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EMBARGO

António Ferreira, o Desembargador.

António Ferreira apresenta, em ante-estreia, no FantasPorto, a sua última longa-metragem «Embargo». A prata é da casa: o realizador adapta ao grande ecrã o conto homónimo de José Saramago, convida Filipe Costa – conimbricense do rock – e roda os setenta e cinco minutos de filme em Coimbra, com a sua produtora ZED Filmes.

Take 1: O protagonista

«Embargo» marca a estreia de Filipe Costa – actor de teatro e músico dos «Sean Riley and The Slowriders» – no grande ecrã, como o protagonista Nuno. Nuno passa os dias numa roulotte a vender bifanas, que não é ele que faz, e tem um patrão maneta, mas teve uma ideia genial que promete revolucionar a indústria do calçado. A ideia, que ultrapassa os limites daquele atrelado e que o permite sonhar com uma vida diferente é, no contexto de um embargo, aquilo que move todo o filme: um digitalizador de pés. Filipe Costa acredita no projecto e declara: “seria muito útil, por exemplo, para pessoas que nasceram com um pé “meio-número” ou para aqueles que têm barbatanas no lugar de pés como eu”.

Take 2: Agora no cinema

Sobre o personagem que interpreta, Filipe Costa conta que tentou, na sua construção, que “não fosse apenas uma ou duas coisas chapadas, mas que fosse naturalmente todas as contradições que o atormentam. Como se fosse possível ouvi-lo pensar”, acrescenta. Uma delas está, obviamente, num sonhador que vê o seu projecto falhar, mas que não age como um falhado.

Depois de uma longa experiência em Teatro, Filipe Costa fala-nos sobre os desafios de fazer cinema: “se ao fim dos primeiros minutos tinha gravado o primeiro take, estava ao mesmo tempo a aprender a partir dele as particularidades do trabalho de interpretação para cinema”; outra das diferenças é o processo de trabalho e composição dos personagens que no grande ecrã é “mais imediato”, onde o mesmo é, também, criado “quer pelo próprio actor quer pelo realizador”.

Ao contrário do Teatro, como conta o protagonista de «Embargo», o Cinema é “um trabalho feito de retalhos e a forma como se escolhe o que se vê e como se vê, a forma como se monta o material acrescenta sentidos novos ao que se faz, o que dá a um actor a possibilidade de ter uma sensação de ser público também quando vê o filme”. Por isso, o visionamento do filme será, também para si uma surpresa na qual tem “uma grande expectativa”, enquanto produto final.

Take 3: O realizador

A história de «Embargo» começa quando, em finais da década de 80, Portugal perde, salvo seja, para o cinema um programador de informática: “larguei o meu emprego de programador, vendi o meu computador e com esse dinheiro, fui viver para Paris”, conta António Ferreira, ao estilo das melhores histórias românticas.

Em meados dos anos 90, já regressado a Portugal, entra para Escola Superior de Teatro e Cinema e dois anos depois na Academia de Cinema e Televisão de Berlim.

O Conservatório, em Lisboa, “era uma escola essencialmente teórica, conservadora, agarrada a velhos mitos do cinema”, explica António Ferreira. Por outro lado, em Berlim, toma contacto com uma experiência académica muito mais prática e “virada para o exterior”. “Aprendi a confrontar-me com as decisões que tomava como realizador”, conta da sua experiência na escola alemã. Lá teve a oportunidade de ver os seus filmes acabados e exibidos. Mas apesar de Berlim ter sido o seu “sonho”, revela-nos que ambas as experiências foram fundamentais para o que sabe hoje, ajudaram-no a “relativizar visões muito diferentes do cinema”, pois considera, como continua, que “não há fórmulas”.

Take 4: O «Embargo» propriamente dito

Aos 24 anos, aventurou-se a realizar «Embargo», mas recuperadas e revistas as cassetes, da altura, reconhece que lhe faltava “sobretudo maturidade para abordar a história”. Quase 20 anos depois conseguiu cumprir o seu desejo. Para o realizador “a literatura de José Saramago é extremamente visual, gosto do estilo da escrita dele e identifico-me com a visão dele do mundo”.

Nos dias de hoje, «Embargo» começou por ser uma curta metragem – o subsídio que António Ferreira tinha era para isso –, mas o realizador fez uma longa: agradeçamos à ZED Filmes que “investiu financeiramente”, mas também ao facto de terem conseguido mais financiamentos com a extensão da duração, nomeadamente do Brasil e Espanha, co-produtores do filme. Dinheiro à parte, reconhece que a estrutura da produção permitia o risco, mas ressalva que “uma equipa dedicada ao projecto, que compreendeu as dificuldades que tínhamos e que se entregou completamente” foi fundamental para a sua concretização.

Take 5: A produção nacional

“O subsídio deve servir de sustento mínimo que permita a uma produção desenvolver-se e ver a luz do dia, mas sempre procurando outra fontes de financiamento fora dos fundos públicos”, defende António Ferreira. O realizador acrescenta ainda que a atribuição de subsídios em Portugal tem vindo a criar “um efeito perverso, pois ao apoiar sucessivamente obras que não têm qualquer ressonância no público de cinema em Portugal, criou um divórcio trágico entre os espectadores e filmes nacionais.”

É aqui que aborda a questão do “cinema comercial” e “cinema de autor” apelidando a discussão de “estéril”: “Há filmes que as pessoas querem ver e filmes que o público essencialmente ignora”. Também afirma que o facto de se ignorar o que o público pensa é “um problema de mentalidade e até de arrogância de certos lobbies no meio cinematográfico que vêem o público como algo desprezível” como conta ter ouvido várias vezes na escola de cinema em Lisboa e “esta atitude não a vejo em mais lado nenhum excepto em Portugal”, remata António Ferreira em desacordo.

Take 6: Depois do Fantas o Mundo

Depois do FantasPorto está prevista a “exibição comercial” no Verão, conta António Ferreira que pretende estendê-la a todo o território nacional. A estreia está também prevista em Espanha e Brasil e, paralelamente, a produtora irá “promover o filme em festivais e mercados internacionais”, conclui.



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