EMA | “The Future’s Void”

EMA | “The Future’s Void”

Um segundo álbum pode perfeitamente ser assim. Imperfeito mas com personalidade. Com alguns passos para frente e outros para os lados

EMA são as iniciais de Erika M. Anderson. Confesso que procurei pelo nome por detrás do M mas não o consegui achar. De qualquer forma, daqui para a frente iremos tratar Erika por EMA. É mais simples e é assim que ela se apresenta ao mundo, esta cantora que cresceu no Dakota do Sul mas actualmente anda por Portland (faz sentido, não faz?). A concentração de talento que é atraída por esta cidade impressiona e nós só temos a ganhar com isso. E neste caso específico o ganho tem um nome: “The Future’s Void”.

O segundo álbum acarreta sempre um peso enorme, ainda maior quando o primeiro álbum é bem recebido, quer pela crítica, quer pelo público, como foi o caso da estreia a solo de 2011, “Past Life Martyred Saints”. Para sua felicidade (e nossa, porque não?), EMA parece não se ter deixado afectar muito por isso. É que “The Future’s Void” não fica a dever nada – mas mesmo nada – ao seu predecessor.

Musicalmente, as canções de EMA olham e reflectem sobre o presente e o futuro; o mundo digital em que vivemos e em que estamos presos, mas não é menos verdade que o passado não é esquecido (os drones, senhores os drones). Para além disso, o presente e o futuro não podem existir sem um passado… Já as letras foram escritas para nos fazer pensar. É transversal a todo o álbum um significado ambíguo e a própria EMA reconhece isso – “like the best of rock lyrics, my intention was that many of these words and lines can be interpreted in different ways”. Funciona. “The Future’s Void” é por isso um álbum de reflexão com características muitos próprias.

«Satellites» é o tiro de partida. Um registo que combina ruído com melodia, conferindo à canção uma aura industrial e que nos leva a questionar se EMA não terá andado a escutar Nine Inch Nails (elogio!). «So Blonde» é uma reflexão autobiográfica: “livin underground like I don’t know what to fear / barely survived my 27th year / I was alone in the city / I was alone”. «3Jane» é a terceira canção do disco e tal como as duas anteriores é única. Parece que nada as liga entre si, porém quando escutadas de seguida parecem encaixar de forma perfeita. É também evidente que em “The Future’s Void” EMA deixa um pouco de parte um registo quase em regime de spoken word que vigorou no álbum anterior.

«Cthulu» é um título que intriga e entre as muitas referências a Cthulhu (atentem na grafia semelhante mas distinta), a entidade cósmica criada por H.P. Lovecraft em 1926, lá surgiu uma definição plausível. Um nome que reflecte uma abordagem prática, lógica e analítica à vida e uma paciência quase infinita. Se era este o caminho que EMA pretendia trilhar quando escreveu a canção, não faço ideia… Mas é aquele pelo qual eu optei.

«Smoulder» pode ser traduzido como “estar latente, sem chama” e é exactamente essa a sensação que se tem enquanto se escuta a canção. A distorção na voz desequilibra-a e faz com esta não pareça muito mais do que um murmúrio estranho. «Neuromancer» é tribal citadino, um pouco confuso e que não consegue evitar um encolher de ombros e alguma indiferença. Felizmente isso muda logo a seguir com «When She Comes», que nos faz sentir bem, sem que se perceba exactamente a razão. É como quando saímos de casa durante a Primavera e sentimos o sol na cara. É exactamente do que precisamos ali.

«100 Years» é solidão. Um lamento. Uma reflexão sobre de onde viemos, para onde nos dirigimos, como estamos a fazê-lo e sobre as consequências das nossas acções. Tudo ao som das teclas de um piano e da voz de EMA. Assim; simples e despido. Belo.

«Solace» faz-nos erguer e consola-nos. Voltam os sintetizadores e espelham-se na perfeição os duplos sentidos e jogos de palavras que EMA procura ao longo de todo o álbum – “we make the constellations out of her beauty marks / we make the constellations out of the falling stars / beg. / pray. / beg / prey”. Por fim, temos «Dead Celebrity» que encerra “The Future’s Void” de forma perfeita, com um órgão que atravessa a canção do início ao fim e que nos faz lembrar aqueles que se podem escutar nos jogos de basebol e hóquei no gelo.

Um segundo álbum pode perfeitamente ser assim. Imperfeito mas com personalidade. Com alguns passos para frente e outros para os lados.



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