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Dune – Special TV Edition

A versão definitiva do filme renegado por David Lynch?

“Dune” terá sido um dos primeiros filmes que vi em formato VHS . Recordo-me de não sentir qualquer tipo de empatia com os personagens (não obstante o imaginário que por vezes se deixava entrever) e de pensar que tal se devia ao facto da saga destinar-se a um público mais maduro. Descobri mais tarde que não se tratava de uma simples questão etária e de que na realidade o filme sofria de múltiplos problemas, dos quais se destaca  uma enorme falta de coerência narrativa.

Deparei-me recentemente com uma versão alternativa do referido filme exibida originalmente na TV (não confundir com a mini-série do SciFi Channel de 2000), tendo-a adquirido com grandes expectativas não obstante a mesma ter sido  renegada pelo realizador original: David Lynch demitiu-se completamente do projecto, sendo creditado com o pseudónimo Alan Smithee, sancionado pela Directors Guild of America entre 1968 e 2000  quando os realizadores não pretendiam ver o seu nome associado a determinados projectos.

Para que possamos usufruir desta versão na sua plenitude, impõe-se assistir ao original.

Na versão de cinema, como ponto de referência somos presenteados com um prólogo de aproximadamente um minuto que nos tenta dar uma perspectiva num estilo mais ou menos informal, sobre um universo demasiado denso e completamente impenetrável para os leigos. É verdade que  George Lucas concebeu “Star Wars” com uma premissa semelhante,  mas assente na lógica das séries de Flash Gordon para o cinema dos anos 30, cuja construção permitia aos espectadores rapidamente identificarem-se com os personagens e a trama , mesmo não assistindo aos primeiros episódios. O universo concebido por  Frank Herbert (autor de “Dune”)  não permite uma adaptação como a atrás descrita , sendo este o primeiro erro interpretativo da obra.

Abordar o universo de “Dune” é uma tarefa semelhante à que Peter Jackson se propôs quando realizou a trilogia do “Senhor dos Anéis”. Uma obra com esta densidade carece de um filme com duração claramente mais longa do que aquela que chegou às salas de cinema.

Quanto à estrutura do filme, podemos ser tentados a pensar que a mesma estará relacionada  com a forma como David Lynch aborda o cinema ou mesmo séries televisivas como “Twin Peaks”. A acrescer a este factor há a considerar o facto da obra original ter sido escrita nos anos 60 e do próprio objecto central (a matéria spice)  ter entre as suas diversas aplicações algumas conotações com alucinogénicos capazes de ampliar a percepção sensorial. Mas infelizmente, não são esses os factores que influenciam o filme. Aqui Lynch tentava efectuar um leitura mais linear da saga, sendo que o facto de lhe terem sido impostas pelos produtores restrições muito claras quanto à duração do filme tornou-o inadvertidamente numa sucessão de vinhetas incoerentes (uma verdadeira bad acid trip).

Escapam também muitas das virtudes atribuídas ao livro de Frank Herbert, nomeadamente o despertar da consciência ecológica e os paralelismos com a geopolítica assente no ouro negro.

David Lynch, na época um jovem realizador que havia conquistado o sucesso no circuito comercial com o “Homem Elefante”, era cobiçado para diversos projectos , incluindo o episódio VI de “Star Wars”, tendo acabado por anuir à proposta do produtor Dino De Laurentis para realizar “Dune”.

É notória a incapacidade que o estúdio e produtores demonstraram em lidar com este “produto”, tentando de alguma forma comercializa-lo como um “Star Wars”, ou seja:  linha de brinquedos , a tradicional adaptação BD da Marvel Comics, etc . Os efeitos especiais abaixo do par para um filme saído um ano após “Star Wars -Return of Jedi”, foram mais um ponto a contribuir para o descrédito junto da crítica especializada.

Durante muitos anos falou-se sobre a hipótese de existir um director’s cut que de alguma forma compensasse este desastre. Diversos artigos falavam de uma mítica versão de 4 horas (que mais não era do que o rough cut apresentado a um grupo restrito), existindo no entanto uma outra de três horas, (mesmo assim com mais uma do que a exibida nos cinemas) transmitida na televisão.

Antes do advento do DVD este tipo de fenómeno compensava o facto de não estarem acessíveis ao público comum (leia-se não frequentador de cinematecas) os director’s cuts. Criavam-se assim versões para TV onde eram inseridas cenas cortadas, transformando um filme numa mini-série – recordo-me particularmente de ter sido transmitida uma versão do Padrinho (I e II)  na RTP nestes moldes.

A versão para TV com cerca de 3 horas surge com o potencial de solucionar o caos narrativo. Na realidade esta “hora” adicional é repartida entre um novo prólogo de cerca de quinze minutos e cenas adicionadas, alongadas ou substituídas. De salientar que nesta edição foram cortadas as cenas mais gore do filme, destacando-se aquela em que o barão Harkonen assassina um dos seus servos num ritual de prazer sádico.

Encontramos a primeira grande diferença no prólogo. A breve introdução que víamos no cinema feita pela princesa Irulan (Virginia Madsen de “Electric Dreams”) foi completamente removida e substituída por uma apresentação de aproximadamente quinze minutos utilizando arte conceptual criada para o filme, informativa e útil (adjectivos que normalmente não associamos a cinema)  para quem não leu os livros e quer ter uma noção do que está a acontecer durante as próximas horas.

As concessões em prol da conquista de um público mais vasto não ficam por aqui. Apesar de no original existir uma voz off usada criteriosamente ao longo do filme , na versão para TV é usada de forma muito mais alargada chegando mesmo ao pormenor  de em alguns casos fazer uma mini biografia quando surge mais um dos personagens da vasta galeria do universo “Dune”. A repetição de algumas sequências, nomeadamente nas batalhas, bem como a inserção de arte conceptual numa das cenas finais, são mais algumas das técnicas encontradas por forma a conseguir agregar o máximo de cenas inéditas.

Mas nem só de curiosidades é feita esta edição. Existem de facto vários segmentos que estão aqui incluídos e que ilustram a má gestão deste projecto por parte dos produtores ao terem preferido eliminá-los em prol de uma duração mais “comercial” (não esqueçamos que nos anos 80, 120 minutos era considerado um filme longo, excluindo é claro “África Minha”). Ficamos a conhecer o processo de ascensão de Paul junto dos Fremen , o segredo da água da vida, e encontramos ainda algumas cenas que aprofundam o perfil das principais personagens.

Apesar da sua duração, a versão especial para TV, não consegue ser definitiva. Não deixa no entanto de ser interessante a combinação do visionamento de ambas para termos uma noção mais clara daquela que seria a visão de David Lynch para esta saga.

Os fãs continuam a aguardar a adaptação definitiva da obra, que ao longo das décadas os tem iludido. A mais ambiciosa tentativa até hoje terá sido a de Alejandro Jodorowsky que nos anos 70 pretendia realizar um filme com dez horas, banda sonora dos Pink Floyd, e um elenco de  “actores”  incluindo nomes como Salvador Dali, Mick Jagger, Orson Welles entre muitos outros. Este projecto, que chegou à fase de pré produção, teve a colaboração na elaboração de arte conceptual de artistas como H.R. Giger (conhecido pela criação do nosso Alien preferido) e Moebius, famoso autor de BD que viria a colaborar com Jodorowsky em várias obras.

Sem chegar ao cumulo megalómano atrás referido fará cada vez mais sentido que algum estúdio decida avançar com um projecto credível, nomeadamente  no actual período do cinema que nos força a tantas releituras de obras passadas (muitas delas irrelevantes).

Os rumores circulam na net: the spice must flow!



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