Enprincipio #8 – Ilustração de Nuno Ribeiro

ENPRINCIPIO #8

Filho do pai

Todos nós somos filhos do pai. Apesar da expressão filho da mãe ser mais comum nos tempos que correm, hoje quero falar do filho de um pai. Este filho tem um pai que procura na sua educação, ser o melhor pai possível, com ajuda da mãe lá vai conseguindo.

Este pai quer descobrir forma de falar com o seu filho do outro Pai, o da letra maiúscula, retirando-lhe a vénia, explicando-lhe que a origem do mundo não é só a do filme pornográfico das células. Mas não quer obrigar o seu filho a assinar já um contrato de seguro de vida ainda antes da criança saber ler ou sequer escrever. Sim eu aceito o reino dos céus, lá escreveria ele na sua letra miudinha, se pudesse.

Falo do baptismo. Centenas de anos de rituais de inserção obrigatória no grupo afastaram o baptismo da sua forma religiosa de aproximar as ovelhas anónimas de um rebanho mais amplo e colocaram a ênfase na seguradora que pode ser a igreja apostólica romana. Imaginado o segurança da Verisure na porta dos céus, é baptizado? Sim, pode passar.

Já não se baptiza para assimilar o indíviduo com o grupo, mas para poder aproximar instantânemanete o grupo do indivíduo. É como que um seguro de vida, em que apesar de não ser suposto precisarmos dele, mais vale prevenir que remediar. Também mal não faz, porque não fazê-lo, pensam à centena de anos pais e mães.

No meu caso, que sou baptizado, sempre que recebo a carta do seguro de vida reflito sobre a junção destas duas palavras: seguro e vida. Nada na vida é seguro e não é nada seguro viver, mas os senhores (nunca os imagino senhoras, já agora) das seguradoras pensaram bem em criar-nos essa preocupação. E se algo lhe acontecer, não é que o deseje, mas nunca se sabe, o seguro morreu de velho, é melhor prevenir que remediar. Parece que a poesia proverbial nos aponta o caminho, o homem não é eterno mas lá que acha que vai durar para sempre, acha.

Agradeço aos senhores das seguradoras com dois seguros de vida. Ao primeiro por obrigação de contrato imobiliário, ao segundo gostei tanto da resposta que o aceitei de imediato: Pode ter os seguros de vida que quiser. Senti-me tão imortal e seguro que saí da seguradora a sorrir com uma sensação de dupla segurança.

Não ambiciono a eternidade, mas como de senhores cheguei ao Senhor não sei. Algo nisto faz sentido, vejam, tenho um amigo que é pai e se diz ateu. Começar com pai e ateu na mesma frase é já de si herege, mas continuo. Este meu amigo quer ser coerente mas sobretudo só quer que o seu filho de forma livre e afirmativa se transforme num cidadão consciente e respeitador das diferenças entre ele e os outros, por isso comprou o livro onde os pais que querem ser coerentes, mas não religiosos, possam descobrir forma de não transformar os filhos só em filhos da mãe, mas também em filhos do pai.

Pai, perdoa-lhes que eles sabem o que fazem.

É o que ele gostaria de ouvir um dia o seu filho dizer, e para isso tanto faz que ele cresça cristão, muçulmano ou ateu. Ámen.

Crónicas anteriores aqui.

Texto de Pedro Saavedra
Ilustração de Nuno Ribeiro

 



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