Deerhunter | “Monomania”

Deerhunter | “Monomania”

A paixão segundo Bradford Cox

Cerca de três anos depois do lançamento de “Halcyon Digest”, os norte-americanos Deerhunter lançam “Monomania” com selo da prestigiada editora britânica 4AD.

Este período de repouso editorial levou a algumas mudanças no seio da banda e, para além da saída do baixista Josh Fauver, com a consequente adaptação de Josh McKay ao instrumento de quatro cordas, registou-se a entrada de um terceiro guitarrista com essa honra a caber a Frankie Broyles, antigo elemento dos Balkans.

Numa primeira audição, “Monomania” revela-se directo e honesto até à medula e a nova composição da banda parece ser sinónimo de estabilidade e segurança. Ainda assim, não se espera consenso na apreciação deste novo trabalho da banda de Atenas, Geórgia, terra natal de R.E.M., uma das bandas que mais influenciaram o som dos Deerhunter, nomeadamente nos tempos do som sujo de “Monster”.

Brandford Cox, líder incontestado dos Deerhunter, afirma-se muito satisfeito com o resultado final de “Monomania” e fala de uma atmosfera muito garage e nocturna. De facto, “Monomania” traça um percurso sonoro que faz jus a uma certa homenagem a bandas da preferência dos elementos dos Deerhunter. Dos já referidos R.E.M., o som deste disco explora territórios de grupos como os Sonic Youth, Pixies, Eels ou The Strokes.

Ao longo das doze canções de “Monomania”, temos um pouco de noise, punk e shoegaze, assim como de alguns elementos descaradamente pop. Etiquetas, géneros e tiques à parte, mais que uma mescla de influências, os Deerhunter são uma banda inteligente e com um talento especial de fazer canções despidas de preconceitos.

Ciente de que é a música que lhe alimenta a alma, Bradford Cox, depois do lançamento de “Halcyon Digest”, afirmava-se monogâmico em relação aos seus projectos de vida e ambições. Questionando a sua qualidade enquanto músico, chegou mesmo a revelar-se obsessivo: “Existe apenas uma coisa que me deixa realizado e feliz e isso é fazer música”. Passados dois anos sobre estas palavras, só nos resta desejar muitas felicidades ao líder dos Deerhunter.

E esse sentimento de (alguma) euforia sente-se logo na primeira faixa de “Monomania”. Depois de uma cacofonia instrumental, a voz de Cox ataca o breve silêncio deixado pelas guitarras ao desafio. «Neon Junkyard» é sinónimo de um rock herdado do grupo de Casablancas e companhia, banda que em tempos era vítima de escárnio de um Bradford Cox farto de comparações. Ainda assim, é inegável que «Neon Junkard» seja um eco das lembranças de “Is This It”, ainda que a voz de Cox, infectada pela pulsação rítmica das guitarras, seja mais escura e punk que a de Julian Casablancas. O final sónico da canção de abertura e a batida desconcertante da bateria indicam que a tempestade musical continua a breve trecho.

Sem demoras, «Leather Jacket II» arranca em modo pesadelo dolente e punk com as guitarras em diálogo constante e repletas de um excitante feedback. A distorcida voz de Cox ecoa e deambula em círculos infinitos sempre a reboque das cordas assanhadas das guitarras. O final da composição afigura-se abrupto e a arritmia em forma de caos dá lugar a uma curta pausa.

«The Missing», uma das canções mais orelhudas de “Monomania”, devolve paz à música dos Deerhunter e desta vez é a voz do guitarrista Lockett Pundt que brilha. As teclas do órgão fazem-se ouvir ao mesmo tempo que a guitarra, agora bem suave, que pede pela intervenção dos restantes companheiros de luta. Sem dúvida um dos momentos mais “doces”, senão o único, deste quinto disco de originais da banda norte-americana.

Logo a seguir, a brilhante «Pensacola» traz-nos de volta os sons mais próximos dos já referidos The Strokes e com Cox, sem pudores, a cantar: “I could be your boyfriend or I could be your shame”. As guitarras voltam a soltar-se e sente-se uma alegria contagiante nas muitas cordas que têm como máximo objetivo celebrar o rock and roll. «Dream Captain» mantém o espírito da faixa anterior, ainda que sem o mesmo fulgor, acabando por cair nas malhas mais pop, que no caso deixa algo a desejar. Ainda assim, saliente-se a preponderância do baixo e o vício auditivo que emana das sempre presentes guitarras e bateria.

