rdb_diabonacruz_header

Diabo na Cruz

A super banda portuguesa "virou" o Musicbox do avesso na apresentação do seu primeiro LP. E a RDB aproveitou para saber o que os faz dançar o Vira.

Estamos no backstage do Musicbox perante Jorge Cruz. Naquele espaço mínimo estão também, antes de a entrevista começar, Bernardo Barata, Tiago Guillul e b fachada. Jorge Cruz diz-nos para entrevistarmos antes Guillul – o homem que comanda a editora do momento, a FlorCaveira. Argumentamos que as perguntas não estão directamente relacionadas com a FlorCaveira, pelo menos não de forma directa. Tiago opta por sair. b fachada vai aparecendo e desaparecendo. Vai respondendo a uma ou outra pergunta e entra em diálogos com o vocalista dos Diabo na Cruz. Entre a entrevista e as conversas – as paralelas – reunimos uma espécie de “best of”.

Comecemos pelo princípio. Jorge Cruz já não é nenhum novato. Ele formou os Superego em 1998 e lançou um álbum a solo, em 2002, “Sede”. Temos mesmo que perguntar – é desta que Jorge Cruz vai ser reconhecido pelo seu trabalho enquanto músico e não por “uma capa sépia”, como refere no seu myspace relativamente ao disco dos Superego? Cruz não se alonga demasiado. “Faço música há muitos anos, se houver mais gente a gostar, óptimo. Mas eu não mudei muito”. Sabemos que a ideia de criar os Diabo na Cruz foi do vocalista da banda, mas como e porquê reuniu este conjunto de músicos? Na verdade há quem lhe chame um super grupo português. Senão vejamos, temos João Gil e os seus 1001 projectos, b fachada e os seus aclamados dois discos que o colocam como um dos valores mais seguros no panorama nacional, Bernardo Barata (Real Combo Lisbonense e Feromona), João Pinheiro (Tv Rural) e Jorge Cruz, o tal, o homem do leme. Explica-nos: “desde que estou em Lisboa cruzar-me com estas pessoas foi a coisa mais natural. Não houve nenhum “casting”. Conheci o Barata e o Pinheiro e começámos como um “power-trio” que é uma ideia de que gosto muito. O fachada veio depois orientar-nos o caminho para as vozes.”

O EP “D. Ligeirinha”, esse documento musical de apenas quase 10 minutos, gerou algumas das críticas mais entusiasmantes dos últimos tempos, no meio pop/rock nacional. A Timeout, por exemplo, referiu-se ao disco como “a coisa mais fascinante que por cá já se escutou desde o projecto Humanos”. O crítico António Pires definiu-o como a “união definitiva e quase perfeita do melhor rock com a tradição portuguesa.” Por fim, Rui Miguel Abreu, na Blitz, descreveu-o como um conjunto de “canções iluminadas por aquelas lâmpadas que se acendem em certas cabeças certas.” Faria algum sentido falar de pressão ou receio relativamente à recepção do álbum, “Virou!”. Jorge Cruz diz que não. “Decidimos apenas lançar o EP antes do disco para introduzir às pessoas aquilo que fazemos. O álbum já estava pronto. Depois do EP, as pessoas esperavam outra coisa que não se confirmou no disco. Nós somos apenas uma banda a querer fazer boa música. Não queremos ser nenhuns salvadores da pátria”. É nesta altura que b fachada intervém: “eu quero [salvar a pátria]. Fala por ti…”. Cruz: “Sim, eu também quero, mas as pessoas estavam à espera de uma outra coisa e não foi isso que aconteceu”.

E quem é essa Dona Ligeirinha que afinal dá nome ao EP e a uma canção de “Virou!”, que também já vinha no EP? “Não é ninguém em especial”, atalha. “É uma mulher moderna que usa roupas de minhota e que não gosta de homens que lhe encham o juízo. É por isso que nós lhe chateamos o juízo”, completa.

É usual vermos inscrito nos discos da FlorCaveira a frase: “este disco não contém ortodoxia cristã”. Questionamos b fachada e Jorge Cruz relativamente a esta ideia. É uma forma de se afastarem do rótulo cristão a que a editora tem sido associada? Acabem-se com as discussões. “É uma imposição” atira Cruz. “Sim, é uma imposição” reforça fachada. “Quer dizer, não é uma imposição, é uma proposta do próprio Tiago Guillul e da FlorCaveira”, corrige. Cruz: “sim, e compreendo que com os Diabo na Cruz e toda esta ideologia leve o Guillul a se afastar. Quanto mais não seja para os filhos não perguntarem porque é que editou estes gajos”. “Estes gajos” são os Diabo na Cruz, obviamente. fachada arruma definitivamente com o assunto, “mas atenção, é verdade que a FlorCaveira está ligada à religião, mas o facto de nos afastarmos disso não implica uma não-religião.” Assunto arrumado.

