“Dez Mil Milhões” | Stephen Emmot

“Dez Mil Milhões” | Stephen Emmott

Estamos todos fod%&”#

Sabemos há muito estar a caminhar num estreito arame suspenso sobre um precipício sem fundo. Fecham-se os olhos, encosta-se a porta e espera-se que a bomba rebente umas gerações lá mais para a frente, fazendo figas para que nessa altura os descendentes de cada um estejam a viver numa qualquer estação espacial, transformada em condomínio de luxo, com piscina, jacuzzi, massagens grátis e bar aberto.

Stephen Emmott chefia a Ciência Computacional na Microsoft Research, coordenando um vasto programa científico de investigação que abrange áreas como a biologia molecular, a imunologia, a climatologia ou os novos domínios da programação de vida e da fotossíntese artificial. Este ano, Emmott reuniu alguns dos dados que lhe têm passado pelas mãos e, em menos de duzentas páginas, lançou um alerta global sobre o planeta com o rótulo de emergência planetária: “Dez Mil Milhões” (Temas e Debates, 2013).

O livro é de uma grande clareza mesmo para quem, até agora, pensava que “aquecimento global” era sinónimo de deixar queimar o pão na torradeira ou um incêndio que levasse atrás mais de duas casas. Emmott começa por falar da inteligência e do engenho humano que, em pouco mais de duzentos mil anos, conseguiram colocar na superfície terrestre sete mil milhões de pessoas (e, de acordo com as projecções, dez mil milhões até ao final do século). Esta situação, porém, deverá ser encarada como uma emergência planetária sem precedentes.

Num livro muito bem argumentado e de linguagem simples, ajudado por gráficos e ilustrado por fotografias a preto e branco que acentuam o ar de tragédia iminente, Stephen Emmott fala-nos de coisas como o sistema climático, as ferramentas que permitiram a exploração do solo, as revoluções tecnológicas – que trouxeram a nossa dependência mortal do carvão, do petróleo e do gás enquanto principais fontes de energia -, a perda de habitats e a extinção de várias espécies, a escassez de água, o aumento de CO2 na atmosfera, o aumento da temperatura global, o aquecimento dos oceanos, a perda de florestas tropicais e regiões arborizadas ou a previsível queda da produção alimentar, antecipando a criação de uma sociedade militarizada e de cidades cercadas por muros ou arame farpado quando começarem a faltar os alimentos.

Stephen Emmott fala da urgência de fazermos algo para que se evita uma catástrofe global mas, tratando-se de um cepticista organizado, acha que dificilmente conseguiremos mudar hábitos tão enraizados como ter o smartphone da moda, andar de carro ou comer carne, pelo menos, dia sim dia não. Um livro fundamental para compreender o estado de sítio a que chegámos e que trata «do nosso falhanço: enquanto indivíduos, do falhanço dos negócios e do falhanço dos nossos políticos.» O futuro começa agora. Ou, caso contrário, «estamos todos fod%&”#.»



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