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Punked!

Do novo rock à quimera punk em Portugal, um pedaço da História da música nacional em discurso directo na Rua de Baixo.

Poucas são as alturas na já longa história do rock’n’roll em que um movimento tão efémero (no tempo) quanto revivalista (na busca actual) deu azo a tanta dissecação, tertúlia, críticas e análises.

Possivelmente, se os beatniks, rockers e rockabillys dos 50’s não tivessem surgido com a efervescência que a geração de 60 tão bem assimilou e repercurtiu em bandas e figuras de proa de uma nova tribo que a urbe alimentava – a geração mod – o fenómeno de que se fala não teria sequer caminhado ou ficado gravado nas memórias menos auspiciosas até aos dias de hoje.

Muito se fala da senda inserindo-a na capital inglesa. Para muitos, o epicentro da adestrada capacidade catalisadora de um fenómeno que já estava latente e começava a caminhar com alguma desenvoltura em meados de 70.

As inúmeras bandas que, pegando na faísca deixada nas décadas de 50 e 60 pegaram fogo à pólvora já existente e notavelmente activa, foram tão incisivas e denunciantes como criativas e geradoras de uma anti-estética (para a altura) difícil de gerir, entender e/ou simpatizar, por parte da comunicação social e mesmo da crítica musical. Nem todas as que lá estiveram faziam parte do culto, assim como nem todos os que faziam parte lá estiveram. Todavia, Portugal trazia, com o yé yé, o surf music e, logicamente, o rock’n’roll, também, as influências, primeiramente na década de 60, vindas de fora. Depois dos Babies (grupo de José Cid, com covers de Chuck Berry), o novo rock português avançava com três das maiores figuras nacionais, por esta altura; Victor Gomes (Gatos Negros), Joaquim Costa (Elvis de Campolide) e Zeca do Rock (o primeiro rocker português a vingar no estrangeiro).

Estava lançado o rastilho para o desenrolar fogoso do que aconteceria mais à frente.

Em Portugal, a magnitude do fenómeno não seria tão constante como o foi na cidade de Londres e talvez as editoras não estivessem bem atentas, como sempre aconteceu a todos os fenómenos de subcultura que iam surgindo na urbe. Talvez também por isso muitos deles nunca tivessem gravado um álbum; o caso de Faíscas, que tiveram, como os Corpo Diplomático que se lhes seguiu, grande aceitação em espectáculos ao vivo, alguma divulgação por parte do radialista António Sérgio e, principalmente os segundos, alguma mediatização nos concursos do Rock Rendez Vous, mas não deixariam gravações algumas que fizessem jus ao suor e energia deixados em palco.

Em Coimbra, as emergências sentiram-se mais tarde, em 86 e 87 com É m´as foice. Mais tarde apareceriam os emblemáticos Tédio Boys (com influências quer do punk, como garage, rockabilly e psychobilly).

Na cidade de Lisboa, já na década de 80, surgem, com a crescente manifestação de novas anímicas e atitudes, líderes e personagens carismáticas que urgiam a quimera punk.

Jorge Bruto (Emílio e a Tribo do Rum, Capitão Fantasma), Pedro Coelho (Mata Ratos, actual Anti- Clockwise), Vanda Gonçalves (Dogue Dócil, Kassefazem e Peste e Sida), João Almendra (Kú de Judas, Peste e Sida), Pinela (ex-Emílio, Mata Ratos e Capitão Fantasma) e Zé Pedro (actual Xutos e Pontapés) foram, entre muitos outros, aqueles que tão bem retrataram a mística vivenciada. Numa altura em que andar no limite era, quase sempre, a palavra de ordem.

Jorge Bruto tinha 23 anos quando se estreou nos Emílio e a Tribo do Rum. ”Começou por ser uma banda de jazz punk, formada por Pinela (que tinha já tocado com Mata Ratos) e o Joãozinho… Mais tarde perguntaram-me se queria escrever umas letras e experimentar cantar e foi assim, após uma audição, que apareci nos Emílio e a Tribo do Rum” afirma JB.

