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“E agora, onde vamos?”

Não surpreende

E agora, onde vamos? soa a questão pouco original nos tempos a que nos temos habituado. Aliás, soa a título batido, onde a incerteza tão familiar vigorará e nos chamarão para ainda mais uma reflexão puramente filosófica sobre a vida, e os desfavorecidos, e os diferentes, e os menos, e as injustiças. E, sabemos nós, aquela reflexão levar-nos-á inevitavelmente à constatação óbvia de que o mundo continua o mesmo. Nada muda em nós, e regressamos confortavelmente ao sofá, alheios como sempre porque, no fundo, sossega-nos pensar que o mundo que é mesmo assim.

Podia ser só mais um filme assim. Mas Nadine Labaki não o permitiria. Nadine sabe do que se trata, e se não sabe conta a história como se fosse a única realidade que alguma vez conheceu. Atreve-se, e vai além de “Caramel”, ao expor cristãos e muçulmanos e a sua brutidão, sem medos ou tabus. Fala-nos sim de um destino incerto, e de um futuro que não se sabe se existe ou se será descaracterizado pela inutilidade da vida face à perda. Mas fala-nos pela boca de quem aprendeu que a vida não pode ser senão inútil, ou não seria tão pequena e leviana, nem se vergaria face a meras divergências religiosas. Enquanto “Caramel” roçou a temática, não fosse enterrar o dedo na ferida ainda aberta do Líbano, “E agora, onde vamos?” atira-se sem pudor à questão, e ataca, sem restrições, a fé, fraco factor de divergência entre os homens. O novo filme de Nadine Labaki é efectivamente um tiro certeiro, sem tabus, nos conflitos religiosos do Médio Oriente, com o Líbano como pano de fundo.

Desde a primeira palavra da narradora, a história começa a soar irreal, como se nos fossem contar a lenda de uma aldeia intacta no tempo e na humanidade, perdida e ainda virgem por abraçar cristãos e muçulmanos numa dança única, ignorando a agressividade latente e, cremos, inconsciente. As mulheres são, conforme é já hábito da realizadora, a força, o motor e o amortecedor desta interacção aparentemente pacífica, que encontrou o isolamento como forma de alheamento da violência tão característica do país que a abençoa. E Nadine usa as mulheres habilmente, como se soubesse que uns olhos femininos suavizariam a mensagem. E o recurso ao humor, à dança e à música não foram de todo ao acaso.

A mensagem é forte e, pior, é real. Junta-se meia dúzia de mulheres cujo único objectivo (não por isso fácil) é manter a paz e a harmonia, alheando a aldeia do mundo real, ou melhor, alheando os homens da sua natureza: a defesa do território próprio pela destruição do Outro. Seja este Outro quem for. Podemos personifica-lo como nos aprouver. Aqui tomou forma de Religião.

Não será de todo original usar a sensibilidade, ou mesmo a manipulação feminina, para travar o homem feio e rude, que facilmente cede ao mais básico dos instintos. Será mais difícil, e seguramente mais inédito, ver muçulmanas e cristãs juntarem-se para contratarem garotas de programa ou fazerem bolos de marijuana, ou sabotarem uma televisão comunitária arriscando pisar bombas iminentes, tudo para ludibriar, distrair, desviar olhos atentos e mãos ansiosas por derramar sangue.

Desenganemo-nos contudo do humor que ludibria igualmente o espectador. O filme fala-nos de perda. Ponto. De perda dilacerante, que rouba pedaços, que pinta rugas, cria olheiras, e curva a coluna. É um peso que fica, é marca registada nos rostos femininos, que aprenderam a dança sincronizada de caminho ao culto dos que já foram, muitos cedo demais e todos sem piedade ou razão. Os homens, esses, são a personificação do mal, são o inimigo, a raiz do ódio, o veículo do sangue. Vivem de instinto, enquanto as mulheres sobrevivem de planeamento. E, ainda que com percalços não antecipados e seguramente precoces, vingam e mantêm o seu conto de fadas, acreditando poder passá-lo de geração em geração, houvesse filhos e netos a perpetuar e de ouvido atento.

Pequena nota negativa a dois momentos bollywoodescos e, sobretudo, aos alheamentos musicais que acompanham um quase casal, detalhe que não podia faltar. Contudo, e mesmo perdendo momentaneamente o rumo, ou querendo suavizar (tendo aligeirado em demasia) o tema, juntando-lhe uma quase óbvia e pirosa história de amor, o tiro de Nadine foi certeiro: manteve o romance numa realidade paralela, intencionalmente evitando a sua concretização no ecrã.

Mas há uma nota negativa clara e evidente, e trata-se do final e da última estratégia das nossas heroínas. Há convicções que não se largam, ainda que disfarçadas, empurradas, recalcadas e silenciadas em nome da paz. A religião é estruturante, é o fio condutor de uma forma de estar e de ser para todas elas (talvez mais do que para eles), e daí ser absurdo acreditar num desapegar em nome de um bem maior, ou de um descrédito pelos atropelos constantes da vida.

Embora o objectivo fosse claramente gritar “no fundo, somos todos iguais”, na verdade não somos. E aqui Nadine tropeçou, e deixou escapar por pouco a oportunidade de chegar ao topo com uma história simples, actual e interpretada por pouco mais que amadores. E, para falar verdade, não surpreende, e é pena.



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