Deolinda | “Mundo Pequenino”

Deolinda | “Mundo Pequenino”

"A vontade há-de passar um dia e, não tendo nós muitas vezes tanto contacto com o mundo real, ainda passa mais depressa." Entrevista com José Pedro Leitão

E eis que, à terceira, os Deolinda se saíram com uma grande rodela. Após o esgotamento do formato clássico, onde duas guitarras, um contrabaixo e uma voz giravam em torno de um fado com um ligeiro travo a pop, “Mundo Pequenino” mostra-nos uma banda em estado de graça.

Há amores revelados em acidentes de trânsito, rimas improváveis entre as línguas de Camões e Byron, emoções desvendadas através de pronomes e verbos mas, sobretudo, uma música que cresceu para lá do fado e se tornou gloriosamente pop. Despontam metais, revelam-se pianos, escuta-se uma percussão que aponta a festa como o caminho a seguir. Falámos com José Pedro Leitão sobre o novo disco que, no dia da edição, já foi banhado a ouro.

Quem vive neste “Mundo Pequenino”?

Acho que acabamos por viver todos. Se levarmos o mundo pequenino para um sentido mais lato das nossas canções, se calhar viverá nele nós os quatro e a equipa que nos acompanha, mas esse mundo é muito mais largo e traz nele muita gente. Fomos vendo isso nas nossas viagens: o mundo é muito mais pequeno do que imaginávamos e, com as viagens, essa distância ainda se encurta mais. Por isso acho que nesse mundo pequenino pode viver toda a gente.

É interessante ver o resultado de um tema como «Semáforo da João XXI», onde as rimas viajam entre o Português e o Inglês, ou em «Concordância», que transforma as emoções humanas em questões gramaticais. Como funciona o vosso processo criativo de escrita de canções, composição e gravação final?

O Pedro da Silva Martins traz-nos já as músicas com um esqueleto bastante bem formado, em termos de melodia, harmonia e letra. Começámos a trabalhar sobre essa base: que arranjo é que a canção sugere, que caminho lhe queremos dar. Depois disso eventualmente consideramos se os nossos instrumentos são suficientes, se ficamos satisfeitos com o ambiente que estão a dar à canção, ou se queremos convidar alguém – o que foi mais frequente neste disco. Por exemplo, no primeiro tema que referiste, temos a Joana Sá no piano. A canção fala de duas pessoas muito diferentes que se encontram num acidente de trânsito. O piano representa a personagem feminina, mais delicada; o machete – o instrumento que deu origem ao ukelele, que os madeirenses levaram para o Hawai – é o rapaz, menos sofisticado (se calhar).

“Mundo Pequenino” é claramente um passo em frente em termos de composição. Para quem caracterizava a música dos Deolinda como instrumentalmente pobre (violas acústicas, contrabaixo e pouco mais), há aqui um território novo onde parece ter acampado uma mini-orquestra (como em «Doidos» ou «Concordância»). Sentiram a necessidade de expandir o território musical dos Deolinda ou, como se diz na gíria, foi uma evolução natural?

Acho que os dois raciocínios fazem sentido. Foi uma necessidade nossa por termos uma formação com apenas duas guitarras clássicas, contrabaixo e voz, que explorámos intensamente nos dois discos anteriores. Com esses dois discos formámos também o som dos Deolinda, balizámos um bocadinho os limites onde nós estamos. Ao longo de todo este período de tempo fomos tendo outras experiências, desde os concertos com a Orquestra Metropolitana de Lisboa, os espectáculos nos Coliseus em que já tivemos alguns convidados, as experiências que tivemos com o António Zambujo ou com a Cristina Branco, que nos fez também perceber que a identidade da Deolinda conseguia ser muito mais larga do que aquilo que tínhamos imaginado de início. E daí, naturalmente, quando começámos a trabalhar com o Jerry Boys na produção deste disco, percebemos que em algumas canções poderíamos incluir outros instrumentos que nunca tínhamos usado, como os sopros que tu referiste nos «Doidos» e na «Concordância», uma maior predominância de percussão – com a presença do Sérgio Nascimento e do António Serginho -, o piano da Joana Sá ou cordas nalgumas músicas. Acho que foi um processo natural e, ao mesmo tempo, uma vontade.

«Há-de Passar» pode ser ouvido como o retrato da passividade moderna, em que a revolução passou das ruas para o facebook? E em que o medo de falar, agir e mudar parece ter tomado conta de muita gente?

Sim, eventualmente pode ser uma observação à nossa inacção e à virtualização da nossa vida. A vontade há-de passar um dia e, não tendo nós muitas vezes tanto contacto com o mundo real, ainda passa mais depressa. Fechamo-nos no nosso computador, nas nossas tecnologias, e deixamos de perceber que o mundo tem outras cores que não as do ecrã do computador.