Relativamente ao facto de muitas das bandas da época resultarem bem ao vivo (o caso de Faíscas) mas não chegarem a gravar, Jorge dá uma opinião que esclarece a falta de estrutura: ”era difícil na altura estar a trabalhar para nichos de mercado no nosso país. Se hoje em dia é complicado, nos anos 80 mais difícil era. No caso de Emílio, por exemplo, só ficaram algumas maquetas… O António Sérgio era o único, que me lembre, que divulgava o que se ia passando de um modo translinear”. João Almendra (Peste e Sida) junta-se entretanto à conversa. “Tinhas também o Luís Filipe Barros na Comercial, o jornal “O Êxito”, que surgiu ali nos anos 80, mas acabou pouco depois de ter iniciado, o “Sete”… e pouco mais” acrescenta.

A conversa retorna de novo a JB, agora para falar do Rock Rendez Vous. “O RRV foi a única sala de espectáculos que existiu em Portugal a sério de rock. A seguir tivemos alguns exemplos engraçados, como o Johnny Guitar, ou mesmo o Oceano, mas nem estes tinham as condições que assumia o RRV, que era um palco a sério, com luzes, camarim, etc.”

Mas Jorge Bruto, que se iniciaria neste colectivo, findo este projecto em Outubro de 88, seguira caminho, com dois dos integrantes do mesmo (Pinela e Nazaré) e formava os Capitão Fantasma. Se os Emílio eram uma banda de amigos que se juntavam pelo prazer de tocarem em conjunto, os Capitão Fantasma eram já algo mais levado a sério. Em 1990, nas festas da cidade de Lisboa, conseguem alguma projecção. “Era daquelas ideias fantásticas que deviam acontecer sempre a todas as bandas, e não só uma vez por ano, que era a de ter um palco móvel com quinze datas em sítios diferentes da cidade e que no caso dos Capitão Fantasma serviu como divulgação, permitindo que editássemos o nosso primeiro álbum pela Polygram”.
No que concerne ao facto de tanto Emílio e a Tribo do Rum cantarem como os Capitão Fantasma em português e no projecto actual (Bruto and the Cannibals) cantar em inglês é objectivo: “Estou farto do nicho de mercado que existe em Portugal e de tocar para as mesmas trezentas pessoas anos a fio. As pessoas mudam, mas são sempre o mesmo número. É, no fundo, uma tentativa de sair deste buraco e tentar entrar lá fora”.

Zé Pedro, um dos pioneiros do culto punk na capital e contínua referência para muitos músicos da nova geração, referiu a viagem de inter-rail em 1977, que lhe proporcionou os primeiros contactos com bandas que fariam parte da emergência punk rock inglesa por esta altura, passando pelos Faísca, o inevitável RRV e, até, o que se vai passando no contexto actual.

“Acho que um Clube Rock é sempre importantíssimo para a divulgação dos movimentos e das culturas que vão surgindo, neste caso na área da música, mas também das bandas de garagem. O RRV foi certamente um elemento fundamental para o boom do rock português. Era em Lisboa, os media conseguiam lá ir e faziam entrevistas com as bandas, não só nacionais como estrangeiras, para além dos concursos que fez para divulgação. E para nós (Xutos), que por esta altura já andávamos a tocar, era extremamente importante ter uma data marcada no RRV, porque independentemente, não desprezando, das outras datas, o RRV era uma coisa que nos obrigava a trabalhar, a preparar um show diferente. Os concursos do RRV eram altamente saudáveis. Tinham as reportagens todas, o Blitz também já lá andava na altura e em grande, como jornal que fazia as divulgações daquilo que ia vendo. No caso dos divulgadores, o António Sérgio era o mais internacional. Tenho impressão que naquela época, e mais ao nível nacional, quem teve muito ao lado das bandas nacionais seria o Luís Filipe Barros no programa dele da rádio, assim como o Júlio Isidro na televisão. Portanto, essa conjuntura juntou ali em 79, princípios de 80 o que se ia passando no rock nacional”.

Quando lhe falo acerca de Faíscas, não esconde o sorriso e o prazer nostálgico (qb) com que descreve essa fase inicial, que o viria a estimular nos passos que se seguiram. “Eu tinha chegado de um inter-rail em 77 onde tinha assistido a um festival de punk. Foram dois dias e penso mesmo que só não terá tido os Pistols. Teve os Clash, Damned, a primeira actuação dos Police, Dr Feelgood, Bijoux, que, era uma sonoridade mais mod parecida com The Jam, entre outros. Aquilo teve uma vibração espantosa, que me agitou, e quando cheguei a Portugal quis arranjar, se é que assim o posso dizer, aliados. Na altura houve um concurso da Música Som (revista de música) no Belenenses, onde estiveram os Arte e Ofício, os Psico, uma banda de rock psicadélico, que era o que estava a dar, uma vez que ainda não tinha cá surgido o punk. E nesse festival surgiram os Faísca. Eu quando soube que iam lá tocar os Faísca, primeira banda punk nacional, tive de ir. Seríamos cerca de dez a vinte pessoas que estavam ali pelos Faíscas. Acabámos por nos conhecer todos e eu tornei-me muito amigo do Pedro Ayres (baixista por esta altura dos Faísca). Os Xutos surgiram depois. Porque Os Faísca tocavam na minha garagem e um pouco pelo facto do Pedro Ayres me estar sempre a picar para eu ter uma banda. No dia da última actuação dos Faísca, em 13 de Janeiro de 79, o Pedro Ayres volta a incitar-me para passar o testemunho”.

