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“Um salto em frente para o documentário português”

Sérgio Trefaut sem rodeios

No rescaldo do doclisboa, colocámos algumas questões por email a Sérgio Trefaut, director e programador do maior festival de cinema documental de Portugal.

Em cima da mesa estiveram os seguintes assuntos: O que o doclisboa teve de novo em comparação com os anos antecedentes, a aceitação por parte do público, a definitiva quebra de relações do doclisboa com a RTP e a condição do cinema documental português.

Quais as diferenças relevantes entre a sétima edição do doclisboa e as edições anteriores?

O doclisboa 2009 foi claramente marcado pela presença de Jonas Mekas, pela criação da secção de médias-metragens, pela homenagem a Pina Baush, pelo Foot Doc e por um destaque muito maior das obras portuguesas. 2008 também ficará para a história do doclisboa como o ano em que rompemos definitivamente com a hipocrisia do Serviço Público de Televisão, que declara apoiar o documentário e na realidade não o faz, que pretende ser uma “televisão de excelência” e é um canal de pouquíssima exigência e nenhuma excelência.

Acha que as grandes apostas do Doclisboa: a retrospectiva Jonas Mekas, Balcãs em Foco, Foot Doc, Love Stories, Heart Beat e a homenagem a Pina Bausch foram bem recebidas pelo público?

O público reage não apenas às secções per se, mas também aos horários de programação. É nítido, por exemplo, que as sessões das Love Stories e dos Balcãs em Foco foram claramente prejudicadas pelos horários matinais. Em contrapartida, todas as sessões nocturnas têm tendência a encher, especialmente quando recebem grande destaque mediático.

Qual é o seu balanço geral da sétima edição?

Foi uma edição de continuidade a nível de público, consolidação de objectivos, mas sobretudo um salto em frente para o documentário português, que teve um conjunto assinalável de obras marcantes e com potencial de distribuição tanto nacional, como internacional.

Cada edição tem batido o recorde do número de espectadores da precedente? Que factores acha que são os responsáveis por cada vez mais pessoas irem ao doclisboa?

Nas três últimas edições, ou seja desde 2007, mantivemos um público estável, entre os 31 e os 33 mil. Esse número cresce de alguns milhares com as extensões. Mas há sempre pessoas que vêm ao doclisboa pela primeira vez. E há novos públicos: docs 4 kids, sessões escolares, workshops. Após 3 anos de estabilidade é difícil pensar em estratégias de crescimento. O importante é continuar a divulgar. Afinal de contas, também acontece irmos a universidades e falarmos com alunos que nunca foram ao doclisboa.

Em que medida é que as suas expectativas foram superadas?

Não tinha expectativas, senão a de cumprir o prometido. Isso foi feito.

Quais as consequências do docLisboa ter rejeitado o apoio da RTP este ano?

Temi muito que o corte de relações com o principal meio de divulgação pudesse afectar de forma grave a afluência de público. Isso não aconteceu. Temos um público fidelizado e a cobertura mediática, mesmo sem a RTP, continua a ser impressionante.

Este é para si “O ano de maior maturidade do cinema português”. Refere-se exclusivamente ao cinema documental? Pode explicar o que quis dizer com esta afirmação?

Refiro-me claramente ao conjunto das longas-metragens documentais presentes no doclisboa 2009 que, estou certo, terão uma carreira internacional assinalável e merecem em muitos casos uma distribuição nas salas de cinema comerciais em Portugal. Há pelo menos 5 filmes que, se forem lançados em sala, terão bastante mais público do que costuma ter a ficção nacional. Creio que deveria ser um assunto de reflexão por parte do ICA. É urgente encontrar formas de levar estes filmes ao público de modo a reconciliar os Portugueses com a produção nacional.

Em que se revela a falta de apoio aos filmes documentais portugueses?

A principal falta de apoio ao género documentário, se compararmos Portugal com países funcionais da Europa, é a incompetência do Serviço Público de Televisão no que toca ao documentário. Não há verdadeiros especialistas, não há programadores de documentários, não há investimento à altura, não há uma preocupação em criar hábitos culturais na população. Aquela casa vive “orgulhosamente só”, desinteressada dos melhores exemplos europeus e não tem consciência cívica. A televisão é importantíssima para a formação de valores e de conhecimento na população, quer eles queiram, quer não.
Por outro lado, neste momento, quando se faz notar uma emergência de obras interessantes para as salas, também sente-se a falta de apoio aos canais de distribuição. Os filmes ficam prontos, há muita vontade de os ver, mas não há sistema que os permita exibir.

Pode adiantar seja o que for quanto à próxima edição?

Ainda é muito cedo para definir os detalhes do programa. Há, por exemplo, vários cineastas convidados para retrospectiva, mas a/as retrospectiva(s) só ficará/ficarão definida(s) quando acertarmos as datas com um ou dois de entre eles. Uma das apostas em discussão é a de ter menos filmes e mais repetições de cada filme. Assim seria mais fácil ver tudo o que desejamos.

Sérgio Trefaut ilustrado por Isabel Salvado



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