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EDP Cool Jazz 2022 – Parte 2

Depois do sucesso do primeiro dia com John Legend e da nostalgia enérgica com Paul Anka o EDP Cool Jazz trouxe mais artistas a Cascais para os melómanos e apreciadores do cartaz anunciado.

21 de Julho

O 3.º dia de festival foi exemplo de que há mudanças que nem sempre correm bem e de que lidar com a frustração é complicado para qualquer geração. Até começou bem no espaço Cool Pick & Go com Mateus Saldanha Trio. Criou-se um ambiente relaxado que prometia prolongar-se, apesar das filas teimarem em continuar.

O ar da noite arrefeceu e o concerto seguinte não ajudou a aquecer o ambiente.  Uma hora depois entrou no palco do hipódromo Quinquis, nome artístico de Émilie Tiersen e esposa de Yann Tiersen, que pouco surpreendeu pois, para além de só ter durado meia hora deixando-nos 45 minutos sem nenhum tipo de entretenimento, revelou um amadorismo de quem parece estar a dar os primeiros passos na música e de quem tem pouco à vontade com o público. Algumas pessoas mais exigentes até fizeram questão de mostrar desagrado com a performance. Durante o intervalo um anúncio da organização do festival veio inquietar os presentes – Yann Tiersen não se ia apresentar ao piano. Terá sido castigo pela forma como Quinquis foi recebida? Isso não sabemos, o que se sabe é que o concerto deste suposto multi-instrumentista levou a que muitos abandonassem o recinto, desiludidos com o repertório que o músico apresentou, limitado ao seu último trabalho – Kerber – com uma vertente mais dedicada à música eletrónica. Portanto, o registo cinematográfico a que grande parte dos presentes queria assistir, os temas dos filmes pelo qual este artista é aclamado e com os quais foi divulgado, não aconteceu. Grande parte dos que ficaram até ao fim aguardaram esperançosamente ainda ver esse Yann Tiersen de outrora. E é certo que há legitimidade para os artistas romperem com o seu trabalho até então, o que é de lamentar é quando isso desilude praticamente uma plateia inteira que espera ouvir um repertório variado e que o aprecia pelos temas que ele não tocou. Ao inesperado anúncio feito pela organização faltou a indicação de que o espetáculo era acompanhado de luzes com efeitos estroboscópicos que podia afetar os espectadores mais sensíveis. Muito interessante do ponto de vista visual e estético, porém insuficiente para reacender os ânimos. Foi simplesmente lamentável e pesaroso o sentimento com que as pessoas deixaram o recinto deste festival “Not so Cool and Not that Jazz” e que mais tarde se pôde comprovar nos comentários das redes socias, inclusive a pedir reembolso dos bilhetes, tal foi a indignação gerada.

23 de Julho

Depois do pesadelo do último concerto aguardam-se dias que possam reconquistar o público deste festival. Felizmente assim foi na noite de sábado 23 de Julho que recebeu Miguel Araújo com a participação daquele que é ainda um dos melhores músicos portugueses – Rui Veloso.

Como é costume o serão começou no jardim entre comes e bebes ao som da nova geração de artistas do jazz português. Este sábado foi a vez do incansável baterista Diogo Alexandre e aqui se fez verdadeiramente prolongar a onda do jazz com Tiago Nacarato que, apesar de ser dono de um timbre muito semelhante ao de Salvador Sobral, revelou-se um cantor bastante carismático. E que mais tarde foi convidado por Miguel Araújo para uma canção com ele e Mimi Froes. A participação de Rui Veloso foi o ponto alto da noite e, a partir daí, o nível da fasquia só subiu. O prometido foi devido como diz a canção e pudemos assistir a uma bonita partilha do gosto pelo rock português.

27 de Julho

Os parques de estacionamento ficam lotados numa quarta-feira à noite em Cascais para assistir a um nome sempre bem recebido pelo público português – Diana Krall. Ainda que o registo musical e a própria apresentação dos músicos em palco nos remetam para um ambiente mais intimista de em jazz club, foi das noites mais concorridas do festival. Não é uma artista dotada de grandes dotes vocais, porém, o seu registo tem um charme único que atrai muitos entusiastas de jazz. Os cantores deste género musical tendem a apresentar as suas versões dos grandes clássicos e o repertório de Diana Krall está repleto de grandes temas como “L-O-V-E”, canção eternizada por Nat King Cole.

