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O Cinema não Acaba no Outono

Até Dezembro existem importantes festivais e ciclos de cinema que nos vão obrigar a sair de casa. Esta é uma antevisão do que podemos ver até ao final do ano.

Depois de curada a ressaca das férias é tempo de voltar ao trabalho, ou seja, ver filmes. O frio não significa que estejamos obrigados à prisão domiciliaria: não faltam razões para sair de casa e ver bons e importantes filmes numa sala de cinema em condições.

A começar este mês e contando com a presença da equipa RDB, o DocLisboa 2010 arranca a sua oitava edição, contando com duas retrospectivas essenciais, para além das competições nacionais e internacionais, e outras sessões exclusivas do melhor que o documentário tem para nos oferecer. Esta edição tem como homenageado um dos pais do documentário, Joris Ivens, nascido na Holanda em 1898 e falecido em 1989. A história de Ivens é também a história do cinema moderno e do século XX, tendo vivido as duas primeiras guerras e o apogeu do Comunismo, sendo um acérrimo militante desse movimento sociopolítico. O seu pai era o dono de uma loja de fotografia, facto que o impulsionou a filmar o seu primeiro filme (um Western!) aos 13 anos. As suas primeiras curtas-metragens são caracterizadas por uma cinematografia exemplar e provocaram impacto no seu país. Estudou economia para continuar o negócio do seu pai mas começa a interessar-se pelos ideiais da luta de classes e parte para a União Soviética em 1929. Volta à sua terra natal em 1932 e realiza o documentário “Song of the Heroes”, quebrando a sua relação com a ficção.

Os seus documentários começam a ficar cada vez mais arrojados, Ivens viaja pelo mundo inteiro e cada novo filme é mais imponente que o anterior. Nunca goza da sua relativa fama, chega mesmo a usar o dinheiro ganho para ajudar associações com ideais comunistas. Verdadeiros poemas de consciência social que relatam atrocidades fascistas ou que chamam a atenção para a invasão da China pelo Japão, entre outras situações de relevo. Em 1954 ganha o prémio internacional da paz, três anos após sido impedido de entrar nos Estados Unidos por ser comunista. Passa a década de 60 a filmar documentários pro-comunistas e continua a trabalhar até à sua morte em 1989.

Esta é uma oportunidade única de observar um pedaço importante de História pelas mãos de um cineasta exemplar, mesmo que os seus ideais possam assustar o espectador mais susceptível. Marceline Loridan-Ivens (a sua última companheira, co-realizadora de muitos dos filmes do marido, e sobrevivente aos campos de extermínio Nazi) estará em Lisboa dia 19 para uma Masterclass que será absolutamente essencial.

Outro realizador homenageado desta edição do Doc é Marcel Ophüls, Alemão, filho do mestre Max Ophüls. Praticou também a ficção mas tem no Documentário uma obra importante. Os filmes de Marcel Ophüls são maratonas de observação, captação e montagem, trabalho de anos a fio na procura da estória em directo, como em Novembertag: a queda do muro de Berlim. A memória do Holocausto, a guerra ou o cerco de Sarajevo; Ophüls questiona também na sua obra o jornalismo de guerra: a forma como os jornalistas manipulam a opinião pública.

Outro homenageado em retrospectiva é o Dinamarquês Jørgen Leth, practicamente inédito em Portugal, conhecido pelos seus documentários de cariz experimental. Sempre acariciado pela polémica, Leth tem uma vasta e invulgar filmografia que merece um olhar atento e mente aberta. O último filme de Leth,”The Erotic Human”, tem a sua estreia nacional na edição deste ano, e o próprio realizador estará presente no dia 18 para uma Masterclass.

Estes são os destaques do DocLisboa deste ano, uma verdadeira maratona do melhor cinema documental que se faz e que se fez. Merece uma consulta detalhada ao programa deste ano, e um agradecimento à Apordoc pelo magistral trabalho em nos trazer obras magníficas.

A Festa do Cinema Francês regressa e tem como principal homenageado esse senhor da pós Nouvelle Vague Francesa que é André Techiné, conhecido pelos seus dramas de uma intensidade e complexidade humana ímpares, onde as personagens femininas se destacam em interpertações fantásticas. Esta é uma retrospectiva integral que merece ser vista de uma ponta à outra e que se prolonga até Novembro, sempre na Cinemateca.

Depois do cinema francês e do documentario vem o Estoril Film Festival que este ano tem como homenageada a cineasta Kathryn Bigelow, que venceu o Óscar para melhor filme com “The Hurt Locker”. Oportunidade para rever “Strange Days”, entre outros. Elia Suleiman e Roman Polanski são também homenageados, assim como o Japonês Koji Wakamatsu e o grande Chris Marker (alvo de uma retrospectiva integral na Culturgest em Dezembro – ver abaixo) num festival que, até agora, tem confirmados outros nomes importantes como Lou Reed, John Malkovich, Baltasar Garzon e Anton Corbjin.

E por falar em Chris Maker: este realizador Francês, actualmente na casa dos 90 anos e activo no meio cinematográfico sempre em busca de novas formas de expressão visual, é alvo de uma retrospectiva na Culturgest a partir de Dezembro. É no documentário que é mais conhecido, o monumental “Sans Soleil” é a sua obra mais emblemática mas tem em “La Jetée” um marco cinematográfico nunca superado. Uma complexa estória de Ficção Científica que antecede o cyberpunk contada apenas por narração, fotografia e música, numa montagem visual de cortar a respiração.

Estas são as sugestões deste final de ano e motivos suficientes para sair de casa e mergulhar em filmes de qualidade, em estórias e histórias que merecem ficar guardadas no bolso. Consultar toda a programação nos sites respectivos e levar a mente bem aberta, vão precisar de espaço para acomodar todo este Cinema.



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