Enprincipio 7 – Ilustração de Sónia Rodrigues

ENPRINCIPIO #7

O episódio do Seinfeld

Todos se lembram. Uma extraordinária história sobre nada, em que quatro amigos vivem numa grande cidade em que tudo parece possível, mas em que nada se conclui. Uma história sobre nada que fala de tudo o que se faz para que a vida seja interessante dia após dia. Não há heróis nesta história, apenas vilões de capa e espada nos locais mais inusitados.

Hoje vivi o meu episódio de história sobre nada, título: Na Direcção Geral de Finanças da Alameda dos Oceanos. Basta a primeira frase para entender toda a força deste episódio com personagens muito bem definidas dentro da força épica da diáspora dos descobrimentos portugueses. Eu, o dinheiro e o oceano juntos em 30 minutos de acção sobre nada.

O episódio começa comigo a viajar num comboio suburbano, a versão lisboeta do metro nova-iorquino, a caminho do Parque das Nações, a versão portuguesa de Manhattan. Nada de especial nesse comboio para além de passageiros e a habitual miúda gira, que insiste sempre em nunca olhar para nós. Chegado ao Oriente, apeado do comboio, dirijo-me para a Alameda dos Oceanos com a expectativa de ter sido chamado a testemunhar num processo de contra-ordenação fiscal. Nem posso esperar por entrar.

Entrando na entrada, subindo para cima e chamado pelo nome, adoro a capacidade que a língua portuguesa tem para adjectivar verbos, fui dirigido para a sala de espera… instagram para a posteridade, percepção de similiriedade seinfeldiana e a chegada da Catarina; peço desculpa pelo abuso, mas ela acabou de se apresentar: Prazer, Catarina.

A Catarina é a inspectora encarregue deste processo de execução fiscal contra uma Companhia de Teatro na qual fui colaborador e que pelos vistos deve dinheiro a tudo e todos. Levado para uma sala de interrogatório, apesar de na porta o verbo escrito ser o inquirir, tem tudo para ser de interrogatório. Sento-me e começam as perguntas.

Inspectora Catarina: Declara não ter laços de parentescos com fulano tal, nem ter quotas da referida empresa, nem necessitar de advogado presente nas declarações que vai prestar… um documento de identificação sff. Retiro o meu BI, daqueles clássicos quase a caducar e entrego-o. Aqui a Inspectora Catarina surpreende todos na plateia imaginária que levo comigo para todo o lado…

A Inspectora Catarina que até aqui parecia uma personagem menor, daquelas que se aproximam mais de um figurante do que de uma verdadeira personagem, revela-se com humor. Ainda não tem cartão de cidadão? Não, ainda não experimentei as maravilhas do simplex do Sócrates. A minha referência ao ex-primeiro ministro recentemente reaparecido nas televisões, entusiasmou a Catarina, que instantâneamente parou de ser a Inspectora Catarina e agora era só Catarina. Esse era um menino comparado com estes que lá estão agora… lá que o homem tem pinta, tem… ele até tentou fazer umas coisas boas…

A conversa sobre o Sócrates e o actual governo não me espantou. Há meses que não oiço alguém falar bem dos tipos do governo actual, e o nosso ex-primeiro ministro sempre teve um toque especial com as mulheres portuguesas, que nele vêm mais o homem do que o político. E no caso da Catarina a admiração era evidente. Mas falar do Sócrates, numa sala de inquirições da Direcção Geral de Finanças deixou-me a pensar que o estado de facto não tem nada a ver com o governo. Esta frase poderia ser dita enquanto o Kramer batia com a porta, e… aplausos!

A Catarina continuou com as perguntas e eu com as respostas. Só trocámos uma vez quando eu lhe perguntei se esperava mesmo que a Companhia de Teatro fosse saldar a dívida. Nisso a Catarina só respondeu, sabe o Fisco anda muito agressivo, mas é pena, eu fui lá muitas vezes e gosto muito dos espectáculos que fazem. Gosta de teatro portanto? Sim, muito.

Afinal a Inspectora Catarina era também a Espectadora Catarina, assídua espectadora de peças de teatro, provavelmente também leitora de romances e visitante de museus nacionais. Mas o tempo de inquirição tinha chegado ao fim e quando já no loby de entrada se despediu de mim, a Catarina já não era a Espectadora Catarina, mas novamente a Catarina Inspectora. Voltou, assim, tudo ao início como é normal num episódio de uma série.

 

Eu não disse que era uma história sobre nada.

 

Crónicas anteriores aqui.

Texto de Pedro Saavedra
Ilustração de Sónia Rodrigues



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