Éme

Éme

"Não gosto de fazer, por norma, canções que valham só pelo conteúdo. A estética também é muito importante"

Éme é o alter-ego de João Marcelo, o jovem lisboeta que decidiu avançar em 2011 no lançamento de um EP – “Passa-se alguma coisa estranha aqui”.

Ao fim de um ano, depois de lançar outro EP, Éme aventurou-se num disco de longa-duração e editou “Gancia”, sempre pela sua fiel editora Cafetra Records. Recebido entre rasgados elogios, “Gancia” é marcado pelo auto-retrato do próprio dando a conhecer alguns dos seus receios e expectativas.

Como não há mal em ser foleiro, Éme segue a máxima de fazer as coisas com gosto, mesmo que isso não seja visível. Como a RDB também se distingue pela liberdade criativa e expressiva, nada melhor do que Éme a representar o seu universo peculiar no próximo dia 23 de Novembro, às 21 horas, na Baixa-Chiado PT Bluestation para um concerto exclusivo. A entrada é gratuita.

Tal como diz a canção «35-98», ou eu estou mal / ou isto está mal / e isto está prestes a ficar pior, assim se trata esta entrevista.

Esclarece uma dúvida: levas isto da música a sério ou é apenas para passar o tempo. Isto porque, se por um lado, eu acho que é a segunda opção, ao mesmo tempo (depois de ouvir algumas canções) acredito até na primeira hipótese…

Levo a sério. Acho que é óbvio quando se ouvem as canções que fazemos (na Cafetra, de uma forma geral) se percebe que as fazemos com algum sentido de humor, isso não invalida o facto de levarmos isto a sério. As coisas que fazemos dão muito trabalho e, no ponto em que estamos, já não é só uma forma de passar o tempo. Nós editamos muita música de forma bastante regular e toda a música que editamos é música de que gostamos e isso são tudo coisas que implicam mais empenho do que o empenho que requer um passatempo.

Na tua opinião, por que é que a malta está quase sempre a “falar mal” da Cafetra?

Nunca pensei nas coisas assim. Há pessoas que falam bastante bem, pessoas que falam bem, pessoas que falam mal e pessoas que falam bastante mal. Em todos estes casos há pessoas que ouviram e pessoas que não ouviram. Não sei como se pode falar de forma homogénea de um grupo tão diverso como é o caso do nosso. Ainda assim, as pessoas que falam, falam provavelmente porque acham que têm alguma coisa a dizer e isso é tão legítimo quanto bom, para nós.

Como te tem corrido o ano em termos de concertos e divulgação? Que surpresas tiveste?

O ano tem corrido bem. O disco de Passos em Volta saiu em Novembro de 2011 e a partir daí fomos tendo sorte, temos sido empenhados e temos conhecido amigos que nos ajudam a fazer as coisas melhor. A Fetra, entretanto, lançou bastantes mais discos e demos muitos concertos. A surpresa é tudo. É muito bom haver pessoas a comprar bilhetes para nos ver, a acompanhar as coisas que fazemos e, sobretudo, a ouvir as coisas que lançamos. São tudo coisas que não aconteciam tão regularmente antes. Continuamos a fazer tudo como queremos e gostamos (desde a organização até à produção efectiva de música) e continuamos a gostar de fazer as coisas que fazemos. É muito fixe ver como toda a gente está a progredir tanto.

E qual o melhor local onde já deste um concerto?

É difícil dizer qual foi o melhor sítio onde toquei. Foi brutal abrir para o R. Stevie Moore no Musicbox em Novembro do ano passado com Os Passos em Volta. O lançamento do meu álbum na ZDB foi muito fixe. A noite da Barraca foi incrível (vai-se repetir no dia 3 de Novembro) e de resto, é sempre bom quando pessoal toca no Barreiro.

Para quem ainda não conhece o teu mais recente trabalho, desvenda um pouco dos segredos de “Gancia”: como foi o processo de composição, o porquê da escolha do nome e que tipo de mensagem pretende transmitir.

Acho que o disco não tem grandes segredos. É um disco que se ouve bem e os arranjos são bastante simples. Compor é sempre um bocado natural quando uma pessoa se senta diariamente a tocar e desta forma as coisas vão-se juntando e acabam por se transformar em canções.

Não há realmente um processo premeditado para compor, gosto de tocar em casa e gosto de compor, a partir daí não há nenhum impedimento para o fazer.

O título é uma expressão que eu e os amigos utilizamos para definir um determinado tipo de pessoas no qual me incluo. É um adjectivo que inventámos. Achei que fazia sentido o primeiro disco ter um título que, sendo virado para o meu grupo, mas que ao mesmo tempo me define, deixe as pessoas a imaginar aquilo que quiserem.

Não tenho uma mensagem para transmitir. Não faço isto só para simplificar as vias da comunicação de mim para os outros pois gosto de acreditar que as pessoas tiram das canções (quaisquer que sejam, não só minhas) as mensagens que precisam para elas. Ter uma mensagem específica com uma agenda pré-estabelecida e sem abertura a apropriações externas, desajuda, pelo que me tenho apercebido, a apreensão dessa mesma mensagem porque o vocabulário de uma canção não é linear. Não gosto de fazer, por norma, canções que valham só pelo conteúdo. A estética também é muito importante.



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