Doclisboa 2013 – Reportagem

Doclisboa 2013 | Reportagem

Em Outubro, o mundo inteiro coube em Lisboa.

COMPETIÇÃO INTERNACIONAL

A sessão de abertura do festival fez-se com Pays Barbare de Yervant Gianikian e Angela Ricci Lucchi, filme que integrou igualmente a competição internacional de longas-metragens. Pelo seu conteúdo político e militante, a mais recente experiência cinematográfica da dupla de realizadores é um manifesto antifascista e serviu para dar o tom de toda a programação do festival, colocando um espelho em frente ao espectador e obrigando-o a reflectir forçosamente sobre aquilo que vê, evitando assim qualquer tipo de atitude passiva (questão retomada pelas próprias directoras do festival no fim do mesmo). O filme consiste numa montagem de ritmo hipnótico de pequenos vídeos da época do fascismo italiano e do colonialismo da Etiópia, manipulando-os através de uma estetização experimental: a velocidade dos fotogramas é acelerada e desacelerada, a película é saturada de cores tão violentas como o carácter das políticas que critica. No entanto, Pays Barbare beneficiaria mais se permanecesse mergulhado no silêncio inicial e confiasse apenas no poder das imagens para veicular a sua mensagem – rapidamente a repetição cantada dos diálogos parece forçada e artificial, esgotando-se passado algumas sequências.

Pays Barbare de Yervant Gianikian e Angela Ricci Lucchi

Os melhores momentos de Kelly são aqueles em que a protagonista que dá nome à longa-metragem de Stéphanie Régnier não se encontra em campo, pequenos episódios de natureza esporádica em que a câmara observa de modo quase voyeurista as vidas dos vizinhos nas varandas que circundam o espaço onde decorre a conversa entre as duas mulheres. A tentativa de traçar um percurso real da emigração europeia por intermédio de um meio narrativo invulgar (o caderno de Kelly é o responsável por toda a continuidade da acção) é ambicioso e o filme não se encontra à altura disso. A realização é constantemente indefinida, nunca decidindo verdadeiramente o que quer mostrar e o porquê de o fazer – não são raros os planos desfocados do mar ao longo do filme ou em que Kelly diserta sobre assuntos que interessam apenas a si própria. Assim, o ponto de partida sociológico de Kelly é esquecido e muito do seu conteúdo parece dispensável e gratuito. No final, fica a sensação de ter visto uma obra completamente irrelevante para o estudo do actual fenómeno migratório.

Cha Fang é a primeira de obra de Zhu Rikun e consiste num plano fixo que acompanha toda a duração do filme. O realizador teve um sentido de oportunidade incrível ao preparar com antecedência uma câmara para a eventualidade da polícia o querer interrogar pelo apoio demonstrado a candidatos activistas na China. Tal situação confirmou-se e o que resulta é uma denúncia dos abusos por parte da autoridade e dos métodos que utilizam para tentar forçar uma confissão. As perguntas óbvias que os polícias insistem em fazer repetidamente e o desconhecimento que revelam sobre questões básicas produzem um interrogatório ridículo e de carácter quase cómico, se ignorarmos a óbvia repressão ideológica que Rikun aqui consegue expor. Por surpreendente coincidência, grande parte do que acontece até que os oficiais abandonam finalmente o quarto do hotel confere elementos bastante interessantes a Cha Fang – como o facto de também estes filmarem a inspecção – e isso torna-o um dos filmes mais notáveis da competição internacional de curtas-metragens. 

Em Mauro em Caiena, escreve-se uma carta a um tio no passado, num tempo impossível e distanciado da vida real. Estranhamente poético, tenta reconstruir os pequenos pormenores que constituem o que deve ter sido a infância deste homem, fantasiando e delirando com os mesmos. Leonardo Mouramateus filma com um olhar inocente as ruas que este percorreu antes de partir sem motivo incerto – talvez pelo mero desejo de partir, procurando algo novo. Filma a família, filma aquilo que (ainda) ficou de Mauro e também aquilo que começa lentamente a desaparecer com a invasão da paisagem. O filme resulta de um óbvio trabalho de intimidade com o tema tratado, conseguido pela narração apaixonada que Mouramateus faz e de um constante desejo de mudança que se manifesta em todos os momentos – mesmo que esta seja apenas sair da festa e ir para o passeio em frente embriagado pela vida. É «tudo culpa do amor», nas palavras do realizador.

