EME 2006

Stephen Hawking, consagrado físico e um dos mais respeitados teóricos em Cosmologia, terá dito certa vez que qualquer entendimento que o Homem ocidental fizesse do Universo acabava por fazer tanto sentido quanto aquela famosa representação dos nossos antepessados em que o Mundo não passava de um prato achatado, apoiado nas costas de uma tartaruga.

Existe uma grande dose de ironia nesta afirmação de Hawking, mas se virmos bem não deixa de fazer algum sentido. Afinal de contas, o que é a Matemática, a Física e outras disciplinas que tais, senão mais uma criação do Homem, orientadas por símbolos e caracteres a que damos o nome de números. Ou seja, uma criação do Homem que acaba por ter um valor equivalente à outra representação pictórica, mesmo que não passe de uma tartaruga com um prato sobre a carapaça.

Podemos seguir este mesmo ponto de vista para tentar avaliar as diferenças entre um instrumento musical denominado convencional e um outro experimental. Será possível estabelecer uma fronteira entre música composta e música experimental? E mais ainda, fará sentido tal tentativa? Qual a diferença entre um piano e em laptop? Não apresentam os dois o mesmo grau de complexidade musical perante um leigo?

Vítor Joaquim, um dos principais nomes da música digital do nosso país, diz que, em valores absolutos, a maior diferença entre um piano e um laptop está no peso de cada um. Contudo, não são verdade absolutas que os EME – Encontros de Música Experimental procuram alcançar, mas antes o contrário: lançar questões a partir de trabalhos de artistas ligados às artes digitais.

Os EME existem oficialmente desde 2000 e têm vindo a crescer anualmente, repartidos entre Setúbal e Palmela, localidades acostumadas a permanecerem um pouco na sombra no que diz respeito à vanguarda cultural. Talvez devido a esse raro hábito é que Setúbal se desmarcou da edição deste ano do certame, fixando-se os EME em Palmela, mais propriamente na Igreja de Santiago, no Castelo de Palmela.

Nos próximos dias 4, 5, 6 e 7 de Outubro, Palmela recebe então alguns dos nomes mais sonantes da música digital, não só do panorama nacional como do internacional, a saber:

Dia 4
Micro Áudio Waves (pt)
Harald Sack Ziegler (din)

Dia 5
Húmus (pt)
Murcof (mex/esp)

Dia 6
One Might Add (pt)
Oval (din)
 
Dia 7
Collen (uk)
Naja Orchestra + Colleen (pt+uk)

Mas não só de música se fazem os EME: durante os dias do festival acontecem outras actividades paralelas, nomeadamente “Conversas Com os Artistas” e instalações de artistas tão díspares quanto Paulo Mendes, António Jorge Gonçalves, Edgar Santinhos, Hugo Garcia Louro e Vítor Joaquim. Foi este último, enquanto director do festival, que em conversa com a Rua de Baixo nos falou dos EME deste ano.

Para quem nunca ouviu falar, o que são ao certo os Encontros de Música Experimental?

Trata-se de um festival dedicado à experimentação, onde se privilegia o encontro e diálogo entre criadores (sonoros e visuais) e públicos interessados em investigar os contornos das chamadas “novas linguagens artísticas”.

Os EME assumem-se como uma alternativa e uma tentativa de resistência aos grandes sistemas de produção e criação em massa que sistematicamente assolam a cultura do espectáculo em Portugal. São a demonstração de que há criadores interessantes e de que há um público interessado em conhecer e em questionar a criação que dilata constantemente as barreiras da classificação e categorização de estilos.

Por fim, e não menos importante, convém ainda dizer que nos EME os criadores portugueses se apresentam em igualdade de circunstâncias e com a mesma dimensão de cartaz que os criadores estrangeiros. É um ponto de honra nos EME que todos os criadores estrangeiros possam apreciar os criadores nacionais nas melhores condições possíveis, esperando contribuir dessa forma para uma maior e melhor projecção e divulgação daquilo que de bom se faz em Portugal.

Existe, na sua opinião, um preconceito geral relativamente à música experimental?

Não sei se aquilo que existe se pode chamar preconceito. Diria antes que se trata de mero desconhecimento, tanto por parte do público como por parte dos próprios responsáveis, por gerar informação. A verdade é que toda e qualquer coisa que não se encaixe dentro de um formato pré-estabelecido tende a ser ignorado ou depreciado pelas massas. É um fenómeno perfeitamente normal, ainda que lamentável.

Se estabelecermos um paralelo, verificamos que o mesmo se passa com a dança, o teatro e as artes em geral. Alguém sabe por onde se anda a fazer teatro experimental em Portugal?

Mais triste (muito triste) é o facto de termos, constantemente, criadores portugueses nas áreas da música experimental (improvisada ou composta) a apresentarem trabalho fora de Portugal e de a imprensa não perceber que isso está a acontecer. E quando é informada faz de conta que não sabe de nada. Dá-lhes muito trabalho, ter de pensar.

Estou convencido de que não há uma única semana, em todo o ano, em que não esteja no mínimo um português a tocar no estrangeiro. Acontece com uma grande frequência estarem vários músicos portugueses, em vários lugares da Europa, ao mesmo tempo. Se fossem clubes de futebol, o país parava certamente!

No cartaz dos EME deste ano encontramos quatro projectos nacionais. É a prova de que a música portuguesa, neste campo, está de boa saúde e se recomenda?

