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Demian Cabaud

“Música é música e se me toca a alma quero ser parte dela”

Demian Cabaud nasceu em Buenos Aires, Argentina, estudou na Berklee College of Music e desde 2004 que vive em Portugal. Grande talento do contrabaixo, Cabaud tenta manter sempre um conceito livre na sua abordagem à música. Além de músico em inúmeros projectos, concilia ainda o ensino como docente universitário, no Curso de Jazz na Universidade Lusíada. Entre muitas das suas contribuições estão a Orquestra de Jazz de Matosinhos, o projecto “Motor” André Fernandes, Maria João, entre outros e também a nível internacional, como são os casos de Phil Grenadier, Ohad Talmor, Leo Génovese ou Gerald Cleaver. Não se considera um músico mainstream pois, como afirma, “música é música e se me toca a alma quero ser parte dela”.

Como aparece a música na tua vida?

A música aconteceu por acaso, quando tinha 10 ou 11 anos. Um grupo de amigos formava uma banda e faltava o baixista. Queria ser parte desta nova brincadeira e então pedi um baixo eléctrico à minha mãe. Foi assim que comecei a descobrir a música.

E quando decidiste que querias ser músico?

No meu caso não foi fácil. Não há músicos na minha família, nem amantes de jazz, por isso tive que fazer o caminho sozinho. No início, a minha relação com o instrumento e a própria música era um divertimento. Com o passar dos anos o estudo foi-se intensificando até se tornar uma parte muito importante da minha vida. De repente, apercebi-me da seriedade com que encarava a música e, a partir desse momento, nunca mais pensei noutra coisa.

E o jazz?

Quando acabei o liceu entrei numa escola, o I.T.M.C., o equivalente ao Hot Clube de Lisboa mas em Buenos Aires. Quanto mais avançava nos estudos mais perto do jazz me ia encontrando. Os professores falavam dos grandes do jazz e eu ia comprar os discos, cada vez mais fascinado com o género e sobretudo com o papel do baixo, com a liberdade que tem nesta música. Isso foi o que teve mais impacto em mim.

E assim surge o contrabaixo…

No terceiro e último ano do I.T.M.C. dei por mim a ouvir e a tocar jazz, mas a imitar o som e o timbre do contrabaixo com o baixo eléctrico. Tinha um grupo de colegas com os quais tocava standards, escolhíamos as músicas com base nas versões de discos que gostávamos, todos eram com contrabaixistas. Aí senti que o contrabaixo era o passo a seguir.

Fala-nos um pouco mais da tua formação académica

Estudei no I.T.M.C. e quando acabei fui para o Berklee International Network, outra escola de música em Buenos Aires que faz parte da rede Berklee no estrangeiro. Nessa altura, comecei a ter aulas de contrabaixo com Hernan Merlo, o contrabaixista mais reconhecido da Argentina. Ele morava na zona sul de Buenos Aires e eu no norte, a 90km. Lembro-me que tinha de fazer uma viagem de uma hora e meia todos os sábados para ter aulas, mas nunca faltei a uma. No segundo ano fiz a audição para a Berklee nos Estados Unidos e ganhei uma bolsa interessante. Nesse momento ficou pendente a minha ida para Boston. Um ano depois de ter começado as aulas de contrabaixo estudei com Miguel Angel Villarroel, segundo contrabaixo da Orquestra Filarmónica de Buenos Aires. Tive quatro meses de aulas com ele que me marcaram para sempre; o método dele era incrível! Em 2001 fui então para Boston estudar na Berklee, onde fiquei até vir para Portugal em 2004. Actualmente continuo a estudar com o grande mestre Alejandro Erlich Oliva, que foi o primeiro contrabaixo da Orquestra Gulbenkian durante 35 anos, casualmente também ele argentino.

Nasces na Argentina, estudas nos EUA e acabas a viver em Portugal. Fala-nos desta “viagem”. Tinhas isto planeado ou aconteceu por acaso?

Aconteceu mesmo por acaso. A ideia era ir a Berklee e ”logo se vê”. Em Boston fiz vários amigos portugueses, e o André Matos fazia parte do círculo mais próximo de amigos latinos com quem me juntava.

Em Junho de 2003 vim a Portugal em tournée com o grupo do Francisco Pais, com Nate Blehar, Leo Genovese e Ferenc Nemeth, e ficámos por cá por mais de um mês. Tocámos um pouco por todo lado e nessa altura lembro-me de me ter identificado com a cultura e o País, sobretudo com a comida. Num dos concertos que fizemos no Porto conheci uma miúda pela qual me apaixonei… Em Setembro voltei para Boston e a ideia era mudar-me para Paris, mas aterrei na casa do André Matos e acabei por ficar por cá. Entretanto, casei com a tal miúda e hoje temos uma filha de dois anos.

Berklee College of Music: era o que querias, e o que representou para ti esta instituição?

