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É um estúdio, pónei!

Quem passa na Rua de São Mamede (ao Caldas) não imagina que por detrás do número vinte e cinco, Eduardo Vinhas produz, grava, mistura e convive com um leque variado e alargado de músicos que partilham no Pónei (mas dourado) momentos de música pura e de relações privilegiadas, de parte a parte.

Rewind

Eduardo Vinhas, João Osório e Rodrigo Alfacinha são os três sócios do estúdio que, de momento, conta com a dedicação exclusiva e profissional de Eduardo Vinhas a quem se juntou Pedro Magalhães. Segundo o anfitrião, “acabamos por nos complementar bastante bem no nosso trabalho”.

À entrada, a Wall of Fame denuncia com fotografias artistas e amigos do estúdio. É, inclusive, ali que Eduardo Vinhas descobre que o montou com o propósito “de tentar arranjar um espaço de gravação para os meus projectos, para as minhas coisas” e é peremptório quando nos diz que “nunca foi com o intuito de criar um estúdio assim de gravação profissional”.

A justificação para o nome Golden Pony é “a vontade de ter um nome ilógico ou um nome não muito sério”. Pónei era, como conta o produtor, usado como uma expressão para descrever qualquer coisa: “estás um bocado pónei”, “estás é pónei da cabeça”, “este gajo é pónei de todo” são algumas delas. Acaba, por isso, por representar uma “dicotomia, por um lado queremos qualquer coisa de sério, de grande e de bonito, mas por outro lado não o queremos fazer de uma forma tão séria, tão dentro das quatro linhas a que estamos habituados a ver noutros estúdios”.

Play

Desde cedo que as coisas começaram a correr bem e o trabalho era tanto que, conta-nos Eudardo Vinhas, quando deu por si “tinha um estúdio e nem sabia bem porquê”. E, até hoje, funciona por passa-palavra sem qualquer necessidade de critérios de selecção, “talvez por ter começado logo num meio de músicos que eu gostava e pela minha influência como músico ser muito específica, acabei também atrair os músicos parecidos comigo, ou com as coisas que eu gostava, ou do mesmo género”.

O produtor do Pónei Dourado confessa que “ao fim de cinco anos, ainda me surpreendo com a novidade e com aquilo que aprendo de cada projecto diferente”. Desses desafios inesperados que “nunca pensei que os fosse fazer” diz, estão a música clássica – com os Ensemble JER – e o Hip-Hop, altura em que o estúdio “mudou de cor”, partilha com humor. Esses projectos representam para si a separação do “gosto”, que vem do seu percurso enquanto músico”, e da “parte de produtor”. Afirma ainda que que jogar fora do seu “campeonato” é um real desafio e representa um período de conhecimento e aprendizagem.

Mesmo com todos os apetrechos típicos de um estúdio – instrumentos, botões e demais parafernália – o Golden Pony proporciona um ambiente familiar que Eduardo Vinhas atribui à “própria energia do estúdio”, seja pelas cores, as formas, o tamanho ou a localização, os projectos gravados, o género de bandas ou a sua própria personalidade, que complementa a que chama de “relação extremamente descontraída e sem grande tensão”.

Rec

Dos nomes que passaram a porta do 25 da Rua de São Mamede, o co-fundador não hesita em apontar Josephine Foster, como uma das primeiras gravações verdadeiramente marcantes do estúdio: “um nome relativamente grande e a gravação dela foi incrível porque eu nunca pensei que fosse possível gravar tipo quarenta músicas, uma coisa assim, um exagero, em dois dias”. Norberto Lobo é outro dos músicos que deixou marcas na sua passagem pelo Pónei porque “já é um amigo meu e gosto imenso de trabalhar com ele”. Também Lula Pena integra o top do estúdio personificando a admiração do próprio: “Como é que é possível alguém emanar tanta música de si própria?”. Destaca dos Norton a cumplicidade sonora entre ambos, “aquele género de som que eles faziam na altura era muito parecido com aquilo que eu vinha a fazer com a minha banda” e, por isso, é claramente “das bandas com que melhor nos entendemos, não precisamos de falar”, reitera o produtor.

Jorge Palma gravou lá apenas uma música mas não teve menos importância por isso. É uma “pessoa muito simpática e super divertida” conta-nos, “bebemos uns copos, falámos muito, muito, muito, muito, muito e gravou-se uma música”.

Outro nome incontornável e indissociável do Golden Pony é o do realizador Tiago Pereira que montou todos os seus filmes no estúdio: “nunca na minha vida tinha trabalhado assim com a imagem” confessa Dudu, já que o realizador, continua, traz “uma catrefada de sons, eu não vejo nada, e temos que compor qualquer coisa dali”.

B Fachada que, nem a propósito, deu ao seu primeiro longa duração o nome de “Um fim-de-semana no Pónei Dourado” [FlorCaveira, 2009], à semelhança de Tiago Pereira, acabou por “romper com tudo o que eu tinha aprendido acerca de gravação e dos passos de uma gravação”. E, apesar de não se ter ideia do que ia sair dali, a verdade é que Fachada e Vinhas acabaram por “gravar um disco inteiro em dois dias” e o resultado foi “surpreendente”. Ainda um apontamento de Eduardo Vinhas, que revela que Fachada é dos poucos “onde eu sinto que leva a experiência de gravação num estúdio como uma coisa de diversão e de prazer” e não de suor e esforço, como acaba por acontecer muitas vezes. Quando estão em estúdio são “umas crianças no parque de diversões” já que a palavra de ordem é brincadeira. Porém, não descuram o profissionalismo: “existe rigor” e como conta Dudu, sobre o processo de gravação de B, parece um “Tetris que se vai começando a encaixar e só quando estás mesmo na fase final é que te apercebes o que é que a música é realmente”.

Pause

O que motiva realmente Eduardo Vinhas é a surpresa que cada projecto e cada pessoa representam e confessa-nos: “sinto-me especial por ter acesso a uma relação tão próxima, às vezes, com estas pessoas e com a música delas” e a ansiedade antes de abrir a porta compara-a à de uma “criança a abrir um embrulho”. Acima de tudo o produtor revela: “adoro mesmo música acima de tudo”.

Fastforward

Neste momento, e depois de várias bandas e projectos musicais, Eduardo Vinhas tem, paralelamente ao Pónei, os Musgo – com os seus dois sócios – onde faz “música só pelo gosto da música” e desde há quatro anos que, por convite, ingressou nos Pop Dell’Arte de quem acaba de gravar um novo disco: “notícia fresquinha” – obrigada Eduardo. A sua relação com a música, paralela ao estúdio, foi “muito mais lenta, mas também muito mais focada nas coisas que eu queria”, conclui o produtor.

Fotografia de Vera Marmelo



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