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Electroclash

Um verdadeiro estilo musical, ou um catalizador para o re-aparecimento e até mesmo criação de novos estilos?

A palavra “Electroclash” ainda hoje causa urticária a muito boa gente e não sem alguma razão. Que dizer de um suposto estilo musical, cujo nome provinha de um festival criado por Larry Tee, algures entre 2000 e 2001? A grande questão é se esta designação caiu ao mesmo tempo sobre vários estilos aproximados, mas diferentes entre si.

Vejamos então como estava o panorama no início desta década em termos de música electrónica/dança. Na altura, raras eram as noites de House interessantes. A maioria dos DJs optava por massacrar  com o que na altura se chamava de Dark/Tribal/Progressive House (Progressive no sentido Nova-Iorquino do termo…Superchumbo, John Creamer, Redanka, Sasha, Digweed, Steve Lawler, etc), ou então com coisas puramente mainstream. Continuava a sair bom House, mas eram raros os DJs que arriscavam, o que fazia parecer que o House só existia dentro dos estilos enumerados. O Techno então ainda continuava só para “duros”. Havia também quem apostasse em coisas mais dentro da onda do Broken Beat, um som bastante interessante, com fortes influências de Funk, Soul & Jazz.

Entretanto, algures entre os finais de 2001 e os inícios de 2002, começou-se a ouvir falar de nomes como Fischerspooner, Blackstrobe, Little Computer People, Adult., Playgroup, LCD Soundsystem, Ladytron, Metro Area, Tiga, ou Miss Kittin & The Hacker, nomes que de certa forma, tentavam recuperar certo tipo de sonoridades (e até alguma estética visual) electrónicas que tinham conhecido o seu auge algures entre o final dos anos 70 e início dos anos 80, sobretudo o Synth-Pop, o Disco-Sound de teor mais electrónico, o Electro mais “Old School” e o Post-Punk/Punk-Funk/New-Wave.

Por esta mesma altura um dos veteranos da cena electrónica, Felix Da Housecat, decidiu também lançar um albúm onde recuperava alguma dessa sonoridade, parecendo cansado do panorama House/Techno mais convencional. Já tinham existido sinais de que isto poderia vir a acontecer, sobretudo com o lançamento de Darkdancer dos Les Rhythmes Digitales de 1999 e dois anos depois Discovery de Daft Punk.

Para além de uns quantos 12” que andavam a ser editados por “labels” como a International Deejay Gigolos de DJ Hell, a Klein, a Force Inc, a Nuphonic, a Environ ou a Interdimensional Transmissions que recuperavam esse fértil imaginário musical algures entre o final dos anos 70 e o início dos anos 80,muitos DJs, também cansados da cena House/Techno mais convencional, começaram a utilizar discos dessas editoras. Na altura, não havendo discos actuais em número suficiente para que se pudesse fazer um “set” coerente dentro dessas coordenadas, foi necessário de recorrer ao “digging” de discos mais antigos que soassem actuais, ora indo buscá-los à própria colecção, ora a procurá-los em lojas de 2ª mão, E-Bay, Discogs, etc…Começou-se assim a recuperar muita coisa que já não era ouvida há bastantes anos, sobretudo coisas de estilos como o Synth-Pop, o Italo Disco, o Electro-Disco/Boogie, Punk-Funk/Post-Punk ou o House de Chicago e Techno de Detroit “circa” 85/89.

Entretanto houve outra visão sobre produções actuais de editoras como a Classic ou a Music For Freaks que editavam um House mais “electrónico”, no sentido em que ia buscar também influências aos estilos enumerados anteriormente (quem não se lembra de coisas como a remistura de Ewan Pearson ao Perspex Sex dos Freeform Five, de Fantasize de Rob Mello feat. Cecille ou de Temptation & Lies de Brett Johnson ?).

Surgiram também menos problemas em passar temas de Rock pelo meio de um set mais electrónico. A própria cena “indie” foi directa ou indirectamente afectada por isto tudo com nomes como The Rapture, Franz Ferdinand ou Radio 4 que eram fortemente influenciados por nomes como os Gang Of Four, PIL, ESG, Liquid Liquid, Blondie, Au Pairs, A Certain Ratio, etc, com um certo “back to basics” do Rock com bandas como The Strokes ou White Stripes. Basicamente o Rock ganhava um novo fôlego (e um fôlego bastante mais dançável), depois daquela sobranceria, depressão e instrospecção criada e causada por estilos como o Grunge e o “Nu-Metal”, que tinham afectado o Rock até ao início desta década.

Apareceram então em força a cena dos “mash-ups”. Começou a ser habitual ouvir-se um “acapella” de Withney Houston sobre um qualquer tema dos Kraftwerk (Richard X), ou a voz de uma qualquer estrela Pop sobre um qualquer “hit” electrónico ou de Rock dos anos 80/90 (Erol Alkan e 2ManyDJs).

Inclusivé uns quantos produtores de Techno quiseram tornar o seu som mais “pop”, com a introdução de vozes nas suas produções e com alguma recuperação sonora de sons tipicamente anos 80 e também 70…é ouvir alguns discos de editoras como a Kompakt, a Turbo ou a Mental Groove. E outros houve que a sons Techno quiseram aplicar sonoridades mais “rockeiras”, como T.Raumschmiere, Vitalic ou Electronicat.

A consequência disto foi que os sets começaram a ficar mais ecléticos e mais audazes, e também bem menos aborrecidos. Um bom documento disto, na minha opinião, são, por exemplo, os DJ Kicks de nomes como Playgroup, Chicken Lips ou The Glimmers, misturando vários estilos, fazendo-os soar de forma bem coesa.

