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Lucie Whitehouse | Entrevista

"A amizade e o amor são temas fascinantes, principalmente por a si estar associada uma noção de intimidade. Além disso, são algumas das melhores – senão mesmo as mais enriquecedoras – experiências humanas"

Lucie Whitehouse nasceu em Gloucestershire, Inglaterra, em 1975. Com formação em Literatura Clássica, a escritora reside hoje nos Estados Unidos da América e editou recentemente a sua primeira obra em português, sob a chancela da Bertrand. O livro chama-se Antes de te Conhecer (ver crítica) e tem conquistado os fãs de thriller sendo mesmo comparado a A Rapariga do Comboio, o sucesso internacional da também britânica Paula Hawkins. O Rua de Baixo esteve à conversa com Lucie Whitehouse sobre o seu processo de escrita, o que e quem mais a inspira e sobre as relações humanas, esse universo tão peculiar.

Antes de te Conhecer foi o seu primeiro livro com edição portuguesa mas logo às primeiras páginas ficamos com a ideia de que essa relação já é longa, que a sua narrativa é uma “velha conhecida”. Como trabalha a proximidade entre aquilo que escreve e quem o lê?

Primeiro, quero expressar a minha felicidade por finalmente ter um livro publicado em Portugal, e como Antes de te Conheceré a minha terceira obra podemos dizer que à terceira foi de vez. Em relação ao livro em si, e a todos os que escrevo, tento trabalhar essa proximidade através de uma narrativa convincente, com um início emocionante para cativar e criar empatia com o leitor desde as primeiras páginas. Ainda assim, começar um livro é sempre desafiante para o autor, é como fazer um convite para uma festa quando o convidado não conhece mais ninguém. Ao conseguir-se quebrar o gelo logo do início, a empatia entre autor, livro e leitor fica mais próxima e a chave para isso pode ser a criação de personagens honestos, humanos, com os quais as pessoas se identifiquem.

A amizade e o amor são temas fascinantes principalmente por a si estar associada uma noção de intimidade

Como idealiza o enredo dos seus livros? Segue alguma metodologia?

Curiosamente, foi com Antes de te Conhecer que mudei o meu processo de escrita. Nos meus primeiros dois romances, a trama ia surgindo à medida que pensava num personagem ou num local. Não predestinava o todo e pensava os livros como uma peça em constante construção e exploração. Como este livro tem tantas mudanças e reviravoltas, principalmente com a protagonista, optei por fazer e seguir um guião para não perder coerência ou deixar pontas soltas. Queria um enredo o mais interessante possível e penso que tenha conseguido a melhor estratégia para o escrever. Dificilmente voltarei a escrever sem um plano devidamente delineado…

Tem dividido a sua obra entre dois temas que privilegiam as relações humanas: a amizade e o amor. Em Antes de te Conhecer, foca-se num amor inesperado, que se assume como uma espécie de salvação, de última oportunidade, para Hannah, uma mulher amargurada. O que a leva a escrever sobre estes sentimentos?

A amizade e o amor são temas fascinantes principalmente por a si estar associada uma noção de intimidade. Além disso, são algumas das melhores – senão mesmo as mais enriquecedoras – experiências humanas, o que não quer dizer que não lhes sejam associadas outras emoções menos positivas como a competição, o ressentimento, o medo ou o ciúme. A propósito desta minha “obsessão”, a minha irmã costuma dizer que sou uma romântica incurável mas irremediavelmente atraída do seu lado mais obscuro. Talvez seja essa a razão que me leva a tornar os meus livros mais intensos.

Centremo-nos agora em Hannah, a protagonista… Não resisto em perguntar se se inspirou em alguém para criar essa personagem.

Não pensei em ninguém em particular para construir a Hannah mas reconheço nela algumas características minhas. Noto que, na minha geração, muitas mulheres têm tido muitos problemas no que toca a manter relacionamentos sérios e, no meu grupo de amigos mais chegados, a sensação é que, na generalidade, são raros os casos de casais que conseguem ter uma vida profissional estável e um relacionamento familiar duradouro. Esse equilíbrio é quase uma miragem e, pela pressão que isso origina, algo fica pelo caminho, seja a carreira ou a relação.  É nesse turbilhão que Hannah é apanhada, para mais depois do divórcio dos seus pais ter deixado a sua mãe muito abalada. É complicado quando a vida nos castiga.

