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Era aceitável…

...nos anos 80.

Vou escrever para dizer mal. Vou gastar o meu latim para explicar porque não gosto das noites x, porque não suporto o disco y e porque passo bem sem o objecto z. Enfim, porque estou do contra.

Definido este objectivo, deparei-me com um segundo problema: de quem ou do quê vou dizer mal?

Dizer mal é muito mais difícil do que dizer bem. Escrever a favor de alguma coisa é mais ou menos como aproveitar a corrente do rio e deixarmo-nos levar até ao mar. “Isso é subjectivo”, ouço gritar desse lado. É, claro que é. É tão subjectivo quanto dizer ou escrever mal.

Quando alguém escreve um artigo positivo sobre algo, vêm logo os comentários a favor de fãs incondicionais que finalmente encontraram a voz para o seu amor até então mudo.

Quando alguém solta uma nota negativa vêm logo os mesmos comentários, dos mesmos fãs incondicionais, a gritar que não é bem assim, que aquilo é bom e que quem escreve é que é uma besta. Ora, eu preparo-me para ser a besta. Não sei é ainda que tipo de besta e contra quem me vou atirar. Atenção! Estão abertas as hostilidades.

Se bem me lembro nunca foi bom.

De que falamos quando falamos de revivalismos musicais?

Falamos de noites entediantes e repetitivas a ouvir os piores êxitos que regressam de onde nunca deveriam ter saído: o passado. É disso que falamos.

Às vezes dou comigo a perguntar: quem é que, no seu perfeito juízo, pode voltar a dançar ao som de «Touch me» da Samantha Fox? Quem de bom senso, pode cantar a uma só voz o refrão de «Maria Magdalena» da Sandra? E quem é que consegue fazer estas duas coisas sem se sentir minimamente agoniado?

Desculpem, mas eu não acredito que ainda haja gente capaz de aguentar o jantar no estômago ao som de uma versão moderna do «Polystar», «Superstar» ou «Jackpot». Temos de dizer “chega” a este reviver constante e, por vezes, doloroso.

Eu sei que não estou sozinho nesta luta, mas cada vez que me vejo de cartaz em punho, vem-me à cabeça a imagem de milhares de pessoas a apedrejar-me com cubos mágicos e gritando palavras de ordem: Walk like an Egyptian!!!, Em playback! Em playback!, Don’t worry be happy! ou Never ending Story.

É um pesadelo que me leva  a concluir que estes revivalistas gostam de se sentir permanentemente apertados entre o Rick Astley e o Boy George, entalados entre as duas mamas da Sabrina ou presos no cabelo da Cindy Lauper. E por isso mesmo não será fácil demovê-los. Sejamos práticos, basta de relembrar o pior da década de 80, basta de vira-o-disco-e-toca-o-mesmo, mudemos a agulha de sítio, por favor.

O problema dos revivalismos, em geral, é que raramente trazem o bom da cena (aqui no sentido de espaço musical e não como calão). O problema do relembrar os oitenta, em particular, é que nunca traz nada de simplesmente mau, traz o péssimo.

Em 1990, muita gente olhava para trás e não conseguia lembrar-se de nada de bom que tivesse ficado encalhado na linha do tempo das 23.59 de 31 de Dezembro de 1989. Era natural. Estavam ainda frescos na memória sons infinitamente maus e começavam a aparecer coisas boas e fresquinhas. Quem começou a gostar das cenas – aqui já é calão – dos anos 90 não sabia era o que ainda estava para vir. Pensemos, por exemplo, em fenomenos como Take That ou 4 Non blondes. Dá medo, não dá?

É curioso que este tipo de revivalismo tem sempre o mesmo género de culpados: os que viveram a época. Os oitenta não são excepção. Uau!, pensaram os pioneiros do lembrete, que fixe ouvir outra vez Milli Vanilli, Stephanie, Alphaville, T’Pau, Nik Kershaw, Spandau Ballet, Nena, Europe, Doce, Kajagooggoo, Limahl e outros assim que tal.

E assim continuaram a activar as suas memórias, dizendo: “ai que saudades de lamber uma orelha ao som de «I should have known better» de Jim Diamond” ou “gostava tanto quando as noites acabavam ao som de Kayleigh dos Marilion” ou ainda “ah! que me lembro tão bem da primeira vez ao som do «Love is a Battlefield da Pat Benatar»”. E este tipo de pensamento acabava sempre num outro: “Era tão bom que isto voltasse tudo outra vez!”