Tinha-se assim criado uma nova forma de estar na pista de dança, um pouco semelhante ao que se tinha vivido algures entre 1981 e 1989. E atrás de um qualquer tema antigo que fosse recuperado (fosse Synth-Pop, Italo, House, Post-Punk, etc), vinha também uma história, história essa muita vez que carecia de ser recuperada e consequentemente, mais temas se descobriam.

Creio que, se não fosse este fenómeno coisas como o Cosmic Disco/Balearic continuariam na obscuridade por mais uns bons anos, e que este ressurgimento em força que se sente actualmente tanto do Disco-Sound como do House mais “old school”, bem ou mal, acaba por vir deste clima que se criou.

Obviamente tudo o que falei em cima aplica-se a pessoas que são verdadeiramente “music-lovers”. Muitos houve que aproveitasse este fenómeno “Electroclash” para apenas passar os “hits” do mesmo e, de certa forma, aproveitar um certo revivalismo que se fazia sentir pelos anos 80. Limitavam-se a passar os “hits” até causar enjoo e passar no meio dos mesmos coisas como o Eye Of The Tiger ou coisas mais foleiras ainda…Obviamente que quando a “febre” acabou, uns voltaram à obscuridade, e outros muito provavelente tornaram-se DJs de House foleiro (digo eu…). Um blog nacional que captou isto em toda a sua essência foi o Fratricida; apesar de por vezes ser desnecessariamente agressivo para com certos nomes que merecem todo o nosso respeito, muito do que é lá dito continua bastante actual e acertou quase sempre na mouche .

Entretanto, era inevitável que novos estilos surgissem. Um deles foi o que se convencionou chamar de Electro-House. Embora as bases para este estilo já tivessem sido criadas nos anos 90 (basta ouvir alguns discos da 20/20 Vision ou até algum Filtered-House françês que “samplasse” cenas dos anos 80), ninguém o refinou tanto como as duplas Tiefschwarz, Blackstrobe e Booka Shade. Os Tiefschwarz, que eram produtores de Deep-House, tinham ficado apaixonados pela, digamos assim, nova ordem sonora, quando assistiram a um “showcase” misto da DFA e da Output algures em Miami, na altura da Winter Music Conference e começaram a produzir a sua versão do que tinham ouvido.

No caso dos Blackstrobe, foi uma questão de se misturar os vários estilos músicais que mais aproximavam a dupla Ivan Smagghe/Arnaud Rebottini que deu origem ao som deles, um bocado mais “dark”. Os Booka Shade basicamente eram os produtores do “rooster” da editora Get Physical, ou seja, qualquer disco editado com o nome deles, ou com o nome M.A.N.D.Y. ou DJ T, algures entre 2002 e 2006 é certamente sua produção.

Também se chamava Electro-House a produções do Tiga e da sua editora, a Turbo, ou a cenas de nomes como Abe Duque ou Marc Romboy e a sua  Systematic, mas no fundo, acabavam quase todas por soar a versões modernas de Acid-House e congéneres do que propriamente Electro (nesta altura começou-se a chamar “Electro” a muita coisa que verdadeiramente não o era…).

Ironicamente, alguns destes produtores começaram depois a virar-se para sonoridades mais Minimal (ou o que quer que isso seja hoje em dia), que progressivamente vieram a tornar-se tão chatas e inócuas como o famigerado Dark/Tribal/Progressive House que vigorava no início da década…Caricato foi também reparar que nomes que antes se dedicavam a essas famigeradas sonoridades também começaram a produzir e a passar coisas algures entre o denominado Electro-House e o Minimal…( Sasha e Steve Lawler)

Surgiu também o Maximal, uma espécie de Electro-House mais ruidoso e com atitude mais “rockeira”, com técnicas de “sampling” e “cut-up” típicas do Hip-Hop à mistura, popularizado por nomes como Justice, Boys Noize, Digitalism, etc, e que ainda hoje cria furor em muitas pistas de dança, embora, na minha opinião, nos últimos tempos, se tenha tornado um bocado uma caricatura do que havia sido no início.

E, como já havia dito anteriormente, acredito que a recuperação de sonoridades mais ligadas ao Disco-Sound também provenha disto. Para além do regresso em força dos “re-edits” a temas Disco, com velhas glórias dos anos 80 como Greg Wilson a finalmente terem o reconhecimento mais que merecido (e não só), também surgiram no radar nomes bastante interessantes como os já mencionados Metro Area, Lindstrom, Prins Thomas, Todd Terje, Chicken Lips, Loud E, Escort, Rub N Tug, etc (para além do reaparecimento em força de nomes como Harvey, Idjut Boys, Faze Action ou Daniel Wang).
Para o bem e para mal, esta “nova ordem” musical abriu os ouvidos a muita gente em relação a muitas coisas que anteriormente não estavam no radar musical delas.

Em retrospectiva, creio que a ideia do “Electroclash” foi bem mais atraente do que exactamente a música que foi propositadamente produzida para caber nessa definição. Muita dessa música limitava-se a emular o que já havia sido feito cerca de 20 anos antes ( e que continuavam a soar bem melhor do que as “imitações” actuais). Mas o espírito que criou entretanto, esse sim é que importa tentar manter a todo o custo, ou seja, o misturar diversos estilos e tentar criar um set que seja tudo menos monótono para quem o ouve,e, consequentemente, o dança. Não que muitos DJs não se regessem antes por essa pauta, mas acredito que o número deles aumentou desde essa altura…



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