Acho que não sabia muito bem o que queria nem o que estava à minha espera quando fui para Boston. Berklee é uma muito boa escola se se sabe aproveitar bem. Tive a sorte de estudar com o Hal Crook e isso mudou a minha vida. A maneira profunda como vê a música e sobretudo como a ouve, mudou-me por completo. Tive outros professores que me inspiraram muito como Ed Tomassi, Joe Lovano, Danilo Perez, George Garzone e Frank Carlberg. O ambiente à volta da escola também foi muito importante, o circuito musical era muito rico e competitivo, no melhor e pior dos sentidos. Havia muita gente a tocar muito bem, e isso puxava por mim e fazia-me mais humilde e trabalhar mais. Também fiz grandes amigos, Leo Genovese, Miguel Fernandez, Gonçalo Marques, Jure Pukl, André Matos, entre muitos outros, com os quais cresci pessoal e musicalmente.

Já foste aluno e hoje és professor. Como avalias o ensino do jazz em Portugal?

Primeiro acho que nunca se termina de ser aluno…

Desde que cheguei em 2004 vejo que a cena cresceu muito e há malta a tocar bem, isso deve ser um bom indicador do ensino. Claro que, como em todo o lado, há boas e más escolas, e bons e maus professores, mas não tenho uma opinião generalizada sobre o ensino do jazz em Portugal…

Existe alguma limitação, por exemplo, ao nível dos conteúdos, das metodologias de ensino, dos apoios? Achas o ensino progressista ou nem por isso? É um ensino livre?

Acho que depende muito da abordagem de cada professor. Claro que as escolas implicam uma certa burocracia e talvez alguma rigidez de método, mas nas aulas posso romper com esse esquema e ter uma atitude mais livre. As minhas aulas dependem de cada aluno, ou do grupo, das necessidades que cada um tem, do ritmo de cada um assimilar os conteúdos. Acho importante personalizar o ensino…

Tendo em conta que o meio do jazz em Portugal é restrito, faz sentido falar em elitismo?

É restrito porque ainda é pequeno, mas também Portugal é um País pequeno. Acho que cada dia há mais músicos portugueses a afirmarem-se lá fora, pelo menos na Europa. André Fernandes a tocar com o Lee Konitz, Bruno Pedroso a tocar no trio do Abe Rabade, Gabriel Ferrandini e o Red Trio a tocarem em grandes festivais europeus, Sara Serpa com Ran Blake e Greg Osby, entre muitos outros que poderia dar como exemplo. Na minha opinião, a questão do elitismo tem mais a ver com o público do que com os músicos. As salas de concertos estão meio vazias e há uma ideia enraizada em Portugal de que o que vem de fora é que é bom.

Em que formações estás envolvido, como leader e sideman? Como sideman tens sido muitíssimo solicitado. Participaste inclusivamente numa mão cheia de discos...

Como leader tenho tocado mais em trio com o José Pedro Coelho e o Marcos Cavaleiro e, de vez em quando, também com o Miguel Fernandez e o Leo Genovese. Como coleader, com André Matos e Colin Stranahan no projecto “Lagarto”.
Como sideman tenho tocado com o projecto “Motor” de André Fernandes, com o trio do Óscar Graça e o trio do Gonçalo Marques, com o grupo da Susana Santos Silva, com Jeff Davis, Iago Fernandez, o quinteto de José Pedro Coelho, Nuno Costa, Miguel Fernandez e, sobretudo, com a Orquestra Jazz de Matosinhos (OJM).

Como leader editaste: “Ruínas”, “Naranja” e “How About You?”. Faz-nos um balanço destes três discos.

O primeiro disco, “Naranja”, tem composições minhas da altura em que estava em Boston. Por isso, fez sentido para mim gravar nos Estados Unidos e com alguns amigos de lá com os quais tocava regularmente, e com quem, por essa razão, desenvolvi uma relação muito forte. O segundo, “Ruínas”, é maioritariamente música improvisada e algumas composições minhas, mas sempre com uma abordagem livre. Esse grupo nasceu na OJM. A seguir aos ensaios da Orquestra ficávamos a tocar, às vezes em trio, outras em quarteto, e assim foi crescendo uma grande empatia. Dos standards passámos à música improvisada e alguns originais e o disco é um retrato disso. O terceiro disco é uma continuação desse grupo, mas o João Guimarães tinha mudado para Nova Iorque e eu queria continuar com o mesmo espírito, um grupo sem instrumento harmónico e com muita liberdade. Então, em lugar de saxofones alto e tenor, decidi fazer um disco com dois tenores, com o Miguel Fernandez, tendo desta vez como moldura alguns standards. Tento manter sempre um conceito livre na minha abordagem à música e variar a moldura, encontrar o meu espaço, ou ponto de vista, seja nas minhas composições, na música improvisada ou nos standards.

