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“Despertar” de Stephen King

Ecos de um pesadelo eletrizante

Durante o processo de escrita de Despertar (Bertrand Editora, 2017), Stephen King descrevia o então manuscrito como «um livro tão assustador que jamais o relerei depois de o terminar. Tem um ambiente desagradável e negro. Mas mais que isso não posso garantir». Foi sob esta declaração que King tentava “sossegar” os fãs mais descrentes face a obras como Mr. Mercedes que apesar de uma envolvência doentia e tenebrosa tinha um sublinhado narrativo mais próximo do thriller do que outras mais assustadoras e gore aventuras do autor de The Shinning. E, verdade seja dita, felizmente, Despertar é um excelente regresso ao mundo dos horrores cujo cenário nos remete para meados do século XX e se centra dos universos da fé e do vício.

No epicentro da estória está o pequeno Jamie Morton e Charles Jacobs, pastor de uma congregação metodista, cujas vidas se interlaçam, com sérias consequências para ambos, durante cinco décadas. Com apenas seis anos Jamie, tal como muitos membros da comunidade, está deslumbrado com o pastor e Patsy, a sua bela mulher. Rapidamente são criados estreitos laços entre Jamie e Charles e a obsessão de ambos pela eletricidade cimenta ainda mais essa amizade.

Conhecido por ser uma pessoa afável e generosa, o pastor rapidamente conquistou a comunidade mas tudo muda quando a sua família é ceifada por uma terrível tragédia. Destroçado, Jacobs não consegue lidar com toda a raiva e dor que o atormenta e amaldiçoa Deus, questionando a própria fé e o propósito de sua existência. É assim, descrente de si e da vida, que se entrega à experimentação elétrica para explorar os segredos do universo que é «uma das portas de Deus para o infinito». Como consequência, é escorraçado da comunidade e esse afastamento vai marcar e mudar a vida de Jamie para sempre.

Jamie acaba por afastar-se definitivamente da religião optando por uma vida dedicada à música, sendo um guitarrista itinerante que idolatra sexo, heroína e rock and roll, filosofia que o ajuda a afastar a sua memória do passado. Mas, inesperadamente, volta a encontrar-se com Jacobs mas percebe que ambos são agora dois homens diferentes, algo que, ainda assim, não os impede de formar um pacto diabólico que os leva a um impensável e eletrizante limite.

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Despertar é uma trama sobrenatural fascinante e um digno representante da herança narrativa de Stephen King, assumindo um perfil claramente na linha das obras de terror mais marcantes do autor. Neste livro estão presente as habituais críticas sociais tão caras a King e que encarnam na perfeição nos erráticos personagens de Jamie e Jacobs, dignos representantes da ambição desmedida na procura de um “ideal” que resulta de um niilismo que brota na sequência de paixões falhadas cujo combustível é a inesperada tragédia que leva à loucura.

Todo o romance está escrito em crescendo sendo alimentado por um suspense que faz com o que o leitor teima no desafio de ler mais uma página, de conhecer mais um passo a caminho de um abismo que invade, prende e arrepia.



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