Desde a sua projecção no Festival de Veneza que Feng Ai foi recebido com entusiasmo pela maior parte da crítica internacional. Wang Bing é já uma das grandes figuras do cinema contemporâneo e presença assídua no Doclisboa (na edição anterior, chegou mesmo a ganhar o prémio da competição internacional com San Zimei). Apesar de este ano não ter conquistado novamente o almejado prémio, Feng Ai é o grande filme desta edição do festival e merecerá um artigo especial de análise mais extensa na RDB. Trabalho de resistência e lição de cinema, a película acompanha a rotina dilacerante de uma ala masculina num hospital psiquiátrico – que, de hospital, pouco terá – e mostra que a realidade dos mesmos é bem mais assustadora e degradante do que os filmes de ficção tentam frequentemente retratar. Contudo, não é pela violência que Wang Bing surpreende mas pelos momentos extraordinariamente luminosos que consegue captar no meio da decadência, da observação que faz da ternura a nascer entre a brutalidade.

COMPETIÇÃO NACIONAL

Tendo em conta os anteriores trabalhos de Margarida Leitão, Cara a Cara parece um intruso e uma espécie de acidente de percurso na sua filmografia. Todos os seus filmes têm uma consciência social e um sentido de forte intervenção política e seria de esperar o mesmo num trabalho que aborda um tema que divide tanto a opinião pública como a tourada. Mas o que a realizadora portuguesa faz em Cara a Cara é limitar-se a seguir a vida dos forcados portugueses e mexicanos para lá das arenas, tentar perceber como são as suas relações e os paralelismos que se estabelecem entre as mesmas e as corridas de touros. O filme tem breves momentos com algum fulgor e isso é inegável (como a sequência de silêncio no balneário) mas ao estar ausente qualquer desejo de entrar em questões éticas ou sequer reflectir sobre o que se vê, o que resulta é uma simples ilustração dos laços que existem entre estes homens. Terá interesse para quem gostar desta área e a defenda como sendo cultura, mas para outros parecerá apenas um vislumbre do interior destas comunidades.

Tabatô, a nova curta-metragem de João Viana, é apenas uma nova montagem de alguns dos planos do filme A Batalha de Tabatô. Os elementos que interessam referir são os mesmos do trabalho original – a fotografia que alterna entre o preto e branco e o vermelho, criando assim um contraste visual e uma proposta estética interessante, e o uso do som que permite a concepção de um ambiente tribal na aldeia africana onde só entram os músicos. Tudo o resto parece dispensável e este novo trabalho é mais um exercício fílmico de predomínio da forma sobre o conteúdo do que outra coisa. E neste aspecto, a longa-metragem é melhor pois oferece, pelo menos, algumas explicações quanto à narrativa. Para os espectadores que ainda não tiveram contacto com a mesma, Tabatô parece uma sucessão desordenada de pequenos episódios surreais que poderiam funcionar como um trailer mas não enquanto objecto artístico.

 

A Batalha de Tabatô

Sobre Karukinka pouco haverá a dizer e o filme não é mais do que um belo desfile de imagens: Mário Gomes e Elisa Balmaceda passeiam pela Terra do Fogo durante o dia e tentam investigar algum do passado do próprio lugar físico. A dupla de realizadores faz um retrato do arquipélago descoberto pelos espanhóis e frequentemente ignorado e revela algumas paisagens de invulgar beleza do local.

OUTRAS SECCÇÕES

A sessão de homenagem ao recentemente falecido realizador Paulo Rocha esteve inserida na secção Riscos/New Visions programada por Augusto M. Seabra, que continua a ser uma das plataformas de experimentação mais importantes do festival. Dela fizeram parte novos filmes de João Pedro Rodrigues e Miguel Gomes.

