano quente…

RDB: Podemos começar por falar dos teus primeiros contactos com a produção musical. Quais foram e como aconteceram?

Deep.In: Foi quando tinha 18 anos. Eu já gostava muito de música quando era mais novo. Tinha imensos discos e o meu pai também gostava muito de música. Depois houve uma altura em que me ofereceram o disco do Vangelis eu fiquei completamente maluco porque não compreendia como é que uma só pessoa conseguia fazer todos aqueles sons e álbuns. Foi como que a alavanca que me fez começar coma produção. Fez-me começar a “brincar” com os computadores e a partir daí foi uma busca de sons, de como é que se fazia música especialmente na internet. Mas o meu primeiro contacto real com a música foi quando um amigo meu me passa um programa numa disquete chamado FastRecord que ainda hoje uso.

RDB: O que te influencia no teu trabalho?

Deep.In: Penso que seja tudo o que me rodeia. Desde a amigos, ao que leio, o que oiço… Tudo o que interage comigo influencia o meu trabalho final. Principalmente a questão emocional. Tudo o que me acontece de mais ou menos bom, tento exportar através dos sons por que acho que eles conseguem transmitir uma onda e eu sinto por vezes que a maneira como me sinto influencia o som e vice-versa. Mesmo quando falo com outros produtores gosto de perguntar o que sentiam quando fazia esta ou aquela faixa.

A nível musical, eu oiço um pouco de tudo. Houve uma altura em que ouvia muita música electrónica e a XFM influenciou-me muito para esse tipo de som porque era uma rádio que trazia novos sons. Foi aí que ouvi pela primeira vez o Underground Sounds Of Lisbon e pensei que se eles (Tó Pereira e Rui da Silva) conseguiram, então o meu sonho também se podia realizar.

RDB: Achas então que as tuas músicas são como que um diário em que relatas tudo o que se passa e sentes no momento em que as fazes?

Deep.In: Poderia muito bem ser. O meu primeiro álbum era como que um diário de esboços, de como agarrei em 70 ou 80 músicas e coloquei num só CD. O segundo (“When I Look At The World”), é mesmo o diário escrito do que se passou comigo na fase da sua produção, é mesmo onde eu me confronto comigo próprio quase. Eu tento que os títulos das músicas sejam como que os títulos de uns capítulos e a música em si o desenvolvimento dos mesmos.

RDB: O teu primeiro álbum foi a concretização de um sonho. Mas o segundo, já foi quase uma obrigação pelo facto de teres lançado um primeiro que teve reconhecimento?

Deep.In: O primeiro é mesmo a realização de um sonho, conseguido com muita investigação e muitas bibliotecas de sons. Fui muito meticuloso e tentei fazer o melhor que podia com o pouco que se tem e com simplicidade e por isso o nome “Simple”. A diferença para o segundo álbum é que nunca estive à espera de o fazer, mas como o “Simple” teve um feedback que eu não esperava e saiu em muitas compilações, mesmo internacionais, pensei que tinha de continuar.

RDB: Achas que se não tivesses assinado com uma editora de renome como a Kaos, terias avançado tanto musicalmente?

Deep.In: Bem… eu só enviei a maqueta duas vezes em 1998. Uma para a já defunta revista Promúsica que decidiu editar dois temas meus para um disco e outra para a Kaos. A Kaos só me ligou passado um ano quando eu já estava completamente desiludido porque não tinha mandado para mais nenhum lado. Eles ligaram depois de ouvirem o novo tipo de som que eu começava a fazer, uma onda mais calma. Aí a segunda maqueta que lhes enviei já tinha mais a ver com o trabalho que fazia na altura e eles criaram uma sub label (Free Recordings) para projectos como o meu, coisa que achei incrível.
Acho que nunca pensei muito se teria evoluído mais ou menos noutra editora. A Kaos tem feito um bom trabalho e, por isso, não faço ideia… Até agora estou contente com ela.

RDB: Consegues combinar na perfeição tudo o que fazes na tua vida com a música?

Deep.In: Eu acho que nessa questão sou muito consciente e coloco a música ao nível de outras coisas importantes da minha vida como a família, os amigos e o curso, por exemplo. Gosto de ter os pés assentes na terra. Eu sempre quis fazer o meu disco e expressar-me através da música. Não faço dela uma ocupação a tempo inteiro. Tem a mesma prioridade que as outras coisas da minha vida.

RDB: E quando acabares o curso, és arquitecto ou produtor de música?

Deep.In: Vou tentar ser as duas coisas. Acho que ambas se conjugam. Eu prefiro não perder tempo em coisas que não me dizem muito e ocupar-me a fazer música. Mesmo as pessoas que têm o seu emprego certinho, têm sempre qualquer coisa para desanuviar e, no meu caso essa coisa é a música.

RDB: Como reagiste a ver o Vibe, um dos “grandes” da música de dança em Portugal, passar o teu som?

Deep.In: Naturalmente. É bom, porque o Vibe é uma pessoa que só mete som que gosta. Eu tenho o set em que ele passou essa faixa e, como a música só tem 6 minutos, ele pôs dois pratos para poder tocá-la mais tempo. É uma sensação óptima, mas eu vivo isso com a maior das naturalidades.

RDB: E a nível internacional? Achas que tens vindo a ter um bom destaque?

Deep.In: Acho que internacionalmente tem-me acontecido coisas boas que é o facto de sair nas principais compilações chill out entre outras porque há milhares de pessoas a fazer música, e quando vês o teu nome a sair numa compilação juntamente com grandes nomes e as editoras internacionais chamam-te para fazeres as remisturas, isso é gratificante. Mas eu acredito em levar as coisas naturalmente e com modéstia. Talvez por ser um grande fã de U2, que também esteve lá em baixo e agora é o que é.

RDB: O facto de teres tido tanto reconhecimento, com as compilações todas em que saíste e o prémio de melhor single no DanceClub Awards 2002, alterou algo em ti?

Deep.In: Isto tudo ajudou-me a melhorar a minha forma de ser e a dar mais valor àqueles que estão a começar na produção ou mesmo aqueles que lutam por aquilo que gostam seja em que área for. Dá-me também mais ânimo para continuar a trabalhar.
Mas houve coisas mesmo surreais como ter passado som em Vilar de Mouros com seis mil alminhas.

RDB: Não achas que o facto de sair compilações quase “ao quilo” mata um pouco a música de dança?

Deep.In: Temos de ver que as compilações são um meio de subsistência das editoras, porque não é só com álbuns de autor que conseguem sobreviver. São quase que obrigadas a fazê-lo para se manterem no mercado. Mas as compilações também ajudam a descobrir as novas apostas e são muito necessárias.

RDB: Achas que consegues ter uma ideia do tipo de público que te ouve?

Deep.In: Não sei… talvez desde os 14 aos 50 (risos). O meu pai tem 50 anos ouve o meu som e gosta.
Eu noto hoje em dia que, cada vez mais, as pessoas procuram algo diferente. Já não querem ouvir só aquela rádio que está na moda e querem expandir horizontes.

RDB: Há mercado em Portugal para novos produtores como tu?

Deep.In: Há. Mas é preciso ter uma atitude determinada e mostrar às editoras que o que estão a mostrar é verdadeiro e pode ter continuidade. Não é só passar música porque fica bem ou porque há imenso software hoje em dia para fazer músicas. Acho que sendo verdadeiras e mostrando amor no que fazem isso vai-se notar tanto no trabalho final, como nas editoras para que apostem em novos valores.



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