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Dromos Records

Valor Original

A lisboeta Dromos é o dedicado e caprichoso projecto editorial dos amigos João e Pedro. Tomemos como exemplo que da crença nasça a vontade e da vontade a verdadeira criação.

Antes de mais, que idade tem a Dromos?

Pedro – A Dromos tem sensivelmente ano e meio. Editámos o primeiro disco em Agosto de 2009.

Já trabalharam com diversos projectos. Com quem já trabalharam?

João – Nas edições que fizemos até ao momento trabalhamos com os seguintes músicos, bandas e artistas plásticos:

Tetuzi Akiyama & Leonel Kaplan & Edén Carrasco, com o artwork e packaging pela Joana Falhas, Manuel Mota & Afonso Simões, no qual o artwork foi concebido pelo próprio Manuel Mota e Thollem Mcdonas & John Dietrich, com o artwork pela realizadora/arista plástica de NY Martha Colburn. Recentemente editamos a Wasteland Jazz Unit, com o artwork e packaging pela Mariana Dias da Cunha e o Ep dos Niagara com o artwork consistindo de prints da artista Natalie Westbrook.

No âmbito da dromos tape series, convidámos gente do meio musical português e artistas para fazerem uma mixtape e arte correspondente em conjunto, que foram depois oferecidas no Record Store Day na Flur. Trabalhamos com os Octa Push, o Rui Dâmaso, o Ruben Da Costa e o Rui Miguel Abreu e com artistas como a Angêla Ferreira (Timeless Void), a Maria José Machado e o poeta, músico e artista plástico António Corso.

Neste momento estamos a trabalhar nas duas próximas edições, uma delas um trabalho a solo do guitarrista Olaf Rupp, com artwork e packaging do artista plástico António Poppe, outra um duo da pianista Magda Mayas com a violoncelista Anthea Caddy, com artwork e packaging da artista plástica Nádia Duvall.

Qual a ideologia da editora?

João – Temos como filosofia editorial fazer edições limitadas de artistas que actuam nas áreas da improvisação livre, do free jazz e nas margens do rock da musica electrónica, promovendo, ao mesmo tempo, a comunhão entre a música e as artes plásticas. Para isso convidamos artistas plásticos para a concepção do artwork das edições. Disso resulta que cada exemplar é único, tem uma aura própria. Essa é uma marca distinta de todas as nossas edições e além de promover a comunicação entre artistas e públicos de diferentes áreas valoriza o trabalho de ambos.

Consideram-se ambiciosos?

João – Até ao momento editamos exactamente os artistas que pretendíamos, tanto na área da música como nas artes plásticas. Nesse sentido penso que fomos ambiciosos e mesmo tempo muito afortunados. É natural que gostávamos de ter meios para fazer mais edições e dar outro tipo de condições aos artistas com quem trabalhamos. Mas isso, se tudo correr bem, chegará com o tempo, com o trabalho e com o espírito de sacrifício pessoal e financeiro que temos para que a Dromos seja possível.

O que mais gostavam de ver acontecer no nosso país?

Pedro – Entre muitas coisas, gostava que na área da educação se desse mais valor ao desenvolvimento pessoal das pessoas, que se estimulasse o seu sentido crítico e o seu sentido de responsabilidade cívica e moral, bem como se cultivasse o gosto pela cultura, pelo outro.

Nos diferentes ciclos, das escolas primárias às universidades, valoriza-se cada vez um pensamento operacional, materialista. Há uma tendência perigosíssima para um tipo de facilitismo educacional e intelectual que potencialmente irá aumentar o knowledge gap entre as elites e a maioria da população. E dado as exigências intelectuais, técnicas e emocionais que se adivinham no mundo ocidental isso poderá ter consequências desastrosas a médio prazo.

Para isso, entre outras coisas, seria essencial um esforço conjunto entre o Estado, as várias autarquias e membros representantes das diferentes comunidades com as diversas instituições escolares e instituições e identidades culturais.  Teria de ser um esforço de comunicação, entendimento e pro actividade. Porém, esse parece-me ser um cenário cada vez mais remoto e utópico

Acham que Portugal é um país em atraso?

Pedro – Se compararmos o conhecimento e interesse cultural do português comum em relação a países do norte e centro da Europa poderíamos ser levados a cair no erro de dizer que sim. Mas essa é uma forma redutora de analisar o atraso cultural de um país.  Em parte, porque, e no seguimento do raciocínio da resposta anterior, os contributos relevantes na área da cultura se movem por condição natural, invariavelmente nas margens ou nas elites culturais. E nessa matéria não estamos atrasados em relação a nenhum país em particular, pelo menos em termos qualitativos. A problemática surge sempre no impacto social que os artistas podem ter  e se têm possibilidade de ter um contacto com qualidade, que seja produtivo e tenha efeitos mútuos perceptíveis pela maioria da população.

A realidade é que nas diferentes disciplinas artísticas temos pessoas únicas. No caso da música temos o Sei Miguel, o Manuel Mota ou o Rafael Toral, por exemplo.  Todos eles artistas incríveis, verdadeiramente originais e singulares. Em Portugal ou qualquer parte do mundo, acompanhamos sempre os diversos movimentos e manifestações estéticas que foram surgindo nos últimos trinta ou quarenta anos, quer a nível underground quer mainstream. Em alguns casos resultando em projectos redundantes, meras cópias de outras bandas e artistas. Noutros resultando em coisas realmente originais (Niagara, Gala Drop). O mesmo se passa no cinema, na literatura, nas artes plásticas, etc.

Portanto, a questão que se coloca nunca foi tanto a do atraso estético ou ideológico, mas de como solucionar uma certa incapacidade colectiva em de juntar esforços no sentido de projectar internacionalmente os nossos talentos.

Houve excepções é verdade. Na música houve o êxito internacional dos Buraka Som Sistema ou de uma editora como a Cleen Feed, no cinema o despertar internacional para o cineasta maior que é o Pedro Costa. Em todos o caso são apenas excepções. O reconhecimento veio sempre de fora para dentro.

Será caso para perguntar: Lisboa é o lugar ideal para trabalhar?

João – Eu não posso responder de forma justa a essa questão pois sempre vivi em Lisboa e adoro viver aqui. A experiência que tenho de outras cidades foi sempre a título meramente turístico, passageiro ou através de relatos de terceiros. Consequentemente, sem a possibilidade de fazer uma comparação, qualquer resposta seria sempre insuficiente.

Agora, o que posso pensar, e cingindo-me apenas à área da cultura, é se Lisboa oferece condições interessantes para trabalhar. E nesse caso, penso que sim. Não é uma cidade onde existam muitos apoios sociais nem estatais, mas é uma cidade que tem, já há bastante tempo, um conjunto de projectos e infra-estruturas muito interessantes ao mesmo tempo tem ainda espaço para outros começarem e evoluírem. Hoje em dia, especialmente na música, existem em Lisboa mais artistas de qualidade, mais editoras, mais espaços para concertos e pessoas a querer organiza-los e até mais público,seja musica experimental, electrónica ou rock.

É óbvio que como em todo o lado é preciso talento, sorte e perseverança para vingar, no entanto é lamentável ainda existir o estigma que por cá não se passa nada.

Uma coisa que gostem muito.

João – Originalidade é sempre algo a dar valor hoje em dia…

Uma coisa que não gostem nada.

Pedro – De perder tempo com merdas que não dou valor.



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