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“Em Fuga” de Peter May

No coração da grande nuvem

O primeiro contacto dos portugueses com a obra o escocês Peter May, remonta ao ano de 2014 quando A Casa Negra chegou aos escaparates nacionais. O impacto com o universo de May, que antes de abraçar a literatura construiu uma carreira de sucesso enquanto jornalista, criador e produtor de conteúdos televisivos, colocou o autor na órbita dos apreciadores de thriller policiais de âmbito assumidamente cinematográfico.

O reconhecimento da crítica acompanhou o entusiasmo dos leitores e os prémios sucederam-se com destaque para os prestigiados Cezam Prix Littéraire (galardão atribuído pelos leitores) e o Barry Award (Melhor Romance Policial) de 2013.

Como resposta a essa dedicação e reconhecimento, Peter May continua a sua senda de competente e entusiasmante autor e é com prazer que recentemente sentimos as prateleiras das livrarias mais ricas com a edição de Em Fuga (Marcador Editora), uma dupla viagem entre Glasgow e Londres separada por cinco décadas.

Tudo começa em 1965 quando o jovem Jack Mackay, do alto dos seus sonhadores 17 anos e depois de ter sido expulso da escola, decide abandonar a capital escocesa em direção à metrópole londrina. Surpreendentemente, ou talvez não, os seus amigos mais chegados, companheiros que com ele formavam a banda The Shuffle, por razões diferentes de Jack ou num mero assombro de solidariedade, decidem acompanhá-lo nessa aventura.

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Decididos, Jack, Maurie, Dave, Luke e Jeff («de caca»), rumam a Londres, a «grande nuvem» apenas levando na bagagem de uma carrinha “emprestada” os seus instrumentos e doses elevadas de uma esperança que os fazia sonhar com um futuro promissor na história do rock.

A aventura torna-se em desventura e o divertimento e a adrenalina que faziam parte do quinteto sofrem inúmeros reveses na periclitante viagem até ao seu destino, nada que estivesse nos seus planos. Mas o início até foi inspirador pois estar em contacto, ainda que fugaz, com (talvez) John Lennon ou Bob Dylan fazia crer que o céu lhes sorria. Mas, infelizmente, o sonho pode, rapidamente, tornar-se numa dura realidade e até o amor, adolescente, onírico, pode ser uma faca de dois gumes e a vida pode ser vista como uma montanha, um obstáculo inultrapassável.

Cinco décadas depois, um jornal relata um crime que desperta o quinteto, agora apenas uma sombra dos adolescentes que, um dia, pensam ter sido. Jack está reformado de uma vida que o colocou atrás de um cinzento balcão de um banco; Maurie está gravemente doente; Dave é a imagem do homem amargurado. Mas todos têm um último objetivo de vida: descobrir o segredo de uma estranha morte. E é assim que o agora trio resgata a companhia do atrofiado, obeso e geek Rick, neto de Jack, e parte para uma Londres diferente mas sempre enigmática, visceral e acelerada.

A narrativa, assumidamente em formato road movie, divide a atenção do leitor entre o que se passou em 1965 e 2015. Se, no passado, é o discurso na primeira pessoa de Jack que enche as páginas de Em Fuga, o registo “presente” leva-nos a “escutar” o protagonista mas na terceira pessoa.

Existem alguns elementos que se repetem em ambas as aventuras (carros roubados, perseguições, confusões, ironias e um mesmo peculiar esconderijo de dinheiro), mas os mais pertinentemente descritos são o sentir dos tempos, a contextualização do quotidiano e as alterações das paisagens e, claro está, das pessoas.

Os rapazes sonhadores e ingénuos deram lugar a velhos rabugentos e essa caracterização é uma das grandes mais-valias da narrativa de May, tal como a coerência genuína das brincadeiras, ou momentos de tensão, entre Jack, Dave e Maurie. As descrições dos locais são também muito sólidas e evocam a nostalgia pelos semelhantes e sítios desaparecidos, provocando momentos sensíveis, emotivos. Muito competente é também a recriação dos loucos anos 1960, com alusão filosofias onde a liberdade era infinita, locais e modas, elementos que marcaram não apenas uma geração mas que ainda continuam no imaginário de todos como uma das épocas mais marginais e socioculturalmente revolucionárias dos últimos séculos.

De leitura agradável, Em Fuga provoca uma íntima dinâmica entre autor, personagens e leitor e é, acreditem, difícil não ler este livro de forma obsessiva, onde o único objetivo é saber, realmente, qual o mistério que assombra as almas dos ex-membros dos The Shuffle passados 50 anos, dúvida que é bem sublinhada por uma (excelente) caracterização e análise da impetuosidade e estoicismo da juventude.



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