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DJ Ride

Riding the wheels of steel.

Longe estava Ride de imaginar, quando apareceu com dois pratos e uma mesa de mistura a uma indústria ainda não tão próxima quanto isso do que tinha para oferecer, que a sua carreira alcançasse o destaque e notoriedade que assume hoje.

“As mentalidades têm mudado muito nestes últimos anos”, começou por discernir numa conversa informal. E isto para quem não conhece bem o jovem DJ poderá, dada a sua literal jovialidade, soar algo desenquadrado. O certo é que Ride é dos poucos executantes da sua geração que, na evidente capacidade do manuseamento da sua musicalidade numa determinada linha – que é a sua –  pode atirar considerações sociológicas sobre o extenso e variado público que tem acompanhado e cedido às mudanças desta imensa indústria que o cerca.

“Ao início seria impossível passar certos estilos de música que passo em determinados locais ou festivais, mas toda a música independente e alternativa chega a uma altura que ganha mais destaque e entra por canais com mais exposição”, refere contando ainda como tudo foi acontecendo. “Comecei no quarto. Fazer música e ter o meu próprio estúdio era um sonho. Consegui comprar a primeira mesa de mistura e o primeiro gira-discos num trabalho de Verão muito mal pago, tinha uns 16 ou 17 anos. Na altura nem sabia o que era a Club Scene, porque nem sequer saía de casa à noite. Ficava a treinar e a produzir. Faltava às aulas para ficar a fazer scratch em casa. Os meus pais não achavam muita piada [risos]”.

“Mais tarde conheci o Stereossauro. Foi das melhores coisas que me podiam ter acontecido. Começámos a fazer brainstorming e a tocar juntos. Depois de passar por festas na escola e ter tocado com algumas bandas, pouco tempo depois, entrei nos campeonatos de scratch/turntablism. Como a minha primeira experiência correu bem, o meu trabalho ganhou exposição e comecei a tocar mais em Lisboa, Porto, etc”.

Do seu espaço criativo, nas Caldas da Rainha, passando pelo campeonato ITF, em 2006 o disco “Turntable Food”, a estreia no domínio das DJ tools em vinil e os Festivais, a carreira do jovem Ride tem assumido uma exposição representativa daquilo em que acredita e assume como uma via cada vez mais profissionalizante das técnicas e sons que utiliza.

É de um modo sintetizado que o DJ acaba por reproduzir grande parte do seu ascendente percurso na cena musical: “o primeiro grande passo foi ter-me sagrado campeão nacional. Depois foi o meu álbum “Turntable Food”, que teve muito bom feedback.

Comecei a apostar também nas actuações ao vivo, dj sets, live acts, e inúmeras participações, desde produções para a Kika Santos, a colaborações com Micro Audio Waves, André Fernandes, Rodrigo Amado, Rocky Marsiano, João Lucas, Rui Horta, Ginga Beat, Red Bull Music Academy, Tigerman, etc …

Tudo isto tem surgido de uma forma muito natural. Se alguma destas colaborações fosse de alguma forma forçada nem sequer faria sentido para mim”.

“No ano passado, sem dúvida que a passagem pelos Festivais levou o meu trabalho a mais pessoas e ao conhecimento dos meus DJ sets que ao início não eram fáceis de compreender, devido a toda a fusão de estilos que faço, passo e remisturo e ao turntablism/scratch sempre presente,  que é algo que infelizmente o público de outros circuitos desconhece.

Todas estas etapas têm sido muito especiais para mim, sobretudo porque é um sonho que se concretizou. Estava um pouco longe de imaginar com 17 anos que alguma vez poderia dedicar-me a full time a tudo isto”, reflectiu.

“Mas ainda bem que faltei às aulas quando era puto! Ainda bem que depositei toda a energia naquilo que amo, porque graças a Deus tenho sido recompensado, gradualmente, pela minha dedicação e trabalho diário”.

O seu trajecto musical  tem de facto surpreendido, não só pela celeridade, fruto (maior) do trabalho e paixão que nele deposita, como por episódios encantadores que o pontuam. Um que veio, naturalmente, à ideia: Mulatu Astake que lhe abraçou ideias, talento e o aceitou literalmente nos braços! Foi o jovem prodigioso quem o recordou entre um conjunto de episódios que lhe mantêm acesa a fogueira da criatividade e desempenho nas artes musicais.

“O Mulatu Astatke esteve em Lisboa no LX Taster da Red Bull Music Academy. Na altura falou-se numa das lectures de um vinil que saiu com o selo do Red Bull Home Groove com remisturas do Rao Kyao. Quando acabou a lecture, ele veio ao pé de nós com um CDR, e desafiou-nos a fazer um remix de músicas do álbum dele que ia sair dentro de algumas semanas! Nós nem queríamos acreditar, parecia uma cena saída de um filme, uma lenda viva, ali ao nosso lado, a perguntar se não queríamos remisturar músicas que ainda nem tinham saído. Epic!”, recordou emocionado.

“Acho que foram feitos uns seis ou sete remixes, de um dia para o outro, e quando ele ouviu, a meio da lecture que deu, reagiu muito bem. Quando passou o meu remix, perguntou de quem era e veio abraçar-me! Confesso que soltei uma lágrima” lembrou reforçando que “já nessa altura, assim como algum tempo antes disso, sempre tive consciência que tinha um trabalho sólido. Algo a acrescentar à música em geral, e claro que este episódio foi mais um highlight”.

Das parcerias e colaborações que tem estabelecido – incluindo djing, a Supa , o “Beat Journey”, “Psychedelic Sound Waves”, etc – o caminho que Ride crê ser o seu passa por “continuar actualizado, continuar a treinar bastante e aprimorar a minha técnica, tanto nos live acts e DJ sets como na produção. Apresentar sempre conteúdos e projectos novos. Este último ano comecei a fazer DJ sets diferentes do que fazia. Por exemplo, com Beatbombers montámos um novo live act e ainda estamos a pensar criar outra performance diferente  para o final do ano”.

Ver e escutar a sua música ou ver e escutar as palavras e ideias que norteiam a sua carreira é quase a mesma coisa. Ou, pelo menos, assim o entendi.

Naquela máxima que o aponta como um – de um conjunto de benfeitores, alguns até em segmentos sonoros distinto do seu – dos claros contributos para a chamada “música do futuro” não sei se ele se revê, mas sei que revê esse como um código/”Tag” (como afirmou) que não se importará de vestir por nele sentir o conforto de novos tecidos (abordagens).

Assim, concordando ou não: “compreendo o porquê de algumas pessoas verem a minha música dessa maneira. Não faço música a pensar no tipo de catalogação que um certo projecto irá ter. Mas, como tenho explorado sonoridades, que pelas suas características, remetem para as novas abordagens musicais, aceito o ”Tag”. Acho até que o meu último CD por exemplo [“Psychedelic Sound Waves”] será mais bem compreendido daqui a uns anos do que quando saiu”.

Das próximas paragens e desejos de Ride contam-se “um novo disco de Scratch, o “Tuga Breakz”, feito em conjunto com o Stereossauro para sair nos próximos meses, o programa de rádio na Vodafone FM – Glitch Clash da Red Bull Music Academy radio (sextas das 22h às 23h) e mais umas quantas surpresas que ficam, quiçá, para um próximo artigo.

Fotografia por Cátia Barbosa & Flashead



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