Enprincipio #4 – Ilustração de Sónia Rodrigues

Enprincipio #4

Opinião amiga

Eu tenho o privilégio de trabalhar no principal cruzamento da cidade. Entre a Baixa e o Chiado são de todos os géneros aqueles que se cruzam comigo. Desde amigos perdidos a comerciantes que fui conhecendo durante o ano do fim do mundo. Exemplos e exemplos de pessoas que se remodelam para aceitar os novos tempos. Pessoas que me fazem acreditar que, se eles são capazes, até eu o posso ser. Neste cruzamento até encontro artistas que ainda me dão vontade de voltar a ser um deles.

Hoje quero falar de uma amiga, daquelas que me conhece há tanto tempo, que já nem precisamos de falar em Português. A Manuela já foi muitas coisas, desde que a conheço, mas esteve sempre ligada ao verbo comunicar. Faz comunicação, pensa comunicação e sugere comunicação. Por me conhecer, por saber muito do que faz, por gostar de boas histórias, não resisti a perguntar-lhe opinião sobre o que tenho andado a escrever.

A Manuela é de um signo demasiado simpático para me dizer logo e directamente o que acha, seja qual for o assunto que lhe pergunte. Naturalmente desculpou-se com a falta de tempo livre para ler (será que ainda alguém o tem?) e dissertou sobre a vontade de ler os meus textos quando tivesse tempo. Mas eu também não tenho tempo e assim não resisti e fui directo ao assunto que me interessava: Diz lá o que achaste.

Acho que tens de ser mais conciso.

Parei um tempo, agradeci e despedimo-nos como os bons amigos fazem, a prometer um encontro num futuro breve. Sempre fui de tendência de pensar alto e de apontar para o céu. Talvez o nascimento sob o signo do dragão me tenha dado uma espécie de discurso verbal combustível para heróis e uma síntese literária demasiado para o exagerado (insiro aqui um piscar de olhos aos que me conhecem). Por isso admito: só me interessa a missão do elevado, o processo único e isso, por enquanto, custa-me, pelos vistos, demasiadas palavras.

Mas não se preocupem, não fiquei chateado com a Manuela. A Manuela fez-me um favor que nem os grandes filósofos que insisto em descobrir me poderiam ter dito melhor. Ninguém tem tempo para ler coisas complicadas. Ninguém tem tempo para ouvir, ver, cheirar ou sentir coisas complicadas. Habituámo-nos a que a alimentação dos nossos sentidos seja pré-cozinhada por chefs intelectuais, opinadores e fazedores de opinião. Microondas e plim! estamos opinados.

Aparentemente deixou de haver tempo para livros ou discos que nos obriguem a parar para os conseguirmos ler ou ouvir. Sobra tão pouco tempo que apenas nos interessam os resumos e as playlists das rádios e dos sites com vontade de serem rádios. Queremos distracção. Queremos evitar pensar em coisas complicadas. Mas apenas parece assim: É importante dizer já que a minha amiga Manuela ia a caminho de um filme na Cinemateca, no local do nosso encontro estava a meio a montagem de um concerto para a apresentação de um disco, e eu, apesar da falta de tempo, ando a ler livros como nunca.

Quero sobretudo resumir que as ideias não são passíveis de ser resumidas, desculpem a concisão. Porque o mundo em que vivemos nos transmite tanto e em todo o lado que alguns de nós têm a obrigação de o registar. A fotografá-lo, a interpretá-lo, a musicá-lo, a escrevê-lo. Temos de registar o que sentimos hoje, tenha que tamanho tiver.

Não quero resumir nada, nem desejo aos que outros o façam. É importante que, apesar dos motores de busca para a quantidade maciça de resumos que existem, ainda exista espaço não resumido para aqueles que querem e desejam reflectir em mais do que 500 caracteres num documento Word. Trabalhemos para os que têm tempo para resumir, eles próprios, o que outros registaram da humanidade que insistem em observar.

Obrigado Manuela.

Considera esta a minha resposta concisa à tua opinião amiga.

Crónicas anteriores: #0 – Os fins do princípio // #1 – No princípio era o número // #2 – Intervalo dos heróis // #3 – O Prémio da Crítica

Texto de Pedro Saavedra
Ilustração de Sónia Rodrigues



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