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Experimenta Design 09

A bienal dedicada ao Design, Arquitectura e criatividade no seu todo, acontecerá de 09 de Setembro a 08 de Novembro. Guta Moura Guedes é a Directora do evento desde a sua criação e conversou com o RDB.

Regressa a Lisboa e celebra o seu 10º aniversário. A ExperimentaDesign 2009 conta com 258 participantes oriundos de 23 países e distribuídos por 71 eventos. “It’s about time” é o mote deste ano que nos guia por um conjunto de Debates, Conferências, intervenções criativas por toda a cidade e quatro grandes exposições principais:

“Quick, Quick, Slow – Texto, Imagem e Tempo”, patente no Museu Coleccção Berardo e comissariada por Emily King (escritora e historiadora de design britânica), vem analisar o impacto dos novos meios digitais no design gráfico e de comunicação elaborando uma retrospectiva histórica.

Analisando, o tempo e o seu valor criativo em ateliers de sete cidades situadas em diferentes pontos do globo, a curadora Tulga Beyerle traz ao Picadeiro, no Princípe Real: “Pace of Design”.

O desafio foi proposto a 15 jovens de diferentes nacionalidades e consistia em pensar a criação tendo em linha de conta a pressão do mercado consumista, o tempo e necessidade de inovação; a resposta é “Lapse in Time” comissariada por Hans Maier-Aichen e pode ser vista no Salão Nobre da Sociedade Nacional de Belas Artes.

“Poderá menos ser mais?” perguntou Mies van der Rohe (Bauhaus). E é com esta questão que se parte para Timeless, uma exposição produzida em quatro partes distintas por quatro países (Portugal, Reino Unido, África do Sul e Índia) e que nos pretende demonstrar como se produz mais com os recursos escassos de que o planeta dispõe actualmente. Estará patente no Museu do Oriente, sendo que a exposição inglesa se encontrará espalhada por diferentes pontos da cidade.

A consolidação do papel que a ExperimentaDesign tem vindo a desempenhar na colocação de Portugal no mapa internacional do design e das artes em geral será concerteza o objectivo maior de mais esta edição. Que outras metas se juntam ao evento? O que tem de especial esta edição?

Penso que o papel da bienal se consolidou em definitivo em 2005, quando foi considerada o mais interessante evento de design na Europa. Mas na EXD estamos sempre a tentar ultrapassarmo-nos e parece que nunca nada é suficiente ou está onde nós queremos, há uma espécie de provocadora intranquilidade permanente, que é extremamente criativa e dinâmica. Esta edição comemora os dez anos de existência da EXD. Tem um carácter especial por isso mesmo. Passou tempo, muita coisa aconteceu. Aproveitámos para redefinir alguns objectivos, para acentuar o carácter experimental da bienal, de pesquisa e de investigação e reflexão, e para abrir novas direcções, ligadas a novas áreas do design ou a projectos com um sentido mais interventor ou com um carácter mais perene.

A edição deste ano contou com uma inovação, uma antecipação de um ano que contou com um dos nomes maiores da arquitectura contemporânea, Peter Zumthor. Como correu o Warmup EXD 09 e qual foi o seu principal objectivo?

O Warm-up correu muitíssimo bem. Teve como objectivo lançar com um ano de antecedência o tema da bienal de 2009, It’s About Time, e dar sequência a um projecto que tínhamos em preparação para a edição de 2007 e que cancelámos. Peter Zumthor é um dos mais fascinantes criadores do nosso tempo e, ele próprio, com um tempo único. Ver a Aula Magna com mais de 1600 pessoas a assistir à sua conferência e ter mais de 16.000 visitantes em pouco mais de mês e meio foi extraordinário. E, de certa forma, antecipar o Prémio Pritzker em Lisboa foi significativo, foi um privilégio….

A discussão do tempo, como factor que marca a actividade do designer e de qualquer indivíduo do nosso tempo parece ser um objectivo primordial desta edição. “It’s about time” – pode-nos falar um pouco deste tema e também da importância da existência do mesmo enquanto directriz conceptual do evento?

O tema tem duas interpretações ou, melhor, duas linhas de trabalho. Uma, a primeira, sobre a qual começámos a trabalhar em 2006, pega no tempo enquanto matéria utilizada no processo criativo ou como algo que caracteriza um determinado tipo de produção. Ou seja, como é que os criadores usam o tempo, o que é que este significa, de que depende a sua utilização e como é que este interfere com o que produzimos ou consumimos. O tempo sempre nos fascinou, a nós, que o inventámos e sobre o qual sabemos ainda tão pouco, para além da constatação da sua relatividade…. A segunda linha de trabalho tornou-se claríssima depois das segundas reuniões do nosso Think Tank em Lisboa, no início de 2008 e depois da crise iniciada em Setembro desse mesmo ano. Relaciona-se com a ideia de urgência, com o facto de ser necessário percebermos que é tempo de fazer algumas coisas, de agir, de modificar processos que estão errados ou de iniciar acções que tínhamos deixado para segundo plano e que agora parecem ter uma diferente importância e relevância.

