ELYSIA CRAMPTON @ ZDB (14.06.17)

ELYSIA CRAMPTON @ ZDB (14.06.17)

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Se existe alguém capaz de transgredir todo o tipo de fronteiras é Elysia Crampton. Basta observá-la, no seu raio de acção, para sabermos que a sua mente e corpo são um caos transformado em festa. Uma festa que, no entanto, encerra um claro e vívido discurso: resistir enquanto se disfruta.

         Quem esteve no passado 14 de junho, na galeria Zé dos Bois, estará certo disso. A artista e produtora trans, nascida nos Estados Unidos —mas de raízes bolivianas —, expandiu a sua alquimia progressiva em múltiplas direcções: reggaeton psicadélico, electro-huayno pachanguero, cumbia marginal, punk andino. Elysia Crampton é capaz de fundir água e azeite para crear universos sonoros. Explosão.

         Escutá-la é atravessar um quarto coberto de estilhaços de espelho.

         Crampton encarna a revolução do híbrido.

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Mais uma vez a ZDB acertou em cheio no alvo.

            O concerto de abertura esteve a cargo de Polido (aka João Polido Gomes), um dos artistas mais experimentalistas da cena local, actualmente a residir em Berlim. De camisa branca e uma aura imponente —apenas iluminado por uma lâmpada de sal—, Polido apresentou o seu último álbum “Time is when” (Lynn/Boyce Hatti, 2017), do qual se escutaram temas como «Calibrado», «Ritual of Steam», «Open Fire» ou «Stuck in the wind reprise», sublinhando a riqueza electroacústica da sua música.

         Também o modo como agia, gerava expectativa. Por momentos, Polido distanciava-se do seu gear set logo para de seguida observar o público com atenção, como se todos tivessem sido, diante de si, os únicos testemunhos desse instante.

Alarmes, vozes, ruídos. Dos mantras elaborados a partir do sampling e field recordings, até à ascensão de um hipnotismo mais selvático, Polido traça uma natureza dualista em cada construção sonora. No fundo, cartografias de peso e leveza. Terminada a sua actuação, o público encontrava-se num outro estado de consciência.

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“Coming from a historical perspective, I can see that my voice is not my own — it was never my own. It was constructed by structures that preceded me — the state structures, the hegemonic structures, and literally the material structures that make me — which come from this indigenous Aymaran background. The Aymaran people made me, so they’re making some of my voice, however compromised or contradictory that position is.”

 

—Elysia Crampton.

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“Hi. I guess I’m playing now”, anuncia Elysia Crampton, já sobre o palco, para logo entregar um sorriso. A sua sombra projecta-se na tela traseira de onde surgem imagens de referência pré-colombina. Traz duas largas tranças no cabelo —tal como as mulheres aymaras, nas montanhas bolivianas—, uma camisa cinzenta e uma saia tradicional para dança huaynito (género musical andino). Contudo, a sua presença ao vivo contrasta com esse universo unicolor, apresentando-se brilhante, garrida. Esticando o seu braço para alcançar o microfone, deixa a descoberto a sua mão esquerda com uma tatuagem que delinha assim a estrutura óssea debaixo da sua pele. E então o concerto começa. Em menos de cinco segundos, as suas mãos se multiplicam. Pressiona o botão do seu MIDI e escuta-se um eco de reggaeton piroso que causaria escândalo a muitos ouvidos mais refinados. Porém, Elysia Crampton reivindica os ritmos mais bastardos para logo os levar para outros voos. Órbitas electrónicas e frequências que exorcizam; xamanismo.

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Nómada é uma das expressões que melhor traduz a sua essência.

         Desde a sua infância que Elysia Chuquimia Crampton se viu continuamente forçada a mover de lar, entre várias cidades dos Estados Unidos e México. Isto sem contar com as viagens intangíveis —nem por isso menos importantes— e desafios pessoais, de foro íntimo. Houve certamente períodos conturbados, mas de alguma forma, sempre soube transformá-los em algo mais.

         Embora tenha editado um par de discos, já desde 2008, como “Promise” (Weird Magic, 2012) e “The Light That You Gave Me to See You” (edição de autor, 2013), recorreu sempre ao seu pseudónimo E+E. Foi apenas em 2015 que a artista lançou a primeira obra sob o seu nome real; “American Drift” (Blueberry Records), deixando claro que estávamos perante uma criadora de registros únicos e de fincada postura política.

         Em 2016, durante uma visita à casa da sua avó Flora, na Bolívia, a artista ficou sensibilizada com a história de Bartolina Sisa, uma das mulheres indígenas mais emblemáticas da luta aymara. Líder da resistência contra a invasão espanhola, em finais do século XVIII, que morreu enforcada em 1782 em praça pública.

            Fruto desse acontecimento, e dos (re)encontros com as suas raízes ancestrais, nasceu o álbum “Crampton Presents: Demon City” (Break World Records, 2016), em que a ela define como um ‘poema épico’ ou uma ‘peça de solidariedade’, uma vez que nele colaboram outros transgressores como Chino Amobi, Rabit ou Lexxi; por sua vez, cunharia um género seu, apelidado de severo.

Por fim, a sua última produção: “Crampton Presents: Demon City” (Break World Records, 2016). À excepção do tema «Spittle» —um instrumental de nove minutos e meio de viagem solitária entre Crampton e o seu piano— tudo o resto é uma sobrecarga sonora,  intercalada de risos, efeitos surreais e recolhas intemporais de vozes de locutores. Uma flecha que trespassa identidades culturais, descolonização, género, raça ou classe. Novamente uma homenagem à herança de todos os seus defuntos e um tributo maior a uma figura ainda pouco reconhecida na história da América pré-hispânica: Chuqui Chinchay, o deus protector das ‘naturezas duplas’.

Foi precisamente essa homenagem que Crampton prestou no Aquário.

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O concerto continua.

O projector de imagens tão pouco pára ou abranda. Cavalos e descargas eléctricas são agora apresentados na tela; ruído, fúria, psicadelismo. Existe toda uma batalha a decorrer no interior da sua música: emancipação. De repente, ecoa o som de cumbia na sala. Cada pessoa na audiência poderia cerrar os olhos e imaginar que estaria na América do Sul, algures numa festa de Fim de Ano. No entanto, este concerto é mais uma viagem; e como qualquer viagem, as fronteiras são transgredidas. Bem podia ser uma celebração apocalíptica, num qualquer canto do planeta. E esta é a nossa forma de resistir, tirando o máximo partido.

         Termina o concerto.

         Elysia Crampton agradece; o espírito de Bertolina Sisa continua presente nas suas tranças.

Já que estamos aqui —diz— vou tocar mais uma.

E então arranca.

Ela própria é esse poema épico —penso.

Todo o palco transforma-se em trincheira.

 

Texto por Carla Badillo Coronado e fotografias por Letizia Lucignano.



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