Sentem que de certa forma se tornaram uma banda política, ou com o rótulo protesto colado às vossas músicas? Não têm receio de serem transformados em banda de comícios?

Há aqui uma coisa engraçada. Nós somos pessoas com consciência, e essa consciência é transposta para muitas das músicas. Já desde o início da Deolinda, e muito antes do «Parva que sou», havia essa consciência.; como por exemplo no «Movimento Perpétuo Associativo», tema em que as pessoas pegaram e os partidos políticos utilizaram uns contra os outros. Acho que a partir do momento em que nós registamos as canções, elas ganham vida própria e, havendo consciência nessas canções, é natural que as pessoas as utilizem para exprimir o seu desagrado nos dias que hoje correm.

Ao longo da vossa carreira, todos os discos ofereceram canções que se tornaram parte do consciente colectivo, se é que tal coisa exista mesmo. Neste disco há «Agora», como no anterior tinha havido «Um Contra o Outro». Antes de gravarem um disco vocês pensam nisto, tipo: “Que tema vamos gravar neste disco que fique gravado na cabeça das pessoas”?

Acho que já nos foi provado várias vezes que é difícil ou impossível de adivinhar. Por exemplo, no primeiro disco, a música mais utilizada de início era o «Fado Toninho», mas o que as pessoas nos vinham cantar muito nos concertos, e que nos surpreendeu muito, foi o «Fon Fon fon», que nem era para entrar no disco. Por isso acho que, mais do que olhar particularmente para cada uma das canções, procuramos que todas elas, em conjunto, formem uma unidade e façam sentido como um disco. Depois começam naturalmente a afirmar-se e a competir entre si. Podemos sempre fazer um exercício de adivinhação, mas quem tem realmente a última palavra são as pessoas. Somos constantemente surpreendidos com as músicas em que vão pegar, o que vão retirar de cada música, que camada de entendimento vão retirar da letra.

A melhor forma de andarmos com isto para a frente é abanar, como se pede em «Musiquinha»?

(risos) Acho que abanar é uma excelente maneira de irmos onde quisermos, com energia e com alegria. É a música mais Buraka Som Sistema que até hoje temos na Deolinda. É um convite à dança e acho que o António Serginho, com as percussões que gravou, ajudou imenso a fazer-nos levantar da cadeira. Aliás, quando ele estava a gravar a parte dele no estúdio, demos por nós todos na régie a levantarmo-nos, e a dançar enquanto ele gravava energicamente.

Como foi trabalhar com Jerry Boys, e que influência teve este produtor no resultado final do disco?

Andávamos à procura de alguém que conseguisse pôr em disco o som que estávamos a ouvir nas nossas cabeças, e depois de debatermos achámos que o Jerry Boys seria uma boa opção. O Jerry acompanha o processo de gravação desde o final dos anos sessenta, e tanto trabalhou muito pop/rock como, nos anos mais recentes, muita música do mundo. O que para nós foi perfeito, porque como trabalhamos o formato canção poderemos estar mais perto da pop, mas ao mesmo tempo temos uma formação em termos de instrumentação menos convencional. O Jerry de início ouviu as músicas que queríamos gravar, ainda sem conhecer as letras, fez-nos algumas observações, trocámos algumas opiniões sobre mexer na estrutura de algumas canções, como melhorar algumas delas, ou como as tornar mais graváveis. Foi um processo de partilha que se revelou muito fácil e muito natural.

O que têm preparado para os concertos dos Coliseus? Já nos podem revelar alguns segredos escondidos (cenários, músicos convidados…)?

Como há bocado estávamos a falar, este disco tem uma série de instrumentos que não são os nosso instrumentos habituais, portanto o desafio será passar o que está registado em disco para os concertos apenas com os nossos quatro instrumentos. Nos Coliseus, se calhar esse trabalho vai ser mais ligeiro, já que vamos ter a possibilidade de ter todos – ou quase todos – os convidados do disco, e vamos poder recriar muito mais fielmente o que foi gravado. São sempre concertos especiais e vão ter um cuidado ainda mais especial em termos cénicos, na escolha dos convidados, na construção do espectáculo. São duas salas muito emblemáticas e que impõem muito respeito.

O que tem de ser tem mesmo muita força?

É verdade, é uma expressão que quase todos utilizamos e que o Pedro captou muito bem. Que este nosso disco passe uma mensagem de força e uma mensagem positiva às pessoas.

“Mundo Pequenino” está agora a venda e os Deolinda vão apresentá-lo nos Coliseus a 3 e 4 de Maio (Lisboa e Porto).



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