A abrir para a cantora canadense atuaram os Miramar, dupla composta por Frankie Chavez e Peixe, que espalharam magia com um apurado dom para provocar verdadeiras sensações auditivas com uma certa pureza e rebeldia que só o acústico permite.

E, como é habitual, à chegada o público foi recebido com música no jardim que neste dia contou com a presença de Hugo Lobo, responsável por começar a preparar os ouvidos para um serão que se avizinhava tranquilo e dedicado ao jazz instrumental.

28 de Julho

O jazz instrumental continua pela quinta-feira adentro. Registaram-se mais cadeiras do que público, mas isso não impediu que a magia acontecesse em palco.

A noite revelou-se espontânea e bastante descontraída e foi João Espadinha quem deu o ponto de partida no final de tarde, enquanto o público desfrutava da gastronomia de food truck disponível no espaço do simpático jardim Marechal Carmona, frequentemente visitado por patos e galinhas curiosos.

Moses Boyd mostrou a sua mestria na bateria e fez-se acompanhar da sua banda. Juntos levaram aqueles que se iam juntando no recinto numa viagem sonora pelas notas inesperadas e sempre surpreendentes do jazz, enquanto género musical livre. E assim foram trazendo pessoas para receber o artista que se seguia e cabeça de cartaz desta noite – Jordan Rakei. Multi-instrumentalista, cantor dotado de uma voz encantadora e ainda produtor, maravilhou quem ali estava com o seu talento e levou a que os lugares em pé e sentados se fundissem numa experiência rara, descontraída e sem rótulos. O gosto pela música transparece de tal modo numa harmonia de elementos sonoros que se torna difícil tirar os olhos do palco. O seu percurso tem evoluído e espera-se que assim continue e volte a Portugal nos próximos tempos, mas com um recinto mais composto, até porque é bem merecido.

30 de Julho

O último dia desta 17.ª edição do EDP Cool Jazz termina em grande com Jorge Ben Jor a animar a multidão que se reuniu no hipódromo Manuel Possolo. Consigo trouxe, para além da sua banda, um pouco da energia do seu país tropical e partilhou a alegria que sente a fazer música. Durante uma incansável versão da música «Gostosa» nove meninas do público tiveram a sorte de subir ao palco e rodear o artista e até cantar com ele.

Assim como Paul Anka, Jorge Ben Jor dá uma abada de genica a muitos jovens e os músicos que o acompanham não ficam nada atrás, a animar o serão com um instrumental quase sem pausas. O público retornou o entusiasmo e assim demonstrou a felicidade de poder fazer parte de um concerto deste precioso ícone da MPB.

A anteceder o samba ouvimos a trompetista Jéssica Pina que teve a sua estreia no palco principal. Em edições anteriores a trompetista já tinha participado neste festival no palco do espaço Cool Pick & Go. Desta vez trouxe alguns dos temas que tem trabalhado nos últimos anos como «Vento Novo» e «Romeu» e, ainda que se aventure no canto, é de facto como trompetista que ela se destaca.

A abrir o serão contamos com mais um grupo de jovens músicos e este último dia ficou por conta de Francisco Gomes Trio a decorar sonoramente o ambiente com subtis trechos jazzísticos.

Esta 17.ª edição do EDP Cool Jazz chega ao fim com uma contagem de cerca de 43 mil pessoas no conjunto de sete dias, de acordo com dados divulgados pela organização, que se juntaram para partilhar o gosto por este festival, distinto no género, e renova a imagem voltando ao nome Cool Jazz e com a assinatura “Cool by Nature”. Esta é, portanto, a última edição com o patrocínio da EDP depois de uma década como naming sponsor. A diretora da produtora Live Experiences diz estar em curso a procura por novos patrocinadores com o intuito de manter a essência do registo deste evento de gosto eclético, uma vez que a energética tem vindo a desmarcar-se destes contextos festivaleiros. A próxima edição já reservou o mês de julho de 2023 e até lá anunciará os artistas que irão compor o cartaz daquele que é o festival mais ‘cool’ do verão.



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