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Estrada de Palha

“Estrada de Palha”, de Rodrigo Areias, traz ao país e ao cinema português um contraste com a história que conta: Portugal não tem salvação. Porém, com obras tão bem conseguidas como esta, ficamos na dúvida.

Rodrigo Areias é realizador, produtor e argumentista do filme “Estrada de Palha”, o western português que, com The Legendary Tigerman e Rita Redshoes, estreou em versão filme-concerto no primeiro dia do festival Curtas Vila do Conde 2011.

“Estrada de Palha” conta a história de um homem que regressa de uma missão no estrangeiro para vingar a morte do irmão e fazer frente ao destino de um país que não salvaguarda os direitos da sua gente e que não tem redenção. É uma crítica ao panorama político-social de uma nação que percorre um caminho sinuoso e vai ao longo dele tapando os buracos e a sujidade de quem dita as leis.

Com a (mágica) banda sonora produzida por Legendary Tigerman e Rita Redshoes, fotografia de Jorge Quintela e protagonizado por Vítor Correia, “Estrada de Palha” é um exemplo de que Portugal tem salvação. E o seu autor, obra e intervenientes são prova disso.

Porquê um western?

Foi algo que sempre quis fazer desde que comecei a pensar em realizar filmes. Sabia que era complicado conseguir financiamento para um filme deste género, fosse ele público ou privado, e por isso decidimos avançar com aquilo que tínhamos.

O filme foi inicialmente pensado como curta-metragem?

Sim, mas veio apenas parte do financiamento previsto. Não recebemos o suficiente para uma curta normal do Instituto do Cinema e do Audiovisual, nem da RTP, porque como é percentual recebe-se menos de todos os lados em efeito bola de neve. Então, não tínhamos como transformar o filme numa curta-metragem. Fazê-la como estava pensada, era inviável.

A decisão foi: já que não temos dinheiro para fazer uma curta, vamos fazer uma longa. Eu sabia que conseguiria financiamento para uma longa-metragem. Como tem maior distribuição em cinema e televisão e maior visibilidade, iria trazer-nos mais possibilidades.

Recebemos uns apoios simbólicos do Instituto de Cinema da Finlândia – da Finnish Film Foundation, porque a YLE, televisão pública finlandesa, grande financiadora do cinema europeu, comprou o filme. Haverá distribuição do filme na Finlândia e na televisão finlandesa o que é muito positivo. Tal foi possível porque é uma longa.

O início do filme era na Finlândia?

Exacto. No extremo norte da Finlândia. Fizemos ainda centenas de quilómetros para fazer um plano na fronteira do mar Ártico, na fronteira entre a Rússia e a Noruega, mesmo a norte.

Quais foram os grandes desafios?

Penso que fazer um filme é sempre um grande desafio porque o grau de imprevisibilidade é muito elevado. Claro que essa imprevisibilidade é tanto menor quanto maior é o orçamento. Há sempre que encontrar soluções criativas devido à falta dele.

Há uma dificuldade acrescida que é ser um filme de época: arranjar cavalos, armas e roupas de época. O trajecto original de transumância do gado serrano implicou percorrer muitos quilómetros com um aparato técnico complexo atrás muito difícil de montar e para nós foi uma grande dificuldade, dado que não tínhamos uma estrutura interna preparada para isso. Falo em termos de equipa, porque éramos apenas oito pessoas na rodagem, uma equipa reduzidíssima.

Como é que conseguiste encontrar elementos e referências que se enquadrassem no contexto histórico do filme?

Dedicámo-nos ao pormenor, e conto também com uma equipa de profissionais. Somos poucos, mas cada um sabe aquilo que está a fazer. No entanto, cingimo-nos àquilo que conseguimos encontrar. Devo confessar que relativamente às armas, tive uma série de caprichos que achei fundamentais. Realizar um western sem um Colt Peacemaker faz pouco sentido; a espingarda que o personagem principal carrega durante todo o filme era a única carabina do oeste, que é uma Sharp, e a arma que ele dispara é um Colt Navy. Porém, não tive mais caprichos para além disso.

Estive a negociar a compra de um original do livro “Desobediência Civil” com a Throreau Society, e eles com coleccionadores privados, e depois desisti porque achei que ia trazer mais complicações financeiras ao filme do que vantagens. Esse foi um dos caprichos de que abdiquei. Tudo o resto é confiar no trabalho das pessoas.