E se rápido o pensaram, pior o fizeram. Lançaram-se numa corrida desenfreada a espalhar essa novidade requentada e gritar que nunca houve melhor época musical do que os anos 80. Manifestação essa que já dura há quase uma década e que criou um grupo singular de indivíduos: pessoas que, não contentes com o facto de serem contemporâneas dos anos 80, ainda se tornaram as principais instigadoras da febre da lembrança. Agora, por causa desta gente de boa memória, é muito fácil sair à noite, tropeçar e ficar preso num túnel do tempo. E como se sai ileso de um lugar onde a banda sonora é o «Tarzan Boy» de Baltimora ou «Life is life» de Opus? Ou já estou surdo ou não ouço ecos animadores como resposta e é pena.

E isso leva-me a deixar um conselho a este grupo que ficou parado no tempo: fiquem atentos ao presente. Quer-me parecer que daqui a 10 anos, o mundo vai precisar outra vez de gente como vós.



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Existem 12 comentários

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  1. Kaspar

    Só uma coisa, "Too Shy" é alto tema, tenho um maxi com o instrumental e não encaixa muito no conjunto de más ideias que enuncias – alta produção, som impecável e synths quentes, etc.

    Mas de resto concordo. Quando comecei a por música o pessoal pedia "anos 60" agora é "anos 80". Tudo normal porque tendêncialmente as pessoas que não perdem muito tempo a consumir música estão sempre agarradas a um momento em relação ao qual compreenderam e aceitaram o que era normativo… em contraste com o presente, sobre o qual não têm qualquer compreensão.

    O revivalismo começou há uns anos com o electroclash (vade retro), foi uma óptima maneira de assumir esqueletos no armário por parte dos trintões da altura. Por momentos pareceu-me que o pessoal perdeu a compustura e passou-se. Como se o Eye of The Tiger em algum dia não tivesse sido FOLEIRO!

  2. Nelson Mesquita Gomes

    Kaspar,
    começando pelo fim. Hoje já há festas com Corona, Ace of Base, 2unlimited e por aí fora. Não faltará muito para os Noventa serem os novos Oitenta.

    Quanto aos exemplos, o que me interessava aqui era o todo. Era dar a dimensão do quanto é redutor nos prendermos a uma época e não sairmos dali. Andar em círculo, andam os cães atrás do rabo. :)
    Eu também tenho temas desta faceta musical dos 80 de que gosto e muito. E tenho muitos "guilty pleasures" que me sabe bem pôr a tocar. Felizmente não fico cronologicamente encalhado. :)
    Acho bom que se complemente este artigo com exemplos melhores do pior que por lá passou e que a memória traz de volta. :)

    E quanto ao Electroclash, Kaspar, há-de chegar a vez "dele" regressar.

    abraço

  3. David Carvalho

    Olá,

    Eu acho que existe aqui uma duração temporal que não foi referida, não se esqueçam que para ser "cool" é preciso utilizar a "palavra cliché" Vintage.

    Ou seja de 20 em 20 anos acontece algo mágico e nostálgico. Os 80's foram os primeiros destas últimas gerações que não saborearam os 60's nem os 70's mas que tiveram de os achar cools à força devido às gerações antigas e caso ainda não tenham percebido os 90's já são Vintage ou seja começam a ser cools…

    Pode parecer impossível pode até parecer inacreditável para nós nascidos entre 1974 e 1982, mas um dia os 00's vão ser Vintage e também vão ser "cools que dói" para as novas gerações que por ai caminham…

    Por agora as novas gerações vão ter de levar com 40 anos ( Vintage x 2 ) tal como nós levamos até terem direito acharem os 00's cools.

    Quanto aos Revivalismos não funcionam comigo, isto porque se com muitos deles não vibrava na altura, não é por ter passado 20 ou 40 anos que vou começar a vibrar.

    Abraço,

  4. Soraia Simões

    5 Tópicos:
    1º: O que era aceitável era entender que é bem mais difícil "dizer constutivo" do que "dizer mal"(os fait-divers jornalisticos são a praga da actualidade).

    2º.O que teria sido aceitável seria a reconsideração de alguns dos pareceres."Fiquem atentos ao presente".Muito bem, a consideração sugestionada faz todo o sentido, mas é paradoxal.Atentos que estamos no presente, poderemos verificar que a maioria das relevantes bandas do panorama musical alternativo actual bebem as inluências de décadas anteriores(desde 40 a 80) dando-lhes,logicamente,uma roupagem diferente e embora nos levem,"aqui/ali" em viagens por décadas anteriores ,distintas em cada um deles, fazem-no sem destilar " a fórmula gasta"(isso quererá dizer algo).E são muitas:Legendary Tiger Man,Wraygun,X -Wife,d3o, Bunnyranch,Sean Riley and The Slowriders,Cats On Fire,mas também Mundo Cão,Peaches,Blood Red Shoes,Gossip,Franz Ferdinand,Micro Audio Waves,Mão morta,etc,etc.Todos eles parecem trazer uma nova anímica e a carga de que muitos de nós que cresceram incorporando etéticas e anti estéticas musicais e formas de estar menos ortodoxas ,mas se reparar, vão buscar influências diversas(têm portos de abrigo diferenciados,que vão da blues de Muddy waters,à new wave de Gun Club ou Talking Heads, ao swing,à soul,ao rock´n´roll e mod geracionais.Deixaram de ser bons,nalgum momento ou pouco originais?!)