Os Faísca, como muitas outras bandas, não deixariam nenhum registo. Só ficou na memória de quem os conheceu e viu a energia que deixaram em palco. Para Zé Pedro, “na altura nós tocávamos mais para nos divertirmos e ver o que é que dava. Os próprios Xutos, no início, tinham um pouco isso. O punk tinha uma coisa muito engraçada, é que como não tinha nenhuma ideologia marcante ou concreta, como acontecia, por exemplo, com os hippies, tinha sempre dois slogans que eram o máximo. O primeiro era o “No future”, vive o presente e não penses no amanhã, e o segundo “Do it yourself”, qualquer pessoa podia fazer qualquer tipo de actividade em arte. Daí o punk ter influenciado todos os tipos de arte. Devolveu, quanto a mim, a arte ao sítio onde ela deve estar, que é junto ao povo. A arte tem que ser algo que agite massas, que provoque situações, ou seja, a arte intelectual é uma chatice. É para alguns. Uns gajos que ficam a olhar para o ar e a atirar conjunturas de uma coisa que um gajo faz espontaneamente porque sente, um acorde que faz porque sente, e não tem de ser avaliado por isso”.

Zé Pedro acrescenta ainda que “o punk influenciou todos os géneros de arte desde a pintura, fotografia, como é o caso de Paulo Mussolino, um fotógrafo muito consagrado, com grande projecção, até internacional, que vinha, em 77/78, do movimento todo punk inglês e que começou a tirar fotografias de toda essa agitação, era muito amigo de Joe Strummer, etc. Sem esquecer a escultura e a moda que também seria influenciada”.

Todavia, Zé Pedro considera que criativamente, “apesar de tudo, uma pessoa não deve ficar agarrada a coisas do passado”, já que os Xutos no início remetiam-nos de uma forma mais evidente para este contexto. O “futuro é que importa” refere. “Dentro dos Xutos e Pontapés, numa fase de pós-25 de Abril, tive, julgo, uma postura um pouco pioneira (risos)“.

Embora trouxesse as inspirações da atitude do punk em Inglaterra, ZP considera que a atitude era a mesma, mas adaptada ao contexto português “era o que se pretendia”. Já com as novas bandas que se inserem no panorama nacional, pensa que, “actualmente, com a net e Myspace é tudo diferente. Pessoalmente continuo a achar que uma banda nacional que canta em inglês com a pretensão de sair, não é que me faça uma grande confusão, podia ganhar mais autoridade cantando em português e, se o quiserem, mostrar o seu trabalho de igual forma lá fora. Até porque há bandas giríssimas a cantar e fazerem-se notar que não cantam forçosamente em inglês. Gosto imenso dos Vicious Five, por exemplo, (relembra o baterista,que tinha passado por nós para o cumprimentar mesmo há uns minutos) e cantam em inglês, mas tens o exemplo os Pontos Negros, entre outros. Têm a atitude certa de como uma banda se deve posicionar e cantam em português”.

Pedro Coelho apresenta-se às minorias que iam procurando alternativas, na música e na cultura, numa formação, iniciada em 1981, que se chamou Mata Ratos. Depois da participação em concursos de música moderna e de alguma adesão do público que ia sabendo as músicas na ponta da língua, editam em 86 pela Raticida Records a maqueta homónima e vêem, mais tarde e até hoje, o seu “Rock Radioactivo” sabido de fio a pavio.

A conversa com Pedro foi, como se previa, repleta de alguma ironia, muitas gargalhadas e a boa disposição que caracteriza o músico. “A adesão foi algo espectacular! Uma autêntica bomba atómica. Só não houve mais suicídios, porque somos um país de brandos costumes”, brinca. “Ninguém estava à espera que acontecesse o que aconteceu”.