E relativamente ao futuro? Os Diabo na Cruz são um projecto paralelo ou tem potencial para se tornar numa prioridade? Confrontamos Cruz com esta questão destacando que não nos referimos directamente a ele, mas sim aos outros elementos da banda que como se sabe têm outros projectos. Cruz: “Acho que toda a gente vê isto como uma coisa importante. Isto não elimina o trabalho do Bernardo ou do fachada.”

A conversa termina com mais um diálogo entre o músico e um outro indivíduo que entra na sala. Ouve-se “o que interessa em Portugal é sobreviver. O Herman [José] é um sobrevivente e em Portugal nada vale mais que um sobrevivente.” É irónico, tendo em conta o que Jorge Cruz tem vindo a fazer de há dez anos para cá. É um sobrevivente. Saibamos dar-lhe o devido valor. Quanto aos Diabos na Cruz, estão vivos e bem vivos.

O álbum “Virou!”

Jorge Cruz já cá anda há muito tempo, já o dissemos. Em 1998 formou os Superego. Relativamente ao único álbum da banda, escreveu no myspace que a crítica o elogiou por “ter uma carta sépia”. Parece provocação. Uma espécie de crítica à crítica. Os Superego terminaram mas Cruz manteve o espírito empreendedor e, em 2002, lançou “Sede”, o álbum a solo. Entretanto não mais ouvimos falar dele. Felizmente ouvimos agora.

E ouvimos também Vitorino, em «O Regresso da Lebre», e ficamos surpreendidos. E só não ficamos estupefactos, porque antes, os Diabo na Cruz – projecto que conta também com João Pinheiro, João Gil, b fachada e Bernardo Barata  – já nos tinham presenteado com o EP “D. Ligeirinha”, esse que já denunciava paisagens rústicas e rurais.

Letras rústicas e rurais, pois bem. O folclore pensávamos nós, há dois meses atrás. A música popular portuguesa, pensamos agora. Centremo-nos então nas letras de “Virou!” – há reis, fidalgos, a alta nobreza, a baixa nobreza, a burguesia, o clero, o povo, e Dom Fuas Roupinho, etc. Muitas referências históricas, portanto. É a própria sonoridade que o vai pedindo. Uma espécie de fusão entre passado e presente. As guitarras que admirámos em gente como os Bloc Party ou os Franz Ferdinand à bulha com a braguesa de fachada que em canções como «Corridinho de Verão» fazem a festa. Referimo-nos a referências provincianas, mas em «Dom Fuas Roupinho» passeamos com o nobre do século XII pela Lisboa antiga, do Chiado ao Cais do Sodré. E depois há as Portas do Sol, uma rotunda no Cacém. Passado e presente, pois então.

Os teclados são marados, alegres e eufóricos. As harmonias de fachada são um agradável bónus – em boa hora Jorge Cruz o recrutou – e a braguesa confere um som único aos Diabo na Cruz. É um disco bem disposto e em que se nota uma enorme vontade de desbravar novos caminhos e encontrar uma identidade.

Depois há o pormenor, o apreço pelo pormenor. Em «Dona Ligeirinha» não esperamos que o refrão se repita duas vezes, mas repete-se num tom emocional e desesperado. Pois bem, Paul Valéry, filósofo, escritor e poeta francês do século XIX, disse uma vez que a definição de belo e fácil é aquilo que desespera. De vez em quando vale a pena concordar.

Há uma cerrada crítica social, usando o passado para criticar o presente («Loucos») e «Casamento» que está para “Virou!” como «Movimento Perpétuo Associativo» está para “Canção do Lado” dos Deolinda.

“Virou!” não engana. E os Diabo na Cruz também não. O álbum não só confirma a banda de Jorge Cruz como o projecto português mais estimulante do momento como lhes confere a mais fundamental das qualidades: idiossincrasia. E faz falta a este pequeno Portugal novos projectos assim, que tentem desbravar novos caminhos.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This