O filme é baseado no livro “Desobediência Civil” de Henry David Thoreau e para construíres este imaginário western percebe-se que tiveste um grande trabalho de pesquisa. Algum facto relevante que tenhas encontrado?

Sim. Encontrei vários. Estava numa Bertrand a comprar “A Lã e a Neve” do Ferreira de Castro para retirar uma série de descrições pormenorizadas neo-realistas desse belíssimo livro sobre toda a actividade pastorícia e especificamente sobre toda a área onde íamos filmar, e deparei-me com um livro sobre a importância dos portugueses na conquista do oeste americano e da elevada percentagem de portugueses que estavam presentes, matando índios, para o bem ou para o mal, tendo fortes na linha da frente desse avanço da civilização ocidental a destruir a civilização autóctone. Esse livro tinha histórias absolutamente inacreditáveis sobre essa realidade e isso deu-me alguma motivação para explicar toda a backstory deste personagem. No fundo, é um personagem literato, alguém que estava a estudar para padre, que é enviado para uma missão do outro lado do mundo, e que acaba por, calmamente, como faz durante todo o filme, desaparecer e dedicar-se a pensar na vida e isolar-se.

Isto é altamente influenciado pelo “Walden ou A Vida nos Bosques” de Henry David Throreau, em que o personagem é baseado na vida dele, e toda a situação tem a ver com a própria situação descrita no “Desobediência Civil”, em que ele se recusa a pagar o imposto e por isso é preso. Achei interessante que esse facto estivesse sublimado no filme. Ele vai preso porque se recusa a pagar uma portagem que lhe é ilegalmente cobrada, por alguém que se faz passar por representante do Estado, que o sendo não está a exercer a sua função correctamente. É um personagem verídico e real e tem a ver com a nossa história.
Investiguei as alterações à lei da pastorícia e os direitos dos pastores e concluí que desde o Foral de D. Afonso Henriques até à Implantação da República, apenas nos reinados dos Filipes de Espanha é que foram atribuídos direitos a quem trabalha neste país. Ou seja, jamais enquanto este país foi reinado por portugueses houve estima por aquela gente. E o mais incrível é que a transumância do gado serrano é o maior motor económico da Península Ibérica durante mais de cinco séculos. Nunca ninguém teve respeito por quem trouxe dinheiro ao país. Isso é que é inacreditável. Achei por bem reflectir estes factos. Fazem sentido não só estético, como também ético e poético, no fundo.

Quanto tempo durou a rodagem?

O tempo de rodagem previsto seria sete semanas e dois dias, contudo terminámos tudo em menos de quatro semanas.

Reparei que existem pormenores muito subtis no filme e um grande cuidado com o cenário que escolheste, Castelo de Vide. É uma característica tua? Procurar o melhor lugar para filmar?

Eu acho que num western é obrigatório. Quando escrevi o projecto, um dos personagens era exactamente a paisagem. Obviamente nós não temos nenhum Monument Valley e eu não sou o John Ford. Jamais poderia chegar a esse nível. Dentro da nossa dimensão o objectivo era retirar o máximo partido desses locais e décors para que o filme pudesse respirar essa grandeza, cá ou na Lapónia, onde fomos filmar dois dias de rodagem. Estivemos num espaço desconhecido a todos, completamente encarapuçados, só com o nariz de fora. Adorei filmar na neve e a equipa finlandesa riu-se. Lá é impossível repetir um take. Alguém passa, a neve fica marcada e tens que ir para outro sítio. Honestamente, não me é difícil tomar decisões e esse grau de dificuldade diverte-me. Também, nunca ter tido financiamento sério para um filme só me estimula criativamente. Não olho para isso como uma grande adversidade. Não amuo perante os obstáculos porque não tenho hipótese, caso contrário não faço filmes.

A banda sonora foi produzida pelo Paulo Furtado e Rita Redshoes e eles trouxeram uma enorme quantidade de novos sons e novos instrumentos. Quais foram e que particularidade deram ao filme?