Depois de concorrerem ao 6º Concurso de Música Moderna do RRV, os Mata Ratos ficariam em 4º lugar. Pedro explica. “Sinceramente, não sei o que falhou. Julgo que não era a onda ou estilo que o júri dessa edição precisava ou estava à procura”.

Em 1996, em paralelo com os Mata Ratos, surgem os Anti Clockwise, que tem JB, ex-Dogue Dócil, como um dos mentores do projecto. Para Pedro, “este novo projecto teve, especialmente no início, mais a ver com aquilo que eu pretendia fazer pois era em inglês e deixava-me mais à vontade, dando a forma que eu, pelo menos, pretendia. Queria, no fundo, algo que me indicasse outro rumo, que me abrisse uma nova porta e me fizesse ir lá para fora“, afirma.

Pinela fala da falta que faz à capital um espaço como o Rock Rendez Vous, das bandas de segunda linha que por lá passaram e dos comunicadores que divulgavam a cena na década de 80. Numa altura em que a descoberta do som alternativo viajava de mão em mão em cassetes e tocar lá fora era explicitamente difícil.
“O RRV marcou uma época, o chamado Rock Português do princípio dos anos 80. Um espaço que continua a fazer falta em Lisboa, onde as salas de dimensões médias rareiam ou não oferecem as condições ideais para as bandas nacionais mostrarem o seu trabalho e para as bandas lá fora terem um local para prolongar as suas digressões mais a oeste da península” diz.

E relembra. “ Foi no RRV que muitas bandas cresceram e ganharam corpo, caso dos Emílio e a Tribo do Rum, Mão Morta, Peste & Sida e muitos outros. Para nós, Emílio, foi a nossa quase sede. Era aí que fazíamos muitos espectáculos com o Pita, que foi nosso agente durante algum tempo. Também os Concursos de Música Moderna aí nasceram e multiplicaram-se por todo o país, possibilitando aos músicos a exposição dos seus trabalhos em conjunto. Outra coisa de que me recordo é a quantidade de bandas estrangeiras que por cá passaram. Lembro-me de Meteors, 999, Killin Joke. Era, de facto, o único palco em Lisboa por onde passavam essas bandas de segunda linha, que não enchiam o Coliseu, mas rendiam para quem gostava.”

Acerca da maior, ou não, disponibilidade para tocar lá fora no passado/presente, Pinela arrisca: “A maior diferença para mim é a abertura do mercado internacional. Hoje, é possível bandas portuguesas tocarem lá fora, muitas com êxito. Para além de outras tantas estrangeiras cá passarem. As bandas nacionais têm de contar com isso e aproveitar. Por outro lado, considero, como referia há pouco, que os clubes onde vai sendo possível fazer um circuito e criar culto de ver música ao vivo rareiam. Hoje temos os festivais que, se por um lado possibilitam ao pessoal ver bandas por pouco dinheiro, também os fazem gramar (ironiza) com coisas que não gostam. Acho mesmo que o futuro é das salas/clubes e não dos eventos efémeros organizados uma vez por ano. Todas as capitais europeias possuem várias salas médias de espectáculos de música menos Lisboa!” condena.

No que toca à diferença de postura que as bandas hoje assumem é premente. “A grande diferença que vejo nos jovens músicos de hoje é a maior quantidade de atractivos que a vida lhes oferece. No meu tempo, quando não havia nada para fazer, ia-se ensaiar e tocava-se até soar bem, sem desistir. Acho, em parte, que esse espírito morreu. As pessoas habituaram-se a ter tudo feito”.

Mas Pinela não esquece, também, aqueles que melhor souberam levar as sonoridades a quem as procurava e delas necessitava. “O António Sérgio foi um personagem único e não houve, por cá, quem se equiparasse a ele. Acho que o público era muito pouco informado das ondas emergentes e ainda hoje o é. Só se ouve o que está na moda ou que as editoras nos impingem! Quem ouvia punk, rockabilly ou psichobilly por cá comprava ou mandava vir os discos lá de fora e a influência do público era feita por bandas pioneiras. Os Emílio e os Cães Vadios, do Porto, deram origem a muitas bandas que vieram mais tarde e músicos que, ainda hoje, tocam noutras bandas. Eu pessoalmente gravava cassetes com música que era difícil arranjar por cá e dava aos meus fãs que, por sua vez, iam regravando uns para outros e mesmo entre nós era assim que as coisas aconteciam e se divulgavam no underground. ”Actualmente, acho que a coisa está muito mais pobre. Antes o Blitz era semanal e de vez em quando havia quem se atrevesse a lhe fazer concorrência, como o Rockweek, o Se7e e outros. Hoje quase nem compro jornais nacionais, porque para ter as notícias em primeira mão basta a net, o myspace, que veio dar uma reviravolta na forma de ver as coisas”.

