02a Typhonian Highlife

Ducktails, James Ferraro e Thyphonius Highlife @ ZDB (27.05.2017)

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Após três dias de calor infernal, Lisboa amanhecera novamente nebulada. Nessa mesma noite, sábado 27 de maio, três dos mais interessantes e ecléticos vultos da cena underground norte-americana, encerrariam a sua digressão europeia no Aquário da Galeria Zé dos Bois; pelo que o clima —mais esquizofrénico do que o habitual — parecia uma bênção às suas explorações contracorrentes.

Ducktails (a.k.a. Matthew Mondanile), James Ferraro e Typhonius Highlife (Spencer Clark) não se limitaram a apresentar os seus trabalhados mais recentes mas também se encarregaram dos DJ sets que se seguiram aos concertos. Ainda que as apresentações tenham sido relativamente curtas, a intensidade foi suficientemente expressiva para transmitir a natureza de cada uma das propostas.

O primeiro a surgir foi Typhonius Highlife. Somente pelo seu aspecto entende-se que não pertence a este mundo. Mais que a aparência — magnética e extravagante — trata-se do que transmite quando chega a hora de tocar: descargas eléctricas, psicadelismo espacial. Ou como ele prefere chamar: tentacles vibes.

«Wah wah day gecko gecko» e «Zenith umbaba xeno» foram o seu ponto de partida. Ambas as faixas incluem-se no seu último álbum “The World Of Shells” (KRAAK, 2016), uma produção que se pode traduzir numa expedição onírica que descola de um tempo real; segundo a sua descrição: “uma visualização contínua do mundo material ou uma natureza tecnológica que se estende como uma série de movimentos que descrevem a existência de uma criatura mitológica africana”. Algumas repetições nos teclados roçavam o maníaco, contudo portadora de uma força libertadora. Typhonius Highlife expressa-se com todo o seu corpo — possuído —, como se o seu próprio suor pudesse também ele gerar algum som.

O tema seguinte foi «Nano zootypes in a tentonese exhbition tank», também parte dos documentos sonoros que Spencer registou entre diversos espaços como Hollywood, Hanging Rock na Austrália ou ainda n’A Orelha de Dionísio na Sicília. Sobre este exercício, afirma: “nele encontro-me a expressar a minha percepção de estar dentro de um aquário; mas, ao mesmo tempo, imaginando um espaço exterior enquanto aliens o observam”. O resultado: uma fusão entre ficção científica aquática e desértica.

No entanto, o clímax chegou efetivamente na última sequência: «Nyangani warp speeds» e «Symphosodon Nasty boys» abrindo uma espécie de coro celestial — ou infernal — que bem poderiam ser uma voz conjunta de Aleister Crowley, a partir de uma esfera magnética a alta velocidade. E, de facto, seria possível.

Acima de tudo, o sagrado e o profano habitam de modo constante no imaginário de Spencer Clark — independentemente dos pseudónimos — situando-nos numa cerimónia transdimensional e galáctica.

James Ferraro foi o seguinte a entrar em cena. Visionário absoluto cuja proximidade com Spencer Clark remonta a 2006, ano em que ambos fundaram os seminais Skaters. Se bem que os seus álbuns a solo tragam obsessões distintas, bastante mais pessoais, existe um ponto de convergência que os une: toda uma filosofia e visão por detrás da sua música.

Falar sobre Ferraro é sinónimo de falar em vaporwave e sequenciadores MIDI. Mas sobretudo é sinónimo de falar na transmutação sonora que exerce associada à cultura de consumo, tal como na estética lo-fi e em conceitos de realidade virtual (e vice-versa). Foi precisamente essa transmutação que Ferraro apresentou na ZDB através de temas como «Ten songs for humanity», «Individualism» ou «Security Broker», todos eles parte do seu último disco “Human Story 3” (SCM-O, 2016). Trata-se de uma reflexão sobre o hiper-individualismo e o consumismo corrente, ou como ele próprio considera: “uma dialética sobre a discórdia entre o avanço tecnológico, a loucura humana e o progresso”.

A abertura da sua apresentação foi marcada pela suspensão, como um coro de anjos virtuais; obscuridade vs. luminosidade. A sua música chegava por sequências — quase em blocos — numa lógica de tetris sonoro. Ferraro detém essa mestria de abrir e fechar portas nos nossos sentidos, de forma constante. Até que de repente, incita à mudança de atmosfera: pairavam agora anjos desolados nas nossas cabeças. Somente na recta final não se escutaram contrastes de maior, como aquelas surpresas que o seu génio sabe proporcionar.

Teria sido interessante vê-lo a arriscar ainda mais; talvez completar a sua performance com algum trabalho em vídeo (Plastiglomerate & Co., por exemplo) que certamente potenciariam esse discurso sociopolítico que enceta em “Humanity Story 3”.

De qualquer modo, Ferraro nunca desaponta; muito pelo contrário: aqueles que assistiram nesse sábado saberão que presenciaram um autêntico poema drone numa época de insanidade mundial, um manifesto sonoro neste distópico século XXI.

O último concerto da noite esteve a cargo de Ducktails, projeto a solo de Matthew Mondanile (ex- Real Estate), que já anteriormente tinha visitado a ZDB, mas cujo regresso não acontecia há anos. A sua familiaridade com Spencer Clark e James Ferraro, por sua vez, remonta a um encontro que tiveram em Berlim, durante uma mudança de estúdio de Mondanile em 2005. A obra dos Skaters —e principalmente a sua natureza na produção— marcou profundamente o músico (especificamente na abordagem lo-fi nas gravações rudimentares no porão da sua casa) embora a sua direção desde sempre se inclinasse entre o registo indie e o neopsicadelismo. Em alternativa, o autor denomina a sua música com hypnagogic pop.

Uma vez ligado o projetor atrás de si, Ducktails explicou que na véspera haveria registado algumas imagens para a ocasião. “This is my movie for you” — disse em tom de arranque — I hope you enjoy it”. Imagens de árvores e jazigos em câmara lenta, criaram uma atmosfera onírica.

«Surreal Exposure», «The Disney Afternoon» ou «Headbanging In The Mirror» foram algumas das canções, todas elas presentes no seu mais recente disco “St. Catherine” (Domino, 2015), cuja capa pertence a um postal que Mondanile encontrou em Lisboa, enquanto visitava a Feira da Ladra.

Apenas com recurso a uma guitarra e um conjunto de letras confessionais, Ducktails emergiu a público em transição melancólica e festiva, à sua vez, como um rasgo de sol num interior de uma gruta.

Todavia uma digressão não dá por terminada a ação de três músicos que adaptam o carpe diem como um princípio de vida. Depois do concerto na ZDB, Ducktails, James Ferraro e Thyponius Highlife estenderam a sua visita europeia para mais uma semana. Agora que já acabou é possível que estejam a atravessar o oceano para continuarem a explorar em sua casa.

Não sabemos quando voltarão a reunir-se, mas pelo menos Spencer Clark deixou-nos uma grande novidade: no próximo haverá um novo disco dos Skaters; e sabemos que quando dois visionários se juntam, só pode acontecer algo: milagres.

 

Texto por Carla Badillo Coronado e fotografia por Letizia Lucignano.



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