Diabo na Cruz | “Roque Popular”

Diabo na Cruz | “Roque Popular”

É um belo álbum, é o que é

Em 1981, Michel Giacometti, com o precioso auxílio do compositor Fernando Lopes-Graça, editou o “Cancioneiro Popular Português”. Aí podemos encontrar inúmeros textos sobre a música popular portuguesa, que resultaram de duas décadas a percorrer o País. Acontece que, nessa altura, Jorge Cruz não teria mais de 6 anos de idade e os Diabo na Cruz ainda não existiam. É que se já existissem correriam o sério risco de lá figurar.

Devo confessar que aguardava com alguma curiosidade o sucessor do álbum de estreia. A inevitabilidade de algumas perguntas era incontornável. “Que direcção irão seguir?”. “Será que vai ser mais do mesmo?”. “Vão surpreender?”. Para responder às duas últimas questões um não e um sim, respectivamente, são suficientes. Os Diabos na Cruz souberam crescer e conseguem continuar a surpreender-nos (de mais do que uma forma até). Já a resposta à primeira questão poderá dar azo a uma dissertação mais elaborada, no entanto é preferível fazê-lo de uma maneira mais contida, até por questões do espaço ocupado pela prosa.

É verdade que “Roque Popular” respira tradição; nos instrumentos usados; há guitarras, há percussão à portuguesa; não faltam sequer os ferrinhos, os acordeões ou os coros; há também as letras, cantadas por Jorge Cruz, que não só evocam tradições, lugares e romarias como – atenção que é importante para compreender aquilo que “Roque Popular” procura ser – olha também para o nosso presente e, quiçá mais importante, o nosso futuro. Escutem «Fronteira» onde Cruz canta “Ir pra Angola pode mesmo ser a salvação / Ou São Paulo, receber calor de um povo irmão”. Tudo isto envolto numa aura que teima em trazer uns Fleet Foxes à cabeça (elogio!).

É um álbum do presente. Sobre nós e para nós. Não há palavras ditas ou cantadas ao acaso. Como também não há vergonha em assumir e combinar influências, umas mais populares, outras descaradamente rock e, porque não dizê-lo, também descaradamente pop. Exemplos? O tema de abertura, «Bomba-canção», onde se mostra como um riff de guitarra pode ser tocado com uma sonoridade popular. É como que doce para os nossos ouvidos. Há também «Sete Preces», que começa num registo quase folclórico e que, de um momento para o outro, se transforma numa não menos bela melodia pop. Sem dúvida um dos melhores momentos do álbum. E porque não falar em «Chegaram os Santos», ou não estejam eles à porta… “Ai a mim ninguém me pára / Desde Junho é mês de farra, não se nega uma aventura”, com a bateria frenética por trás e os teclados que ora assumem um registo mais pop, ora – com um sorriso maroto – nos trocam as voltas invocam os bailes populares. Cheira a sardinha assada.

É roque popular mas não menos actual por isso. De certa forma a chave está na forma como se interpreta o significado de “popular”. É uma afirmação. É (mais) uma forma de mostrar que há quem não se conforme e que está a usar as armas à sua disposição para se fazer ouvir. É um belo álbum, é o que é.



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