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Estes Tornados são Cães Danados

Sob a estética de um clássico independente de Tarantino, Os Tornados regressam com uma curta de 15 minutos. Dizemos nós que é rock n’ roll dos cinquentas e sessentas, dizem eles que é “Dinamite” p’ra queimar.

Em 2009, quando descobrimos Os Tornados, estes pareciam um fenómeno provocado por uma qualquer major editorial, daqueles fabricados. De repente, Os Tornados, quatro tipos tão ou mais bem vestidos que Gerry & The Pacemakers, estavam em todo o lado e «Catraia», o single que os apresentou ao mundo, era destacado em noticiários televisivos. Três anos depois, já a poeira assentou, a banda regressa com um novo registo, de curta duração, o EP “Dinamite”, que é uma edição da recém-criada editora da própria banda e com a estética de “Reservoir Dogs”, o clássico de 1992 de Quentin Tarantino.

A decisão de criar uma editora não é estranha vinda de uma banda que diz que “cada vez se faz menos para ouvir música”. Paralelamente à edição física, o grupo colocou as quatro canções que compõem o EP disponíveis para audição gratuita no seu site oficial. Tudo isto pode soar a paradoxo, uma banda que afirma que os miúdos – no fundo, é a eles que toda a gente se refere – “cada vez se esforçam menos para ouvir música”, coloca a sua mais recente edição disponível para audição gratuita e no seu site oficial? Nuno Silva, o vocalista, explica: “Não é um paradoxo. Isto somos nós a adaptarmo-nos à realidade do mercado actual. Se as pessoas puderem ter música de borla, não a vão comprar. E sim, é uma consequência da intenção de chegar ao máximo número de pessoas possível”.

A resposta de Nuno Silva é sintomática – vivemos tempos diferentes, embora igualmente entusiasmantes. Todas as semanas são disponibilizadas canções e álbuns para audição gratuita. A faceta audiovisual da música nunca foi tão explorada. Os OK! Go usam as potencialidades do Google Chrome, os Arcade Fire exploram as potencialidades do Google Chrome e do Google Maps, Bjork lança apps, os Kaiser Chiefs dão ao consumidor a oportunidade de criar o seu próprio alinhamento, os Gift imitam os Radiohead e Feist lança teasers para aguçar a curiosidade sobre o novo disco. Os Tornados não têm uma visão catastrófica da indústria do disco: “A internet matou temporariamente o CD, assim como o CD matou temporariamente o vinil.” Tendo em conta a segunda vida que o vinil (“para nós é o suporte mais valioso”, refere o vocalista) goza neste momento, não é difícil imaginar que, para a banda do Porto, o futuro passará também pela rodela de alumínio.

Ao contrário do primeiro registo, desta feita o disco não foi gravado “100 por cento em analógico”, por impossibilidade. “Não conseguimos ter o gravador de fita a funcionar a tempo da gravação [no início]. O resto do processo foi feito com bastante material analógico e com a banda a tocar ao mesmo tempo”. Dos quatro temas que compõem o EP “Dinamite”, concentramo-nos em «Angola 67». Como surgiu título tão sugestivo? “Foi mais fácil e descomplicado do que possa parecer. O nome «Angola 67» surge depois de a música estar feita e porque ela nos remetia para África. A música é que acabou por inspirar o título.”

Paralelamente à edição deste EP, Os Tornados lançam o seu próprio selo discográfico, a Bronca! Discos, uma editora que “pretende editar não só Os Tornados, mas também outros artistas. Já andamos a pensar no futuro, mas por agora são apenas ideias.” A editora surge numa altura em que a música portuguesa cantada em português vive um momento ímpar – voltamos a insistir. Confrontamos a voz da banda com esta ideia. “A música portuguesa vive tempos de grande fulgor. O nível da qualidade aumentou assim como as referências para quem agora começa a produzir. No futuro teremos uma melhor noção daquilo que está a ser feito hoje e quais as suas repercussões.” E já dá para se dedicarem em exclusivo à música? “Não. Ainda mantemos os empregos.”

“Dinamite”

Lembramo-nos do concerto d’Os Tornados no Maxime. A estética retro – fato de gala cinzento, a camisa branca, a gravata de riscas cinzentas e brancas, os sapatos pretos e perfeitamente engraxados – a coexistir na perfeição com as memórias cabaret da sala que entretanto encerrou. Lembramo-nos das canções que poderiam ter sido gravadas na década de 60, essa que agora descobrimos e em que temos os Conchas e os Sheiks como principais referências de um rock que nasceu antes de Chico, o fininho a dar um «Ar de Rock» a este Portugal que afinal não estava assim tão atrasado. Os Tornados querem fazer a música que já foi feita, mas adaptada à nova realidade. São palavras deles – “mesmo que as letras nos remetam para um passado de há mais de 40 anos, mesmo que a música não seja gravada num quarto”. Porque o que liga Os Tornados à tal nova realidade é mais a forma como vendem a sua música e imagem e não tanto o que mais importa, a música propriamente dita.

Em “Dinamite”, Os Tornados pegaram no imaginário de Tarantino, o de “Reservoir Dogs”, seis gangsters que não se conhecem e que, depois de uma operação falhada, acabam por partilhar o mesmo armazém num jogo de medo e desconfiança. Mas, chegados ao terceiro tema de “Dinamite”, «Balada do Pecador», já só nos lembramos de um Western, não um específico, mas um qualquer Western.

As influências são reconhecíveis, os Shadows, os Searchers, os Chantays e Dick Dale e o visual de Gerry & The Pacemakers. A banda já confessou que, originalmente, queria ser uma banda de bar. Perdemos aquela que seria, com toda a certeza e na medida do possível, uma bela banda de bares. Ganhámos uma banda que nos permite perder num passado que já não volta, mas que vale a pena recordar de vez em quando. Vistam o vosso melhor fato, os Tornados vieram para ficar e mostram que não são uma banda de apenas uma longa, esta é a primeira curta – e é bastante recomendável.



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