Eu não sei o nome daquela parafernália de instrumentos que eles compraram de propósito para isto. São incríveis, são muito bonitos e produzem sons inacreditáveis. Eles queriam fazer algo único e específico com o filme. Ficaram muito motivados quando o viram e decidiram comprar esses instrumentos para criar novos sons, bastante diferentes da sua música. Isso deixou-me muito contente porque gosto mesmo muito do trabalho que eles fizeram e quando vi o primeiro ensaio ao vivo percebi o quão espectacular podia ser vê-los a tocar o que tinham preparado. Foi um trabalho soft e minimal e comoveu-me bastante. Agradeço muito a predisposição e o improviso deles.

Tu referiste no dia da estreia que este foi o teu primeiro filme realizado com financiamento público. Até então, gastaste do teu dinheiro para trabalhar?

O meu e o dos outros também. O segredo é a malta cravar. A única forma que temos de fazer filmes é cravar pouco a muita gente. Acho que é e foi fundamental. Aqui por exemplo, a Clap Films, Costa do Castelo, a Cinemate emprestaram adereços e guarda-roupa. No nosso armazém existe um grande guarda-roupa e vários adereços da Susana Abreu e do Ricardo Preto, respectivamente, e há uma série de coisas que cada um vai trazendo e improvisando. Fizemos uma recolha exaustiva de chapéus, casacos e mais elementos com o apoio da Retroparadise. Em suma, há sempre uma série de pessoas que decide ajudar e ainda bem, porque senão, seria impossível.

O filme terá distribuição comercial?

O filme terá uma distribuição normal. Será uma distribuição limitada, isto é, aquilo que está previsto são duas cópias em Lisboa, uma cópia no Porto, e uma cópia que começa em Coimbra e depois irá a Leiria e a outras cidades. Eventualmente conseguiremos negociar uma quinta cópia. O que me entusiasma bastante é a quantidade de convites que tivemos para fazer a versão filme-concerto em diversas cidades. Isso é estimulante porque percebe-se que se conseguirá chegar a mais público e a um outro público. Pressuponho que há um hype, como se viu aqui no Sábado, no dia da estreia. O filme acaba por estar a ser altamente promovido, mas a Rita Redshoes e o The Legendary Tigerman trazem uma percentagem elevada de pessoas com vontade de ver o filme. Nesse sentido vai ser muito interessante também em termos de distribuição de CD/DVD. Por isso, acho que é esse o nosso caminho.

Se os westerns filmados em Espanha por realizadores italianos são os westerns spaghetti, como é que chamarias a um western realizado em Portugal por um realizador português?

Seria um western rojão, dado que eu sou do Minho, claramente.

Este ano saiu um western, para o ano um filme de ficção científica?

Não, ainda não. Para o ano será um film noir, algo que já estávamos a preparar há algum tempo e que terá princípios clássicos como o “Estrada de Palha”. Tenho uma série de projectos que não têm nada ver uns com os outros. Isto é, não deixa de me interessar a exploração de vários géneros cinematográficos porque isso obriga-me a aprofundar de forma muito agressiva o conhecimento de um género. O “Estrada de Palha” teve cerca de dois anos de preparação. Comprei imensos DVD´s de westerns e livros e vi muitos filmes. Diverte-me fazer algo de forma objectiva.

Porquê o título “Estrada de Palha”?

Estrada de palha porque numa das primeiras obras técnicas que eu li sobre a transumância do gado serrano era uma expressão recorrente e tinha a ver com o nome próprio de um trajecto. Existem duas relações: a primeira tem a ver com uma parte perigosa do caminho, e a segunda, com um lado prático em que estrada de palha é uma estrada onde se coloca palha por cima da lama, do sangue ou dejectos para facilitar a passagem dos carros e das pessoas. É, no fundo, uma camada utilizada para parecer que tudo está bem.

Ele chega a vingar a morte do irmão?

Eu acho que ele vinga a morte do irmão. Quer dizer, não sei. Sei que isso de repente passa para segundo plano. A minha ideia era muito simples: partir de uma premissa clássica, de clichés de western, que vão desaparecendo ao longo do filme sem qualquer problema, porque a nossa vida não é ter um objectivo e alcançá-lo uma vez que, do ponto A ao ponto B, acontecem coisas que nos vão desviar. E não tem necessariamente que ser melhor ou pior. Apesar de ele vir para este país com vontade de perceber algumas coisas, encontra um país diferente de quando o deixou e percebe que mesmo implantando-se a república este país nunca há-de mudar. É óbvio que para mim é fácil 100 anos depois dizer que não há grande salvação porque é isso que nós estamos a ver.



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