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Estoril Film Festival 2010

Grandes nomes, Grandes filmes.

A quarta edição do Estoril Film Festival realizou-se no passado mês de Novembro, produzido pela Leopardo Filmes produtora associada da Clap Filmes. Neste festival em que a direcção está a cargo de Paulo Branco estiveram presentes uma grande panóplia de produções independentes na sua maioria europeias tanto na secção “Em Competição” como “Fora de Competição”, Realizaram-se secções especiais como a “Retrospectiva Kathryn Bigelow”, a “Homenagem a Marisa Paredes” e outros eventos como a exposição fotográfica “Romanticism” de Lou Reed que inaugurou o festival e um desfile de moda com peças da autoria de John Malkovich em que os modelos foram os actores do filme “Mistérios de Lisboa”.

Começo por falar de “Tournée” um dos primeiros filmes que assisti no festival. “Tournée” realizado pelo também actor francês Mathieu Almaric, é baseado no texto de Colette “The Other Side Of Music-Hall”. Neste filme viajamos pelo universo burlesco caracterizado por um cenário feito de cores, plumas, lantejoulas e as exuberantes figuras das bailarinas curvilíneas que encantam homens e mulheres. Matthieu Almaric leva o espectador a entrar no lado mais intimista e de certa forma familiar da vida burlesca distante da realidade de muitos de nós e da exploração artística de quem aprecia arte.

Joachim (Mathieu Almaric), um antigo produtor de televisão parisiense, volta a França para uma tournée com um grupo de bailarinas burlescas depois de ter tentado recomeçar uma nova vida na América do Norte. Os seus planos saem gorados pois fica sem a sala em Paris para o show que o iria lançar nesta aventura. Joachim é uma personagem extremamente egocêntrica que não olha a meios para atingir os seus fins e vê no talento desta trupe de bailarinas americanas a sua última oportunidade de triunfar. È interessante o paralelismo que o realizador faz entre o universo burlesco e a vida de Joachim com todas as suas vicissitudes, na medida que o primeiro mostra-nos uma sensualidade rocambolesca presente nos shows das bailarinas repletos de teatralidade e erotismo latente e o lado dos bastidores onde estas estão fora do seu habitat, o palco, mas que de certa forma transmite-nos como que uma continuação das suas performances artísticas, pois não existe uma transformação marcante entre bastidores/palco. Por outro lado temos Joachim, alguém que parece meio perdido que procura aquilo que não encontrou, nem ele mesmo sabe o quê.

“Quis que fosse filmado como se não fosse escrito”, diz o realizador sobre a ideia que tinha para o filme.

“Copacabana” foi premiado com o Prémio Especial do Júri Benárd da Costa pela interpretação de Isabelle Huppert. Nesta longa-metragem realizada por Marc Fitoussi, Isabelle Hupert (Babou) interpreta uma outsider da sociedade em permanente conflito com a filha (Lolita Chammah). Instável e temperamental, a sua personagem é irresistível e apaixonante. “Inspirei-me numa pessoa que conheço, uma cabeleireira que trabalha em filmagens”, disse Marc Fitoussi, também responsável pelo argumento em resposta à RDB sobre a criação da personagem. Neste filme assistimos a uma magnífica interpretação de Isabelle Hupert que mostra-nos um registo a que não estamos habituados a vê-la.

“Copie Conforme” do realizador iraniano Abbas Kiarostami conta-nos uma história protagonizada por James (William Shimell), um conhecido filósofo artístico da cópia/réplica no mundo das artes que após uma conferência conhece Elle (Juliette Binoche), uma galerista francesa que vive em Itália com o seu filho adolescente. Ambos decidem passear por Lucignano e durante esse passeio acabam por ser confundidos com um casal e por brincadeira decidem encenar esses papéis. Esta simpática encenação acaba por aproximá-los romanticamente. Nesta obra, Kiarostami aborda o conceito de arte em inúmeras alusões discutidas pelas personagens, tema que está intimamente ligado às suas vidas. Assistimos a maravilhosos e inteligentes diálogos entre James e Elle. Em “Copie Conforme” impera uma subjectividade sujeita a várias interpretações por parte do espectador que aguça o seu raciocínio e obriga-o a reflectir sobre os vários temas e questões que são levantadas ao longo de toda a história.

Em “Dios de Madera” de Vincent Molina Foix, um dos filmes presentes na “Homenagem a Marisa Paredes”, a actriz interpreta Maria Luísa, uma viúva de meia-idade que com o seu filho vai envolver-se com emigrantes ilegais Yao (Madi Diocou), vendedor de rua e Rachid (Soufianne Quaarab), um antigo nadador-salvador marroquino que trabalha actualmente como cabeleireiro, é muçulmano. Esta história foi inspirada num conto escrito há anos pelo realizador, tem como tema principal a imigração ilegal e a relação dos imigrantes com o país onde vivem, com os seus locais, a discriminação que sofrem e as condições desumanas e obstáculos que enfrentam num território estranho à sua terra natal. Maria Luísa ao envolver-se com Yao romanticamente enfrenta o julgamento social mas não se importa pois sente-se viva novamente. Marisa Paredes demonstra uma entrega maravilhosa ao seu papel de tal forma que em certos momentos transpõe toda a carga emotiva da sua personagem apenas no seu olhar. “As personagens dos emigrantes não eram actores porque queria mais espontaneidade”, afirma Vincent Molina Foix.“O que faço não sei se é mau ou bom mas faço-o com muita paixão”, disse Marisa Paredes sobre o seu percurso profissional.



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