Quando lhe pergunto sobre os agrados musicais no panorama actual, não se nega a dar a entender o que lhe entra no ouvido. “Cada vez oiço mais coisas e continuo a investigar coisas do século XX, especialmente entre 1940 até aos anos 80. Nomes como Heavy Trash, Southern Culture on the Skids, Untamed youth, Fuzztones, Mike Sanchez ou os portugueses 49 Special. Também Andre Williams e editoras como a Vampisoul que nos vendem som alternativo ao som corrente, muita música de grande qualidade de origem latina. Cash é hoje, felizmente, um músico conhecido por todo o lado e Jerry lee Lewis também o deveria de ser!” reclama.

Vanda Gonçalves

Vanda iniciou o seu percurso musical quando tinha apenas cinco anos de idade mas foi em 1986, quando formou os Dogue Dócil (sem discos editados, apenas demos) que o seu nome ficaria também gravado na mente de muitos como ligado ao movimento punk rock de 80. Os Dogue Dócil venceriam em 89 o Festival de Música Moderna de Silves. Mais tarde Vanda é convidada para vocalista dos Peste e Sida (na altura da eminente saída de João Almendra dos comandos). Chegou a fazer alguns espectáculos da digressão “Portem-se Bem”, como vocalista a par de João Almendra. Depois entraria num trabalho de composição do novo disco “Peste e Sida é que é” tendo, entretanto, saído João Almendra. Mas a imagem de Vanda esteve, durante muito tempo, associada à cumplicidade com o caso do assassinato do dirigente político do PSR, devido à afluência, que não conseguia controlar, de skinheads aos concertos da banda. Este facto fez com que muita da comunicação social fosse abafando o nome e imagem da vocalista. Sentiu-o, ainda mais, quando Luís Varatojo e João Sampayo (ambos Peste e Sida) lhe pedem, pela conotação a que entretanto toda a imprensa, e não só, a associavam, a mudar de nome e imagem. Vanda acabou por sair, retornando então a Dogue Dócil. Em simultâneo, mais especificamente em 93, surgem os Kassefazem, que era uma banda de derivas sónicas mais distintas a puxar para o hard rock/metal, que chegou a ter o seu álbum de estreia rotulado pela crítica como um dos melhores de 93.

Hoje em dia, embora pontualmente já tivesse acontecido no passado, tem sido usada como freelancer, tendo participado em discos como o dos alentejanos Anonimato, Lovedstone (numa balada ao jeito blues que também conta com a participação de Rui Veloso), Anti-Clockwise, Confissões de Adolescente (trabalho realizado por Alex – Rádio Macau e Wordsong – e Nuno Grácio – Wordsong), locutora de rádio e para dobragem de vozes na TV.

“Nunca tive pretensões ou grandes ambições, nem mesmo em Dogue Dócil quando a banda estava a alcançar alguma notoriedade e ganhámos os concursos de música moderna. Sempre encarei tudo naturalmente, tirando a parte de me quererem mudar o nome e pôr uma peruca, devido ao facto de o meu nome passar durante algum tempo com uma conotação que eu própria não entendi muito bem, já que era inclusive amiga da pessoa em questão (referindo-se ao elemento morto do PSR). Considero que tivemos bons músicos, boas composições, bons vocalistas, pois éramos dois (referindo-se a Kassefazem). Tivemos foi, de facto, pena de não ter entrado numa editora melhor. Era uma editora independente”.

Um aspecto que Vanda considera ter sido positivo em Dogue Dócil foi o de todos virem de circuitos distintos e terem influências diversificadas, o que, segundo a vocalista, enriqueceu, “e muito”, o projecto. “Eu, por exemplo, fazendo parte de uma geração de músicos de Almada, tinha gostos particulares e eram um pouco as minhas influências e o que, num circuito fechado que era onde me movimentava, absorvia. Ouvia muito Smiths, por exemplo, o rock alternativo que ia surgindo, mas também punk”.

