“Estrada para Los Angeles” |John Fante

“Estrada para Los Angeles” | John Fante

O narcisismo do escritor enquanto jovem

É possível que John Fante seja um dos mais influentes escritores esquecidos da literatura norte-americana. Décadas após a publicação de “Pergunta ao Pó” (1939), o despertar de atenção para a obra de Fante deve-se, sobretudo, à boa palavra de Charles Bukowski. Assumido discípulo do autor, escreveu-lhe um célebre prefácio onde não escondeu as semelhanças de estilo e conteúdo, nem poupou elogios.

O paralelismo mais sonante entre a obra de Fante e Bukowski será, certamente, o protagonista com traços autobiográficos. Tal como o primeiro se revê em Arturo Bandini, cujo enredo tem início em “Estrada para Los Angeles” (Alfaguara, 2013), o segundo conta-nos o seu percurso de vida disfarçado de Henry Chinaski. Estes alter-egos, dados a hipérboles ou fantasias, encontram em Fante um tom mais cómico, embora igualmente dado a infortúnios do mundo urbano.

Primeiro romance do apelidado “Quarteto Bandini” a ser escrito (1933), “Estrada para Los Angeles” foi somente publicado em 1985, já Fante havia falecido. O termo “rito de passagem” assenta-lhe como uma luva. Arturo Bandini, com 18 inexperientes anos, é um autoproclamado génio literário, não tendo mais que meia dúzia de rabiscos escritos num bloco de notas. Cita Nietzsche, Spengler e Schopenhauer, emprega vocabulário denso no seu discurso, é ateu e simpatizante do comunismo russo (para medo dos seus compatriotas). Julgando possuir um intelecto privilegiado, Bandini leva a sua avante insultando a mãe e a irmã, torturando animais e tendo uma fixação pelas raparigas que figuram nas suas revistas pornográficas. Com birras e devaneios quase infantis, é recluso de uma ingenuidade sui generis, ignorando o apelo de todos os que lhe são chegados a uma vida ao jeito dos bons costumes italo-americanos.

Claro que Bandini pouco percebe daquilo que extensivamente lê, ou diz, ou julga saber melhor que ninguém. Imerso na sua perturbação bipolar, soma e segue devaneios narcisistas que transcendem qualquer vaidade adolescente. Talvez traço dos melhores escritores, ou simplesmente abrir de caminho para a demência, Bandini (ou Fante) mostra-nos o quanto o nosso idealizar é defraudado pelas insistências inesperadas da vida.



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