João Pedro Rodrigues tenta em O Corpo de Afonso desmistificar o corpo do primeiro rei de Portugal procedendo à exploração do corpo de uma série de entrevistados adeptos do culturismo. Por antítese ao do rei (cheio de feridas de batalha, mutilado e constantemente martirizado), apresentam-se corpos cobertos de tatuagens e que são agora excessivamente valorizados na sociedade. Se o conceito do projecto encomendado por Guimarães enquanto capital da cultura parece interessante, a realização prática do mesmo fica aquém do esperado e a utilização do chroma key parece até amadora e sem qualquer propósito. Já Allegoria della Prudenza, feito exclusivamente para o Festival de Veneza, é um merecido e grande tributo a Paulo Rocha. Em apenas dois minutos, o vento leva-nos numa odisseia do túmulo de Mizoguchi ao de Rocha, lamentando a perda dos grandes do Cinema.

Redemption é indubitavelmente um dos filmes mais surpreendentes do ano. Com nova longa-metragem depois de Tabu planeada para 2015, Mil e Uma Noites, Miguel Gomes encadeia diferentes histórias que eventualmente acabam por se fundir num final nada menos que assombroso, em busca da identidade comum da Europa. Uma criança desiludida com Portugal, um pai amargurado, um velho que reflecte sobre o seu primeiro amor e uma noiva atormentada por Wagner preconizam o fim da civilização europeia, confundindo características reais da actual crise socioeconómica com biografias ficcionadas e irónicas. Este aspecto duplo de Redemption aliado a um domínio total da montagem e da fusão de imagens tornam-no numa verdadeira experiência que deslumbra pela imprevisibilidade do seu argumento e pela implacável crítica política – não há possibilidade de redenção para quem asfixia uma nação.

Doclisboa 2013 - Reportagem

Mais do que efectuar uma reflexão sobre os males do liberalismo, Pussy Riot: A Punk Prayer preocupa-se em expor a história das Pussy Riot, acompanhando todo o julgamento do grupo russo punk e feminista em virtude de uma performance explosiva na Catedral de São Basílio, símbolo da união do Estado com a Igreja. O que impressiona no documentário de Lerner e Pozdorovkin é a honestidade com que os factos são apresentados, não tentando vender nenhuma ideia nem manipular o que verdadeiramente aconteceu. Remexendo não só no passado de cada uma das integrantes do grupo das balaclavas como no próprio arquivo histórico da Rússia Soviética, o caso que levou centenas de artistas a intervir em defesa do movimento é aqui visto a uma nova luz e permite ao espectador tomar uma posição quanto à luta das Pussy Riot.

O projecto Doc Alliance de que o Doclisboa é agora membro trouxe ao festival filmes com visões peculiares sobre o mundo, integrados nesta nova secção. Pevnost é um deles e dá conta da vida negra de alguns habitantes da Pridnestróvia, província esquecida cujo destino assenta nas mãos da Moldávia e da Rússia. Neste paraíso infernizado, no qual um habitante confessa querer fazer um documentário sobre o mesmo e chamar-lhe «Small Soviet Union – The Republic of Evil», o líder está no poder desde que as pessoas se lembram e tenta incutir um espírito de exaltação dos valores nacionais, através de tentativas de encenação do poder que acabam por cair no ridículo. Pevnost, que encontra a nação num tempo de mudança e em vésperas de eleições, substitui o voiceover clássico pela imagem televisiva – esta é o verdadeiro locutor do filme e dá conta do que vai acontecendo por entre o nevoeiro do território. Quase uma tragicomédia, debate-se com as questões da identidade cultural e do que define um povo.

Doclisboa 2013 - Reportagem

Na sessão de encerramento, a direcção do festival elogiou o trabalho da equipa e salientou que nos encontramos em «tempo de choro e de luto» pois o futuro das artes no país é cada vez mais incerto e desanimador. Referiu também o carácter político desta edição do Doclisboa e que o objectivo do mesmo continua a ser criar uma comunidade que «pensa em conjunto sobre o mundo que nos rodeia» e que se propõe a lutar por uma maior valorização do Cinema em Portugal. A cerimónia de entrega dos prémios foi seguida do visionamento de Manuscripts don’t Burn de Mohammad Rasoulof, convidado para presidente do júri mas que não pode desempenhar o seu papel nem estar presente no festival por se encontrar impedido de abandonar o país pelas autoridades iranianas, que viram no filme uma crítica violenta ao regime. Com uma cinematografia  surpreendentemente polida, foi a maneira ideal de terminar esta edição, alertando o público para «todo e qualquer regime que se consegue impor calando manifestações artísticas».

 

A lista completa de premiados pode ser encontrada no site oficial do festival.

 

 



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