    3ºSe os anos 80 tinham o excesso de exaltação "Kitsh",sugado até ao tutano nas bandas que menciona(e que me parecem emergentes da cena "disco sound" que a muitos ,também não sei bem pq, terá – e continua – agradado ,também tinham o perpetuar de um movimento que rebuscou uma nova forma de estar em relação às sonoridades e que renasceu do punk da década anterior(a contagiante new wave).
    Se intentar sob os agrados de qq uma ,e são tts, das bandas actuais , entre os géneros de algumas que referi, todos lhe irão apontar como referências, atitudes musicais emergentes em décadas idas,como:David Bowie;Stiv Bators;Johnny Thunders;Devo;Ramones,The Iguanas ,Stooges e Iggy Pop,Velvet Underground,The CLASH,Televison,Love,The Sonics,The Faces, The Kinks, The Who, The Action, The Jam ,Jimmy Page , The Creation,The Seeds;Dead Boys,The Waldos,Lords of the New Church;Johnny Cash,Nancy Sinatra,Chuck Berry,Jerry Lee Lewis e Muddy Waters;B-52s,Blondie,Siouxie Sioux,Siouxie and The Banshees,The 5.6.7.8's;Buzzcocks,Undertones,Sham 69,Gun Club,The Sound,Mc5,X-Ray Spex,Chelsea;Cramps,Southern Culture on the Skids;Talking Heads e David Byrne;Patti Smith,mas também:The Smiths,Dr.Feelgood ;Bjork;Jon Spencer Blues Explosion, Heavy Trash,Fuzztones, Vibrators,Alternative T.V,Gang of Four,Depeche Mode,New Order e muito mais…

    4ºHouve quem me referisse um dia em report:"Para a frente é que é o caminho"( sem ter esquecido,contudo, de reforçar o bom do que aprendeu e o fez crescer no presente)". E É!Mas ,com olhos postos no presente e na apreensão ,sem falsos pudores,do :"porque é que as coisas agora acontecem desta forma?"….Porque vivificam no presente movimentos de outrora…Porque há aspectos inerentes a cada um dos que falei que são intemporais ( e que reflectem emoções,estigmas,inadaptações e politiquices que perseguem a sociedade da época,tal qual o faziam no passado e sempre farão)..chamam-lhes ..é outra coisa qualquer…

    5ºA premência dos rótulos , sub rótulos, novos rótulos existirá sempre,mas não faz esquecer o bom que se fez em todos esses momentos e a clarividência das coisas,sem floreados e ódios forjados só por…." era aceitável"….Era era..que se mergulhasse com jubilo no melhor e não no pior…poder-se-ia dissertar mt mais(bem ou mal,não existe-não devia pelo menos.Construtivo?Pois claro!)…Afinal o muito mau não foi superior ao realmente bom ,seja em que momento for(não é relevante)!

    Beijinhos,
    SS

  5. Nelson Mesquita Gomes

    Cara SS,

    em primeiro lugar, parabéns por ter se dado ao trabalho de escrever um comentário mais longo e com mais referências musicais ( e boas) do que o artigo original.
    Em segundo e, espero bem, último deixe-me dizer-lhe que percebo os seus pontos de vista, mas permita-me que a esclareça num ponto que me parece fundamental: o que leu não tem pretensão de ser tratado sociológico sobre a música dos anos oitenta e a sua reutilização nas décadas seguintes.
    Esta crónica ( acho que lhe posso dar esse nome) pretendia apenas ser um desabafo de alguém que acha muito aborrecido uma noite inteira a ouvir sempre os mesmos "greatest hits". Ou seja, é uma opinião. As referências que constam do texto valem o que valem, estão aquelas podiam estar outras. E sim, é óbvio que os anos 80 tiveram uma importância fulcral na música e, sim, houve centenas de discos, bandas e artistas a solo com um trabalho de extrema qualidade. Mas como percebeu, falar bem não foi o que me trouxe aqui.
    Foi uma opção, para falar bem estão cá outros.

    Abraço e obrigado pelo seu comentário,
    Nelson Gomes

  6. Azelpds

    "Foi uma opção, para falar bem estão cá outros"

    Percebo perfeitamente a opção e conteúdo deste artigo, mas acho que poderia ser realmente interessante ter-se mais artigos a falar bem e a dar a conhecer as tais músicas 'boas' (como tudo, isto é muito subjectivo), tanto desta época como de outras, porque falar do mal e dos tais hits da praxe já muitos falam, mas depois não se encontram mais artigos a falar das tais pérolas que andam por 'aí' escondidas.

