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Enprincipio #2

Intervalo dos heróis

Estamos no intervalo do filme.

Os intervalos são a minha parte preferida dos filmes. Apesar de, assim que começam, me darem logo vontade que acabem, tal é o meu vício em conhecer o resto da história, passados alguns segundos agradeço a lembrança de que toda aquela história é apenas ficção. Este espectacular pacto de ilusão que fazemos com a história, com as personagens e com o guião, esquecendo que aquelas mortes, aqueles acidentes e acasos são apenas expressões trágicas de actores a representar algo que não é real, é alimento para a mais saudável das distracções. Mas por melhor que tenha sido o filme até aqui, agradeço-lhe um intervalo. E este filme precisa de um intervalo agora.

Vamos lá fora? Queres vir comigo? Saímos da sala e, enquanto temos uma conversa de fumar cigarros, acabaremos a dissertar sobre o princípio, o meio e o fim deste filme.

Nasce aqui um convite à participação de uma segunda personagem no intervalo deste filme. Quem não gostar de imaginar conversas com segundas personagens, a falarem sobre filmes, é favor seguir para a último parágrafo.

Eu começo por contextualizar: Entrámos na sala de cinema, juntos, e sentámo-nos. Gostamos de heróis. Imaginamo-los com grandes princípios. Sempre quisemos ser um, daqueles que vivem nos livros de história de arte. Montados a cavalo a caminho de um qualquer dragão em caverna deitado. Esperamos muito deste filme, esperamos que o herói consiga chegar ao fim sem se perder pelos caminhos daquela floresta imaginária. Que encontre o que procura e que, na inevitabilidade de algo melhor, se sacrifique pela nossa felicidade, não achas?

Resposta instintiva: Acho, mas tu insistes que para um herói existir precisa de um princípio, precisa de dar um passo para começar a sua jornada a caminho de um dragão, e que nem sempre achas que o herói tem a coragem para nos surpreender. Percebo a tua ideia mas insisto, para haver um herói tem de haver primeiro um dragão.

Insisto em explicar-te os objectivos: O herói representa a condição humana, nisso ele é igual a mim e a ti (explicação que damos sempre que alguém nos pergunta o quê e para quê). Apesar de complexamente humano como todos os outros seres humanos, o herói transcende a sua condição através de virtudes que o ser humano comum, apesar de raramente as conseguir ter, também gostaria de transcender.

Pareces concluír depois de uma pequena pausa: O Herói tem de superar de forma excepcional um problema, ou dragão se preferires, como aqueles que todos evitamos mas sabemos um dia ter de enfrentar. O herói vive essa superação através de vários episódios que criam uma viagem épica entre um acaso que encontra e o caminho que depois faz até à resolução do problema. Logo, os teus heróis não superam nada, apenas reagem a um acaso furtuito do destino e têm sorte em apanharem o dragão desprevenido…

No foyer está a passar uma música de outro filme:

Just like a knight in shining armor,
from a long time ago.
Just in time I will save the day,
take you to my castle far away.

O intervalo acaba. Decidimos não voltar à sala depois da nossa conversa. O filme já não nos interessa, a conversa foi muito melhor. Em casa, e ao abrirmos a porta do nosso quarto, percebemos finalmente o filme que deixámos a meio. Ficou muito claro, seja qual for o filme do dia, que todas as noites sempre que nos deitamos os dois na cama, depois de sobrevivermos a outro dragão, somos os dois heróis.

Como ela costuma dizer: é a minha hora favorita do dia.

O abraço acontece. O resto, imaginem.

 

Texto de Pedro Saavedra.
Ilustração de Sónia Rodrigues



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