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Dick Dale & The Sonics @ Clubbing

Tipo o Cocoon, mas em Rock. 11 de Abril.

As queixas que o Clubbing “ficou fraquito” existem desde que começou, as lamúrias sobre o pessoal que “vai independentemente do cartaz” idem e a exclamação “mas o que é que isto tem a ver com clubbing, sequer?” também não é das mais novas. Inútil portanto realçar a conexão mais óbvia entre os artistas visados neste artigo e o dancehousecontinuum (os Sonics são a última banda mencionada no “Losing My Edge” dos LCD Soundsystem) ou vir com o paleio que tanto Dick Dale como os Sonics foram “dance music” na sua altura; de qualquer forma, a minha noite de Clubbing favorita foi ao som dos pouco dancáveis e nada clubísticos Pere Ubu, e prefiro uma boa experiência musical fora do conceito publicitado a uma experiência medíocre inserida no contexto certo (olá Vitalic!).

Justifico assim a minha decisão de ignorar a programação restante (sim, mesmo os Yacht – há coisas piores que ser a nona melhor banda na DFA, mas não foi pretexto suficiente para me manter acordado) e concentrar todas as minhas modestas capacidades de análise musical sobre os dois nomes clássicos que tomaram o palco da sala 2 da Casa da Música no Sábado passado.

Dick Dale, rei da música Surf, figura de culto para coleccionistas e historiadores durante décadas e finalmente alvo de uma banalização pop-cultural total, cortesia primeiro de Quentin Tarantino (com as melhores das intenções) e depois, de forma mais cínica, dos Black Eyed Peas; é quase um milagre que “Misirlou” continua mesmo assim a ser um banger que mete respeito. Com fitinha amarrada à volta da cabeça e um olhar de quem veio vingar a morte do pai, Dale fez uma entrada forte numa sala ainda não completamente recheada. Mas se a expressão solene remetia para um durão à Charles Bronson, o comportamento de Dale nas suas escolhas musicais e no diálogo com o público lembravam mais a afabilidade de um James Coburn.

Ao longo de um concerto de duração épica para os padrões do Clubbing (hora e meia), mais próximo porventura de uma jam session numa das incontáveis praias ou tiki bars frequentadas pelo guitarrista do que do modelo “toca o teu êxito e vai-te embora” que caracterizava os concertos na altura em que Dale lançou “Misirlou”, o veterano (acompanhado por uma banda mais jovem) foi caloroso e inclusivo – até demais. Notou-se que se estava na presença de um entertainer da velha escola, alguém para quem a missão principal é agradar ao público; notou-se também que não foi tocando sets inteiros de instrumentais Surf que Dale conseguiu pagar a luz e a água durante as últimas décadas. “Smoke On The Water”, “House Of The Rising Sun”, “Ring Of Fire” de Johnny Cash cantado por Dale enquanto a banda tocava “Folsom Prison Blues” – Dick Dale é conhecido como um artista de nicho, mas não faltaram melodias trauteáveis para um público generalista.

Por um lado, houve momentos em que esta vontade de fazer a festa chegou a irritar – precisávamos mesmo de ver o Dick Dale a tocar trompete? Ou a partilhar os instrumentos com a sua banda em demonstrações que, certo, revelam alguma capacidade técnica mas no fundo têm mais de party trick que outra coisa?

Mas pelo outro lado, o Dale ainda domina o som que lhe trouxe fama: o reverb gostoso que, embora não omnipresente, apareceu em partes suficientes do concerto para este não ser uma desilusão. Um bom instrumental de Surf deve dar vontade de andar à porrada num bar de 1962, e foram várias as vezes que me transpus para a posição de rufião viajante no tempo. A música Surf vive de um impulso bastante físico, o prazer do puro som sem grandes conceitos ou pretensões; centenas e centenas de discos, na sua grande maioria bem obscuros, à procura do mesmo sentimento de satisfação física –  é aqui que podemos estabelecer uma ligação, por exemplo, ao House clássico.

Lamentável apenas que Dale, já que estava numa de versões, não se dignou a explorar os êxitos dos outros representantes do Surf instrumental – um “Wipe Out” ou um “Pipeline” teriam caído bem. Apelando para o regresso à casa das tropas americanas, e prestando tributo ao seu discípulo Jimi Hendrix, Dale abandonou o palco após um concerto satisfatório, apesar de excessivo.

Quando os Sonics, sem dúvida uma das bandas mais selvagens do Garage Rock americano, subiram ao palco, a minha primeira reacção foi de um certo desalento – Dick Dale, com o seu físico de surfista que ainda hoje luta com ninjas antes do pequeno-almoço, tinha subido demasiado a fasquia, enquanto os Sonics tinham apenas o aspecto que eu terei na idade deles – isso é, aspecto de quem não vai rockar a tua merda toda. Mas rockaram, apesar de alguma insegurança inicial, num concerto compacto, constituído apenas pelos seus originais e algumas versões de clássicos dos anos cinquenta, que na sua simplicidade e diversão eclipsou o set épico do seu predecessor.

Podiam irritar um pouco os gritos de catchphrases pelo grupo entre canções e – o que é bem mais grave – o som estava bastante mau, ficando o piano e o saxofone (ou seja, os instrumentos que diferenciam os Sonics de milhentas outras bandas do estilo) por vezes bastante ofuscados; mas o grupo deu versões com boa garra dos seus clássicos “Strychnine”, “Psycho” e “Have Love, Will Travel”. Para além do saxofinista sósia de Anthony Bourdain, o que mais me chamou a atenção no concerto foi o quão facilmente o Rock agressivo da banda se adequa aos passos de dança dos tempos modernos – havendo raparigas bonitas que encenavam coreografias de programas de música dos anos sessenta (Deus as abençoe) também não faltava quem fizesse pogo ou headbang. E funcionava, na perfeição.



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