Sim, como já disse há pouco, existem bastantes músicos portugueses a tocar com grande regularidade no estrangeiro, mas faltou dizer que somos muito bem vistos entre os criadores e produtores de eventos estrangeiros. Somos bastantes para a dimensão do país e somos apreciados, por oposição ao cinema francês, que se faz em grande quantidade, mas onde a qualidade é em muito pequeno número. O que é que isso tem a ver? Tudo.

Não há muito tempo, em França, os Micro Áudio Waves ganharam os prémios de melhor videoclip e melhor álbum no Quartz Electronic Music Awards. E a estes exemplos poderia somar bastantes mais.

E como é que surge a colaboração entre o teu projecto, Naja Orchestra, e Colleen?

…e esta questão funde-se um pouco com a anterior… Acho que tudo se resume ao facto de ela acreditar que vale a pena vir. E além disso, para um músico acústico [violoncelo] jogar com a Naja Orchestra pode ser um jogo muito divertido. Se o Stephan Mathieu [piano] adorou o ano passado, porque é que ela não ia querer? (risos) Como já disse, o nosso trabalho é muito apreciado lá fora. O que ainda não disse, mas acredito profundamente, é que os portugueses são o povo que pior se trata a si próprio. Somos os piores juízes de nós próprios.

Mas que podemos nós esperar quando os próprios políticos se deslocam ao estrangeiro em comitiva dispostos a vergar a mola e a lamberem o rabo aos jogadores de futebol? Os piores exemplos de comportamento público em Portugal…

Mas o EME não se limita à música, estendendo-se a todas as artes visuais digitais. O que vamos poder encontrar na edição deste ano?

Colaborações diversas em que nem eu próprio conheço os contornos de tudo o que vai acontecer. Ainda assim, temos como certo a criação de duas peças (instalações vídeo-som) propositadamente para o festival, por parte do Paulo Mendes e do Edgar Santinhos, dois criadores plásticos de duas gerações diferentes. Uma performance fantástica do António Jorge Gonçalves, em que ele desenha e projecta em tempo real sobre as paredes, o público e todo o espaço da Igreja. Vamos ter também uma peça tridimensional (escultura) muito interessante, do Hugo Garcia Louro, e ainda a globalidade dos concertos que se fazem acompanhar de projecção de imagem. Num outro plano, mais próximo da sensibilização e criação de novos públicos, temos um “Encontro com o Criador” António Jorge Gonçalves, na Escola Secundária de Palmela. De uma forma simplificada diria que se trata de uma apresentação e discussão pública do seu trabalho, agrupando e dinamizando alunos e professores das áreas das artes e do multimédia.
 
Nos últimos anos, os EME têm-se dividido entre Palmela e Setúbal. Este ano, limita-se apenas a Palmela. Porquê?

A verdade? A Câmara Municipal de Setúbal não aprecia o género e portanto não apoiou. As opções vão mais para os fenómenos de massas. Só é lamentável que Setúbal em vez de ser a única má excepção de negação à existência e afirmação da criação independente, seja apenas mais um caso, como Lisboa e tantas outras cidades espalhadas por esse país for. E mais não digo porque não é produtivo para o festival.

E como tem sido a repercussão do festival perante o público ao longo destes cinco/seis anos?

Dada a limitada capacidade de se impor nos meios de comunicação devido à inexistência de um orçamento para comunicação, a verdade é que tem sido um sucesso em termos de adesão e, não menos importante, de satisfação dos criadores no final do festival. Esta satisfação, a curto, médio e longo prazo, repercute-se positivamente quando os artistas no estrangeiro falam entre si, evocando o bom ambiente entre o público, a exuberância do local, a simpatia da equipa… e o som, naturalmente.

Ao longo de todas as edições e acontecimentos realizados entre 2000 e 2005, apresentaram trabalho cerca de 57 criadores para um total de 33 concertos, 2 workshops de “criação musical” orientados por Nuno Rebelo (2000) e Gregg Moore (2001), 14 instalações media (2003, 2004, 2005) e 2 Encontros com Criadores – Catarina Campino e Patricia Gouveia (2005) –, estimando-se que tenham assistido à totalidade dos concertos, performances e instalações, cerca de 2.200 espectadores. Em 2005, a rubrica Encontros com Criadores, realizada no âmbito escolar em colaboração com a Escola Secundária de Bocage teve uma participação estimada em 150 jovens estudantes de artes e cerca de uma dezena de professores de diversas áreas.
 
Para além de músico e de todos os concertos que dá pelo Mundo fora, o Vítor Joaquim colabora ainda com vários nomes ligados às artes digitais, para além de ainda ser professor e coordenador na Restart. Como é que ainda arranja tempo e disposição para organizar os EME?

Acho que em pequeno devo ter caído num caldeirão de poção mágica e também porque prefiro sempre usar baterias de longa duração. Só é pena serem tão caras!

… a verdade? Sou metade espanhol.
Mesmo com os preços a serem bastante acessíveis (muito mais do que se seria de supor), a Rua de Baixo em parceria com os EME – Encontros de Música Experimental, têm para oferecer quatro entradas individuais, uma para cada dia de festival. Para tal, só têm que enviar um mail para rdb@ruadebaixo.com com os vossos dados pessoais (nome, BI e o dia do festival que pretendem ver) e responder correctamente às seguintes questões (os vencedores ficam ainda habilitados a um CD dos artistas em cartaz):

1) Que edição dos EME contou com a presença no cartaz do austríaco Pure?
2) Como se chama o mais recente álbum de Colleen?



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