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Era o Zé Pedro

Um Keith Richards à portuguesa. R.I.P. (1956-2017)

Sempre tive uma relação de amor-ódio com Xutos e em particular com o Zé Pedro. Ele era aquele gajo que tanto tornava os Xutos mais rock e impedia o Tim de divagar demasiado para o lado do cancioneiro popular, como tão depressa gabava bandas medíocres na rádio e na televisão.

Por essas e por outras gosto tanto dele como de falar mal dele, sobretudo porque sempre assumi que ele era parte do panteão dos imortais, onde se contam Lemmy e Keith Richards. Era essa a pinta do Zé Pedro, um Keith Richards à portuguesa, que cresceu enraizado num género, e para o melhor e para o pior o transcendeu. Ao mesmo tempo, na melhor fase dos Xutos, Zé Pedro também atirava a banda para o imaginário dos Clash, tanto pela sua postura a tocar como pelo lenço à volta do pescoço que lhe ficava como a mais ninguém. Aliás, ele era daqueles gajos cuja pele, cabelo, olhos e todos os órgãos contavam a história da sua vida tanto como a roupa que vestia. E ninguém usava uma t-shirt branca com a manga enrolada como ele.

A verdade é que pouco interessa se Zé Pedro foi uma das pessoas que fez a apologia de porcarias neo-rock do novo milénio como os Arctic Monkeys ou que as últimas duas décadas de vida dos Xutos tenham sido, na melhor das hipóteses, esquecíveis, e na pior insuportavelmente embaraçosas. Porque há pessoas que quando conseguem determinadas conquistas, tudo o que fizerem depois, por muito terrível que seja, não chega para beliscá-los. Sobretudo quando, apesar da distância física, crescemos emocionalmente próximos dessas pessoas. E com o Zé Pedro foi assim, até porque, apesar da pureza simplista de Kalu, ele era o meu Xuto preferido e foram muitas as horas que passei a ouvi-lo a ele mais do que a qualquer um dos outros ou à própria banda. Porque os Xutos sempre me soaram mais como a banda do Zé Pedro do que como os Xutos & Pontapés. Era ele que emanava carisma, era ele o líder em palco e fora dele. e era ele quem exalava a crueza do rock’n’roll que tanto admirei.

Uma das primeiras bandas de que gostei ainda na escola preparatória quando mal sabia o que era música foram os Xutos. E se há música que me marcou nos últimos 30 anos foi a rendição rouca e primitiva de “Submissão” pelo Zé Pedro no triplo disco ao vivo. Jamais se me apagará da memória aquele grito de “Era o Zé Pedro” que se ouve quando a música termina. É isso que ecoa neste momento: “Era o Zé Pedro”. Nunca pensei que fosse possível mas ele morreu. Agora respeitem o seu pedido em “Quando eu morrer” e não levem flores para o buraco.



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