“Encontro de amor num país em guerra” | Luís Sepúlveda

“Encontro de amor num país em guerra” | Luís Sepúlveda

Exílio revisitado

Composto de um misto de inéditos e textos mais inacessíveis do chileno Luis Sepúlveda, as narrativas breves que compõem “Encontro de amor num país em guerra” (Porto Editora, 2013) reasseguram a contínua publicação da obra do autor em Portugal. O texto da contracapa anuncia, por isso, o fecho de um ciclo anterior a uma das obras de língua espanhola mais traduzidas de sempre: “O Velho que Lia Romances de Amor” (1992).

O percurso extra-literário de Sepúlveda preenche um extenso currículo, tão extenso que se pode dizer que é um indivíduo com qualificações a mais. Da vida do autor destaca-se a participação na política cultural do período Allende que lhe valeu uma encarceração, pouco depois do coup de Pinochet. Alie-se isto ao recorrente activismo um pouco por todo o mundo e, em teoria, não devia estar tão focado na escrita. Não que por vezes esteja isento de ser menos competente mas, numa espécie de twist socrático, nesses momentos é mais competente que aqueles que não são.

Assim sendo, enriquece os seus textos dando uma dimensão muito própria ao deambular sobre espaços comuns da imagética sul-americana: os exércitos revolucionários; colectivos contra-revolucionários; o espaço urbano de antigamente, onde a felicidade persistia antes da chegada de um regime repressivo e autoritário; a América do Sul descolonizada, exuberante, unida (quase toda) pela língua – quem sabe o único bem irrevogável que as metrópoles ibéricas introduziram no território. Fica, de igual modo implícito, que a força motriz da obra são as viagens de Sepúlveda, bem como a cumplicidade com a pátria que ganha mediante a distância e nostalgia. A viagem é, por isso, a ponta que une a voz literária do autor, seja evocando o estilo de Jorge Luis Borges ou o de Cortázar, seja admirando Friedrich Hölderlin e a língua alemã que aprendeu enquanto recluso.

O conterrâneo Roberto Bolaño tentara em vida desmistificar toda a literatura sul-americana produzida em “exílio”. O autor de “2666”, que tanta aversão tinha aos convencionalismos literários (frustrou-se com o sucesso do “realismo mágico”, por exemplo) afirmou que as pedras basilares da literatura chilena eram assinadas por forasteiros. Daí que forçar uma sedentarização a Sepúlveda seria arruinar todo o isco da sua prosa, uma escrita que leva as suas raízes até ao próximo destino – tal como os seus antecessores.



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