    'Educar' as pessoas é um caminho para eles passarem a conhecer algo mais do que o costume, para questionarem aquilo que lhes servem constantemente. Sim, também abomino grande parte das festas temáticas de anos 80 precisamente por muito do que se fala neste artigo, mas compreendo perfeitamente a postura delas, tendo em conta que não se tenta oferecer e tentar mostrar mais. O público alvo até poderia vir a gostar dessas tais outras músicas, mas como não há divulgação e aposta das mesmas, é complicado.

    Até mesmo das tais bandas que muitas vezes se abominam algumas faixas, existem outras que merecem uma escuta mais atenta, podendo ser interessante pegar em algumas das mesmas, mais uma vez, para se tentar divulgar, não só para as gerações mais velhas e saudosistas, como igualmente para as mais jovens, aproveitando até a questão das influências presentes em muitas das tais bandas recentes, caso contrário, continuamos no tal ciclo vicioso.

    São opiniões, mas este artigo não me trouxe nada de rigorosamente novo, que não ouça constantemente numa vulgar saída de copos à noite por exemplo. Pode ser sobre indie, anos 80, 90, trance, género x ou y, a conversa é sempre igual, o bla bla como é possível gostar-se de y ou x.

    Se tivessem escrito um artigo sobre, sei lá, o outro lado dos anos 80 ou algo assim, falando de bandas e várias faixas, etc, que podem ter passado ao lado de muito boa gente, por muito que também soe cliché, talvez fosse uma ideia que desse mais pano para mangas e algumas surpresas curiosas para muito boa gente.

    É apenas uma opinião, como sempre. :)

  7. David Carvalho

    Azelps,

    Estou aqui com um pouco de dificuldade em ligar a ficha ;) numa sociedade de opinião tão pouco independente estou mais habituado a ver artigos a falar bem de tudo e todos do que a ver criticas negativas…

    Compras um Jornal ou uma revista e faz ás criticas dos Festivais, Novos albúns, etc etc etc. O resultado é sempre assim > epahhhh excelenteeeee, fora de série, nunca vi nada assim (na realidade foi uma merda!).

    A não ser que estejas a falar de Futebol/Desporto ou de Política/Economia….onde ai criticas negativas regulares são usuais…

    E este artigo embora seja uma critica negativa, muito sinceramente concordo com muitos pontos sobre ele, agora óbviamente talvez consiga ligar a ficha se perceber que provávelmente vocês fazem parte do público que ele refere e tão todos a enfiar a carapuça :D

    *tou a brincar ou não* :D

    Abraço,

  8. Azelpds

    A questão aqui é contexto e eu referi-me ao deste artigo. Se leres o que escrevo no comentário anterior, dou até uma sugestão ou outra de algo que falasse do mesmo assunto, mas de outro prisma que traga algo de novo, eventualmente.

    Até digo que concordo plenamente com o que o artigo diz, já que não gosto do referido tipo de festas, apenas ele não me trouxe nada de novo. Já parece os artigos a falarem mal dos anos 90 e a cascarem no grunge e coisas da praxe, acabam por ser todos 'iguais', não mostrando afinal que supostamente existe algo além desses focos negativos de cada época.

    Mas isso já sou eu que sou apologista do dar-se alternativas invés de falarmos apenas mal das coisas, sendo por aí que não falo no meu blogue, por exemplo, de bandas ou coisas que não me digam nada, porque isso é dar ainda mais tempo de antena ao que não gosto, como tal, opto por dar alternativas a isso.

    Por aqui, estou habituado tanto a ver artigos a falar bem como a falar mal, não estou é habituado a muitos artigos que tragam algo de novo. Mas os artigos do Eduardo Martins aqui no 'Rua de Baixo' por exemplo, já me fazem sorrir, já que nos contam diversos detalhes que muitos de nós nem sabíamos, outro tipo de realidades que passaram ao lado de muito boa gente, mesmo as que viveram certos movimentos musicais.

    Após isto tudo, acho que o melhor é ler-se os comentários com atenção, que nada têm a ver com enfiar-se a carapuça ou não, mas sim com o tipo de artigos, pelo menos no que me toca. :)

    A internet veio revolucionar o acesso à informação e se, tal como tudo, também tem lados negativos, por outro dá-nos alternativas a esses tais jornais, revistas, etc de que falas. É uma questão de existirem opções, de vivermos numa sociedade onde o conhecimento é importante, que quanto mais conhecemos e mais descobrimos, mais ele nos permite questionar o que nos é imposto por outros, especialmente esses tais meios de informação que nada nos dizem e que consideramos profundamente tendenciosos.

    Abraço também daqui. :)


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