Nunca “transportou” uma pessoa real para um dos seus livros? A realidade pode ser uma boa fonte de inspiração para a ficção?

Até hoje nunca “usei” uma pessoa real nos meus livros mas, tal como muitos escritores, sigo com interesse redobrado a natureza e comportamentos humanos, como se comportam as pessoas perante determinadas situações. Muito do meu tempo é passado nessa observação, numa tentativa de compreender o outro e as suas reacções, e dessa análise resultam algumas inspirações para os meus personagens ficcionados. De resto, a única pessoa real que, de facto, me deixa confortável para ser uma fonte de inspiração sou eu mesma, porque conheço realmente os meus pensamentos e sentimentos, garantindo assim uma fiabilidade emocional que nunca conseguiria ao tentar passar emoções alheias e logo dificilmente genuínas. E, confesso, que iria detestar que alguém se reconhecesse num dos meus livros.

É absolutamente aterrador descobrir que afinal a pessoa que amamos é um monstro

Este livro apresenta cenas e capítulos onde a dor coloca mesmo em questão pessoas, relacionamentos e o real conceito de veracidade. A tensão presente nessas cenas tornou particularmente complicado escrever algumas passagens?

Confesso que sim. As mais complicadas foram aquelas em que tive de revelar maiores detalhes do crime exposto sensivelmente a meio do livro. Escrever sobre violência, especialmente quando se trata de cenas de cariz sexual, torna tudo mais doloroso. Enquanto me debatia com essas linhas, pensava em quem já passou por cenas semelhantes e absorvi essa dor, esse desespero. É absolutamente aterrador descobrir que afinal a pessoa que amamos é um monstro. Conseguir manter alguma racionalidade ao escrever essas passagens foi um verdadeiro desafio.

Muitos críticos, e até leitores, têm recomendado Antes de te Conhecer, aos amantes de A Rapariga do Comboio, o sucesso internacional de Paula Hawkins. Considera isso como um elogio ao seu trabalho?

É com grande satisfação que oiço esse tipo de comentários. É um orgulho ser comparada com um livro que apaixonou tanta gente. Só espero que quem leia o meu livro o posso recomendar com tanto carinho.

Outras vozes têm descrito Antes de te Conhecer como um” thriller matrimonial”, um género, podemos dizer, crescente. O que leva a que cada vez mais leitores procurem estes temas?

É uma verdade que nos últimos anos a temática do casamento tem sido mais explorada mas não apenas no que toca athrillers pois a literatura de ficção, numa visão mais ampla, tem seguido esse caminho. Um exemplo disso é Destinos e Fúrias, de Lauren Groff. No universo dos thrillers, Em Parte Incerta, de Gillian Flynn, e Broken Harbour, de Tana French, são títulos muito interessantes. Tal como estas autoras, estou na casa dos quarenta anos, casada e com filhos pequenos. Essa experiência de vida pode ser uma fonte de inspiração, não sei… O certo é que o tema casamento, e as mudanças que ocorrem ao longo do tempo, alteram as vidas de todos os envolvidos, e as mulheres, em particular, sentem que o matrimónio deixou de ser o tal porto seguro que muitas perspetivam no início.

E já que estamos a falar de outros autores, quais são os nomes que mais a inspiram e influenciam o seu trabalho? 

Provavelmente, as minhas maiores influências são Graham Greene e Daphne du Maurier. Greene, por exemplo, tem o condão de combinar uma escrita brilhante e perspicaz com uma narrativa assertiva e competente. Já no caso de Daphne du Maurier, adoro as suas atmosferas e a capacidade que tem de envolver o leitor. Entre os autores contemporâneos que escrevem policiais e thrillers, sou fã de Tana French, Joe Nesbo e Denise Mina. Num plano mais “literário”, siga as obras de Hilary Mantel, Ann Patchett e Dana Spiotta. Paralelamente, tenho lido cada vez mais livros de não-ficção.

O que podem os seus fãs e leitores portugueses esperar de si no futuro próximo?

Pelo que sei, a Bertrand já adquiriu os direitos de Keep You Close e a sua edição estará para breve, ainda que não possa adiantar quando. O que posso revelar e que se trata de um thriller psicológico. Desta vez, a protagonista regressa a Oxford, a sua cidade natal, para investigar a morte de Marianne, alguém que em tempos foi a sua melhor amiga mas com quem não falava há uma década…



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