Dentro da Garganta Funda

Documentário sobre o filme que abanou a América.

Por 4 escudos, em 1976, folheava-se o Diário de Lisboa. Com 25 ganhava-se o estatuto de espectador de cinema. O Capitólio era uma sala de cinema alfacinha e os gelados, Rajá. Assistiam-se a tempos de folia. Os portugueses estavam sedentos de emoção. Afinal, tinham sido 50 anos de obscurantismo, recheados de medo, intolerância e moralismo. 50 longos anos que demoraram a passar.

Mas a história é cíclica e a tempos de tempestade seguem-se tempos de bonança. A Liberdade saiu à rua cheia de força e determinismo. Enquanto que a época anterior foi fechada a sete chaves e o segredo guardado.

Um pouco antes, em 1972, nos Estados Unidos da América, uma das questões sociais em discussão era a liberdade de expressão. Quer na cultura, quer para a mulher. Ao mesmo tempo, o país passava momentos de discórdia e profunda divisão. Os momentos históricos repetem-se… Em vez de um George Bush tinham um Richard Nixon. Em vez da Guerra do Iraque tinham a do Vietname. Costuma-se dizer, quando convém, que não há coincidências.

Felizmente que tempos de crise, quer social quer económica, são por vezes propícios a ideias revolucionárias. Gerard Damiano foi um dos idiotas com atitude. Homem modesto e terno, que geria um cabeleireiro com a mulher, mas que sempre teve o sonho de fazer cinema. Fê-lo em formato porno, diz-se que porque esta era a única porta de entrada disponível para um ilustre desconhecido sem o peso educacional necessário para os estúdios.

O filme “Garganta Funda” teve um estrondoso sucesso. Surpreendentemente. Foi, alegadamente, um dos filmes mais lucrativos de sempre, com um orçamento de 25 mil dólares e receitas de bilheteira à volta dos 600 milhões de dólares. E tudo por causa de um clitóris na garganta.

Foi por isso, e porque, provavelmente, os Estados Unidos sobrevivem actualmente a conjunturas similares, que Brian Grazer, um dos produtores mais poderosos de Hollywood, contratou Fenton Bailey e Randy Barbato para fazerem um documentário sobre o filme, “Dentro de Garganta Funda”. A “encomenda” do documentário adivinha a institucionalização de uma atitude nascida rebelde e crítica. O filme perdeu assim a sua essência mas não a sua alma. É um filme que marcou presença na história e marcará com certeza a sua própria existência. Só terá oportunidade de conhecer uma Linda Lovelace na vida!



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