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Um dom de si maior

A nova criação de Paulo Ribeiro.

Foi esta semana apresentada no Teatro Camões, pela Companhia Nacional de Bailado, a nova criação de Paulo Ribeiro, coreógrafo com uma vasta obra reconhecida em Portugal e no estrangeiro. “Du don de soi” inspira-se na obra cinematográfica de Andrei Tarkovski e está inserido no Festival Temps d’images.

Paulo Ribeiro começou como bailarino em companhias na Bélgica e em França. Estreou-se na coreografia em Paris, nos anos 80. Em 1988 regressou a Portugal e trabalhou com a Companhia de Dança de Lisboa e com o extinto Ballet Gulbenkian. Representou-nos no Festival Europália 91, data a partir da qual começou a criar obras para grandes companhias internacionais. Colaborou com Vera Mantero e Clara Andermatt, ganhou vários prémios. Em 1995 criou a sua própria Companhia.

Andrei Tarkovsky (1932-1986) construiu o seu próprio mundo através de sete filmes que apelam profundamente à sensibilidade do espectador. O importante no universo Tarkovskiano não é tanto o que a imagem representa no plano conceptual, mas como a recebemos no nosso âmago, que sentimentos nos desperta.

Vinte e cinco anos passados desde a morte do realizador russo, Paulo Ribeiro propõe uma coreografia baseada no seu mundo interior, esculpindo um tempo corporal em suspenso. Chegam a estar cerca de quarenta bailarinos em palco, metade homens, metade mulheres, que trabalham em grupo sobre um objectivo comum. São raríssimas as vezes em que estão menos de quatro bailarinos em palco, mas também esses momentos são inteiramente bem conseguidos, com homens que treinam o seu físico, saltando e correndo, com uma mulher que se despe para um homem que a deseja e a rejeita. Esses instantes mais próximos, em que conseguimos absorver a beleza dos passos de cada bailarino, contrastam directamente com o aglomerado de corpos unidos por um mesmo destino grandioso. Quarenta corpos que correm em direcção a nós, que se deitam, se empurram e se tocam. Tecidos de pele descoberta que entram em palco, aguardam, vestem-se e já se foram embora, numa breve passagem pela terra em que a roupa – o passado às costas – pesa. Seres que caminham e deslizam sobre outros, seguram-nos no alto, como árvores que se desconstroem com o vento, que secam com o tempo. Os corpos representam uma matéria orgânica que nos chega através de uma dimensão espiritual, adensada à medida que o espectáculo progride.

Paulo faz uso apenas de algumas imagens da natureza de filmes de Tarkovski, projectadas na tela enquanto os bailarinos dançam. Mas é também projectada a própria imagem dos bailarinos no palco, dois planos distintos que se compreendem e se completam. Essa realização é especialmente bem conseguida quando as caras dos bailarinos que correm na nossa direcção são projectadas, como se entrassem de facto dentro de nós, como se nos devorassem os sentidos. Se um dos grandes objectivos de Tarkovski era fazer com que a obra extrapolasse o visível, tocasse o imaterial, então Paulo Ribeiro conseguiu passar a mensagem na perfeição. Não estamos à espera de encontrar referências nesta coreografia, de descobrir significantes, mas sim sentidos intrínsecos àquilo que representa ser humano, e que é indescritível porque pertence ao plano etéreo.

A música de Franghiz Ali-Zadeh, nascido no Azerbaijão e radicado na Alemanha, é pesada, densa, não nos dá um alívio, nunca. É um percurso cheio de fantasmas, erros e recordações que não se desvanecem, num mundo onde até a nostalgia é constrangedora. E se a arte se rende ao tangível, a nossa descoberta interna e pessoal será sempre infinita.

Este espectáculo estará no TNSJ, no Porto, nos dias 11 e 12 de Novembro, e no Teatro Viriato, em Viseu, nos dias 20 e 21 de Janeiro.

O CCB recebe a partir de dia 7, e até 4 de Dezembro, uma retrospectiva à filmografia do realizador, integrada no “Ciclo Tarkovski – Esculpir o Tempo”. Serão exibidos todos os seus filmes, bem como o documentário “Um dia na vida de Andrei Arsenevich”, de Chris Marker, e haverá ainda um concerto e uma exposição fotográfica, com polaróides tiradas pelo próprio.



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