“Apesar de sempre termos sido uma banda bem vista, especialmente por quem ia acompanhando o que aparecia nesta época, tínhamos uma má conotação, devido à tal questão atrás referida, em que a imprensa insistia e em nada facilitava. Talvez fosse o facto de ser uma maria-rapaz na altura e ter o cabelo rapado… E agora, como se pode ver, tenho-o bem comprido (risos)”.

João Almendra abraçava a rebeldia que se sentia em meados de 80 e entra para os Kú de Judas. Mais tarde, dá-se um pequeno episódio com Peste D`el Pop (primeiro nome dado à banda que mais tarde se viria a chamar Peste e Sida) num concurso de música moderna inserido num festival jovem e que servia de apuramento para a Festa do Avante, em que não ficariam muito bem classificados. Mas isso não terá sido razão suficientemente plausível para o demover, até porque os júris destes concursos tinham gostos particulares que, muitas vezes, não permitiam o encaixe noutros que iam tentando fazer-se sentir e ouvir. E o punk rock terá sido, sem dúvida, um deles.

“Os Peste D`el Pop deram esse primeiro concerto em 86. Lembro-me que tinha estado na noite anterior na Cruz Vermelha com os Kú de Judas e mais umas quantas bandas e, entretanto, o Sampayo já me tinha falado nesta formação e arranjámos um nome à pressa para esse concurso. Mas resultou mal o nome (risos), porque houve uma vez que saiu num jornal Pastel Pop. Então resolvemos mudar e ficou só Peste. Mais tarde, para aí no nosso segundo ou terceiro concerto, julgo que nas Belas Artes em Lisboa, resolvemos fazer o trocadilho e juntamos Peste e Sida. A ideia do nome, que ficou até hoje, teve que ver a morte de António Variações que na altura foi dos casos de morte por HIV mais falados em Portugal ao nível artístico”.

A postura era de alguma incisão e de contrariar os tabus para a altura “mas sempre com uma certa ironia e pragmatismo ao mesmo tempo. Tentando sempre fugir daquele tipo de música um pouco quadrada que também se fazia e colocando um pouco mais de informação, não só em termos de letras como musicalmente. O João Alves, por exemplo, tem sete anos de música clássica. Eu não entendo muito (risos) e aprendemos todos uns com os outros. Claro sei algumas notas, mas nada que se compare. Como o João Sampayo dizia, não procurávamos a verdade mas tentávamos, antes, desmascarar a mentira e fomos uma banda que ao surgir tentou passar uma certa mensagem, mas com alguma categoria, que vinha um pouco da educação e formação que tínhamos na altura. Tanto eu como o Sampayo éramos de esquerda e não escondíamos isso. Vivemos o 25 de Abril enquanto adolescentes e assistimos à luta de classes e aos problemas do quotidiano que tentámos sempre passar naquilo que fazíamos e em que acreditávamos. Considero que fomos, como outros, a voz de uma geração. Todos nós, os Peste e o pessoal de outras bandas que surgiram antes e na nossa altura, tentavam de alguma forma passar essa mensagem. A forma como depois a passavam era com cada uma delas. Nós tínhamos uma atitude mais punk/new wave, mas mais agarrada ao punk, sem dúvida. E isso tinha tudo a ver com as diferentes influências de cada um”.

“O punk é sobretudo uma atitude, um estado, como é a adolescência. É uma altura para perceberes e pisares o risco, que, infelizmente, esta geração pisou muitas vezes. Vivia-o até ao limite. Havia a necessidade de fazer muita coisa e ao mesmo tempo e isso fazia-nos viver como se o amanhã fosse o próprio presente.
Percebo perfeitamente a necessidade actual de algumas bandas cantarem em inglês, mais ainda estando na União Europeia e num mercado global, mas na altura as bandas queriam mesmo cantar em português e mesmo antes, o novo rock, que já faziam os Faísca, Tantra, Corpo Diplomático, etc, tinham essa vontade. Sinceramente, penso que o RRV trouxe uma linha de pensamento e de estética que não havia para trás. E foi a altura em que o rock falado em Português teve mais pujança”, complementa Almendra.

Eles, e tantos outros que aqui não estão, estiveram lá e fizeram parte de um movimento de que ainda tanta gente fala. A sociedade da época era diferente, sem dúvida, a vontade e entrega também. Talvez por isso, também fossem diferentes. Estávamos no início do Portugal Rock. Para a frente é que é o caminho! (como subentendeu Zé Pedro em conversa).



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