«Blue Agent» traz de novo um ambiente calmo, com um baixo e uma bateria a atirar descaradamente para um planeta sonoro próximo do que faziam os Pixies; até mesmo a voz de Cox faz lembrar alguns lamentos de Black Francis quando na companhia de um dedilhar de uma guitarra acutilante. De eco em eco, chegamos a «T.H.M.», uma canção remetida numa malha de certa forma claustrofóbica que se liberta quando a bateria assume a liderança sem esquecer o ritmo omnipresente das três guitarras. A voz assume novamente um teor distorcido, meloso e altruísta.

Descaradamente pop, «Sleepwalking», tal como «Neon Junkard», possuem aquele “gancho” que nos agarra logo numa primeira audição, ou perto disso. Estas canções são uma amostra de uns Deerhunter afastados de uma agressividade latente – não que isso seja algo que não resulte no todo musical da banda – de um passado recente e pode criar algumas expectativas ao ouvinte que reclama por mais paz nas composições da banda. Ainda assim, mais sónicos, pop ou punk, os Deerhunter são excelentes compositores e a sua música está cada vez mais consistente.

«Back to the Middle» continua o trajecto mais calmo da segunda metade de “Monomania” e traz mais mel aos ouvidos. Mais suja e punk, a faixa-título revela-se mais agressiva e noisy que as antecessoras, mas com semelhantes doses de interesse e fascínio. Sem dúvida, mais um excelente exemplo de tal “garage nocturno” com pitadas de jam session à beira do caos terminando com o som de uma motorizada em desvario.

E são os sons mecânicos de «Monomania» que servem de mote, não confundir com moto, para a intimista «Nitebike», um exercício acústico que resulta num duelo entre voz e guitarra com contornos escuros e assombrosos. Simples, seguro e muito competente.

O ritmo encorpado, ainda que contido, regressa com «Punk (La Vie Anérieure)», a composição que encerra este misterioso “Monomania”. Os sons limpos misturam-se com alguma neblina orquestrada, mais uma vez, por guitarras sem rede e em diferentes cadências e espaços. O blur sonoro dissipa-se e as cordas simples terminam o disco na companhia do baixo.

A magia que esta dúzia de canções traz inerente resulta de três anos de paragem e algumas mudanças. Sabemos que, durante esse período sabático, Cox pensou e cozinhou dezenas de canções e pelo meio trabalhou avulso com EP’s e misturas várias, e ao chegar a “Monomania” não parece exagerado afirmar que o resultado está intimamente ligado à experiência conseguida entretanto.

Bradford é um competente escritor de canções, juntando a essa qualidade os tiques de líder incontestado de um projecto que depende muito da sua genialidade e disposição. São as suas excentricidades que conseguem produzir hits inesperados e acidentais como a versão de «My Sharona», do projecto Atlas Sound, ou composições mais complicadas como o são algumas músicas deste “Monomania”.

Essa versatilidade pode ser uma questão complicada de lidar, mas Cox consegue fazer uma gestão equilibrada do assunto. E é por isso que “Monomania” se assume com um trabalho muito interessante e bem conseguido, ainda que tal soma possa ser relativizada. Se a ideia seria fazer uma sequela punk ambiental de “Cryptograms”, “Monomania” seria encarada como um tiro ao lado, um acto falhado. Mas se, ao invés, se optar por um disco emocional e de certa forma imprevisivelmente caótico, o registo de 2013 dos Deerhunter é um objecto sem mácula.

No fundo, com “Monomania”, os Deerhunter (ou devemos dizer Bradford Cox?) conseguiram um disco que reúne o melhor dos anteriores trabalhos sem parecer uma repetição de fórmulas e pode colocar a banda no patamar dos melhores conjuntos rock da actualidade. E se, eventualmente, Cox se transformar no “Morrisey das Américas”, esperemos que ninguém dos restantes Deerhunter se assuma como Johhny Marr, pois gostaríamos de ver a banda unida, coesa e no caminho do futuro.

“Monomania” está em escuta no site da NPR. Os Deerhunter actuam no próximo dia 30 no festival Optimus Primavera Sound, no Porto.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This