Ainda neste disco, há três faixas em trio de piano com Leo Genovese. Gosto muito de tocar com ele, crescemos juntos musicalmente e pessoalmente. Para além de partilhar casa em Boston por quatro anos, tivemos quase as mesmas aulas na Berklee.

E para quando um novo trabalho?

Um trabalho novo virá em breve, ainda este ano se tudo correr bem.

Quais foram as tuas principais influências musicais em geral, no contrabaixo e obviamente sem esquecer a guitarra?

Quando era miúdo, em casa ouvia-se Dire Straits, Phil Collins e Charles Aznavour, o meu irmão mais velho ouvia rock dos ’80 e alguns grupos argentinos, mas não poderia dizer que me influenciaram como músico, ou talvez sim…

Quando comecei a ouvir jazz, Bill Evans foi quem teve mais impacto em mim. Fui e sou viciado nos primeiros trios dele, os discos com Scott laFaro e Eddie Gomez sobretudo. Miles, com o quinteto dos ’60. Alguns discos do Ornette Coleman como “This is our music” e “The shape of jazz to come”. O trio de Keith Jarrett, claro.

No contrabaixo em particular, Scot laFaro pela maneira descomprometida como acompanhava e pelo conceito de liberdade e espaço. Eddie Gomez, Gary Peacok, pelos mesmos motivos – curiosamente os três tocaram no trio do Bill Evans. Charlie Haden, pelo som e poder de síntese. Paul Chambers, Wilbur Ware, Richard Davis, Percy Heath, Mingus e Ray Brown pelo som e a tradição. Quanto à guitarra, nunca foi um instrumento que me tenha influenciado muito, mas gosto bastante do Jim Hall….

Apesar de actuares mais na cena mainstream, és um músico muito versátil. Seria possível ver-te em projectos mais free, improvisados, ou até mesmo experimentais? Alguma vez pensaste nisso?

Eu não me considero um músico mainstream. Música é música e se me toca a alma quero ser parte dela, seja jazz tradicional, free, fado, tango ou erudita. Na minha música sempre houve uma componente improvisada muito forte e na maioria dos grupos onde toco há sempre alguma flexibilidade e abertura. Se seria possível ver-me em projectos experimentais? Claro que sim, se for feito com seriedade.

Escreves mais ou improvisas menos? Qual é o teu conceito de trabalho, que procuras em concreto quando fazes música?

Escrevo e improviso mais, para mim escrever é tomar nota do improviso.

Quando toco tento fazer com que a música tenha movimento, se mantenha viva, tento reinventar-me, não cair em lugares seguros, surpreender-me, arriscar sempre, e ser claro na mensagem. Como baixista tento também fazer com que os outros músicos soem melhor.

OJM: fala-nos sobre este projecto, como aconteceu?

Foi há cerca de sete anos. A orquestra estava num período de transição e precisavam de gente nova. Conheci o Pedro Guedes num concerto que fui fazer ao Porto, no antigo Bflat. Depois do concerto tocámos duas ou três músicas tipo jam session. Penso que deve ter gostado da minha maneira de tocar porque umas semanas mais tarde ligou-me e perguntou como estava a minha leitura, respondi “bem”, lembro-me que era uma terça-feira e ele disse: ”então preciso que estejas no Porto para ensaiar esta quinta e sexta porque temos concertos sábado no CCB e domingo em Vila Real com a OJM e o Rich Perry”. Cancelei os compromissos que tinha nessa semana e fui um pouco à aventura. No primeiro ensaio apercebi-me que não era música de big band tradicional nem nada parecido, era o repertório que mais tarde gravámos com o Chris Cheek e Jordi Rossy pela Fresh Sound Records. Estudava a música pela manhãs e à tarde ensaiávamos das cinco à meia noite. A música não é nada fácil e a parte do contrabaixo tem muita escrita. Custou-me interiorizar o repertório, mas acho que correu bem.

A orquestra é um projecto incrível onde temos a oportunidade de crescer musicalmente, temos acesso a repertório muito variado com convidados especiais que partilham connosco a sua experiência. Tocamos desde música tradicional, Ellington, Basie, Lunceford, Thad Jones, à musica moderna de John Hollenbeck, Ohad Talmor. Tivemos oportunidade de tocar a música da Maria Schneider dirigida por ela, tocámos e gravámos com Lee Konitz, Kurt Rosenwinkel. Temos ido uma vez por ano tocar a Nova Iorque no Carnegie Hall, no Jazz Standard e no Bird Land.

Que tens andado a ouvir ultimamente?

Curiosamente, tenho ouvido bastante algumas coisas da Ana Moura e da Amália… Também Bill Evans, Miles, Drew Gress, Herbie Nichols, Paul Motian, Massabumi Kikuchi, Oscar Peterson, Maria Rita, Nick Drake, Schoenberg, Richard Strauss, Frank Sinatra, Shostakovich, Jaki Byard, Thelonious Monk, Roberto Goyeneche, Mayra Andrade, entre muitos outros.



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