“Deixa lá / Más Novas” | Edward St Aubyn

“Deixa lá / Más Novas” | Edward St Aubyn

De Wilde a Welsh em 17 anos

Já se sabe que os ingleses são um pouco estranhos, para não dizer que têm um bocado a mania: conduzem do lado errado da estrada, usam diferentes medidas para a altura e para o peso, interrompem tudo aquilo que tiverem entre mãos para tomar o seu reconfortante chá das cinco. Mas nem só com etiqueta rodoviária e regras de medição se distinguem os súbditos de Sua Majestade. Os ingleses têm igualmente um humor e uma ironia muito próprias, para além de, em tempos mais remotos, terem conhecido uma vivência social e de classes muito particular. Basta pensar em séries como “Downtown Abbey” ou “Upstairs Downstairs” e dará para ter uma ideia desta costela britânica no que diz respeito a uma ideia aristocrática do mundo.

Edward St Aubyn nasceu em Londres no ano de 1960. Estudou Literatura Inglesa em Oxford e, entre 1996 e 2012, escreveu um quinteto sobre a vida de Patrick Melrose, um ser frágil, isolado e dado à filosofia enquanto rapaz, filho de um pai violento e de uma mãe ausente e alcoólica. “Deixa Lá / Más Novas” (Sextante, 2013), com edição deste ano prestes a findar, reúne os dois primeiros livros desse quinteto.

No primeiro livro mergulhamos de cabeça no mundo de uma família aristocrática – de Patrick e seus pais -, habituados a receber em sua casa outros casais e figuras que, normalmente, lhes prestam vassalagem – nomeadamente à sua figura patriarcal.

David Melrose, sexagenário, é um frustrado ex-médico, que encontra na tirania e na perversidade os grandes impulsionadores da sua vivência. Para além de um abjecto desprezo pela vulgaridade, os seus métodos educativos «partiam da premissa de que a infância não passava de um mito romântico que ele era esclarecido demais para encorajar.» Algo que fará com que Patrick, no seu interior, vá construindo uma estranha imagem: «Não aguentava o desamparo que o inundava. Não aguentava a injustiça. Não sabia quem era aquele homem. Não podia ser o seu próprio pai que assim o esmagava.»

Eleanor Melrose, apesar de transportar a herança que permite ao casal viver uma vida de luxo, vive subjugada pelo poder do marido, que a impede de cuidar do filho como uma mãe e a faz refugiar-se num mundo habitado pelo alcoolismo extremo e por uma ausência permanente.

A história é, também ela, habitada por personagens de certa forma aprisionadas pelo poder de David Melrose, e que se reunirão em casa deste para um jantar: Sir Victor Eisen, um eminente filósofo; Anne Moore, jornalista e companheira de Victor; Nicholas, um homem que vai coleccionando mulheres e que pensa já em despachar Bridget, a actual companheira, que tem um sentido pouco apurado para a vida da alta-roda – apesar de um corpo tremendo.

É um mundo onde ninguém parece gostar de ninguém, movido pela política e pela necessidade de estabelecer alianças, onde se apunhala pelas costas e se oferecem sorrisos mentirosos a toda a hora. Quando Anne pergunta a Victor a razão de pessoas passarem a noite com alguém de quem passaram o dia a dizer mal, a resposta não poderia ser mais elucidativa: «De modo a poderem ter alguma coisa que justifique um novo insulto no dia seguinte.»

O segundo livro centra-se por inteiro na vida de Patrick Melrose, agora com 22 anos, que regressa a Nova Iorque para levantar as cinzas de seu pai. Aí chegado perde-se num mundo de drogas e bebida, tentando acalmar o circo de vozes dissonantes que cada vez mais alto se fazem ouvir na sua mente, afastando aquele que parece ter sido o grande legado do seu pai: uma absoluta tristeza e uma infelicidade paralisante.

A escrita de Aubyn é qualquer coisa de extraordinário. No primeiro livro ganha contornos de literatura clássica, com a ironia e o espírito observador à medida de um Oscar Wilde sempre presentes, radiografando uma sociedade que se move através de jogos de poder e convenções e onde, o amor, aparece no final de uma lista onde primeiro está muita coisa, praticamente tudo. No segundo livro o classicismo dá lugar à vertigem, promovendo uma viagem ao mundo de um heroinómano que não ficaria mal num livro de Irvine Welsh – aliás só ficaria bem, já que a escrita de Aubyn está num patamar bem mais elevado.

No mundo radiografado por Aubyn, visto através de um olhar clássico moderno, há uma frieza constante, uma ironia suprema e um sentido de humor habitado pelo negrume, por onde se passeiam personagens trágicos à procura de uma cura para todos os males da alma. Com muito charme e subtileza, Aubyn construiu aqui uma imensa obra-prima. Absolutamente obrigatório.

 

A Sextante assegurou já a publicação das restantes peças do quinteto, a publicar em breve: “Some Hope”, “Mother`s Milk” e “At Last”.



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