Uma cada vez mais inter-penetração dos vários campos artísticos e a ideia de tal forma lata do que é o Design (“desde a concepção de uma cadeira ao desenho de uma campanha eleitoral”) poderão estar na origem da pluralidade presente na ExperimentaDesign, como sendo, as próprias  disciplinas convencionais do design e a música, cinema, pintura, arquitectura, etc…?)

Sim. É preciso lembrar que a EXD começa, em 1999, com o tema da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade…. O olhar plural e abrangente caracteriza, sem dúvida, a forma como organizamos o nosso projecto, um assumir claro do cruzamento de fronteiras entre diversas áreas de conhecimento e entre diversas ferramentas. Sempre foi assim, para nós e continua a ser, embora eu deva confessar que, pessoalmente, me interessa cada vez clarificar, simplificar, separar.

Uma das grandes apostas da EXD deste ano é inclusão de uma forte componente social, realçando a coesão e inclusão sociais como importantes motores do desenvolvimento. De que forma isso vai acontecer exactamente?

Em vários projectos, de índole distinta. Um dos exemplos é o Action for Age, em que o tema de trabalho, entre equipas portuguesas e inglesas, numa parceria com a Gulbenkian e o RSA (Londres), é o do envelhecimento e a utilização do design para resolver problemas nesta área, nomeadamente o isolamento e a crescente disfuncionalidade social que estes grupos etários atravessam. Outro projecto, para o qual fomos desafiados pela BBDO Portugal, é o Efeito D, em que temos designers a criar projectos para angariar fundos para a associação Diferenças.

Aquando da forçada interrupção do carácter bi-anual do evento em 2007, por falta de apoio institucional, referiu que “em Portugal, o sistema de apoio às artes é quase inexistente. Quando existe, é encarado de forma pejorativa, como se fosse um subsídio e não um investimento” De lá para cá o que mudou? O sistema de apoio à cultura está mais eficaz? Como se produz arte, com perspectivas de internacionalização e exportação de uma marca portuguesa, neste contexto?

Mudou muita coisa. Para já, mudou o Presidente da Câmara de Lisboa. O António Costa tem um entendimento em relação à cultura e ao design, especificamente, que o Carmona Rodrigues não tinha. Depois, a partir de 2005 vimos, pela primeira vez em Portugal, o Ministério da Economia e Inovação, com o Manuel Pinho, começar a apoiar a cultura e a criatividade, reconhecendo o seu papel na sustentabilidade económica do país e da sua promoção no estrangeiro. A EXD tem o investimento do Ministério da Cultura, do Ministério da Economia e Inovação e da Câmara Municipal de Lisboa, num protocolo tripartido fundamental para a seu desenvolvimento e sustentabilidade. É certo que cobre apenas 38% do orçamento da bienal, que tem uma dimensão muito importante de serviço público, mas a sociedade civil, as empresas nacionais e internacionais, têm vindo, também num crescendo, a reconhecer o nosso trabalho e a importância da cultura, juntando-se à bienal. Muita coisa mudou desde 2007… É importante é que não se volte atrás, agora, e que se entenda o quão importante é a internacionalização da nossa cultura e da nossa criatividade, bem como um investimento consistente e coerente nesta área.

No processo de internacionalização algo complexo, o de atrair nomes internacionais de peso para o evento, torna-se fácil cativar os profissionais consagrados de fora a participar na Experimenta? Como chega até eles e como os convence?

Existem vários factores que jogam a nosso favor. O perfil e a identidade da bienal, a força da independência do projecto, o carácter experimental e de investigação, a liberdade interpretativa e curatorial alicerçada numa forte e clara perspectiva sobre a importância da cultura e sobre o design. Depois, fomos conquistando a nossa posição, a nossa própria relevância, ao longo de tempo. Existem também todos aqueles outros factores… a EXD é uma plataforma verdadeiramente aberta, flexível, colaborativa, generosa e irregular, o que é muito estimulante. Criou um ponto de encontro, de partilha, de celebração, de democratização de conhecimento. E as pessoas verdadeiramente interessantes, que estão a fazer trabalhos fundamentais, prospectivos, sejam mais conhecidas ou menos, reconhecem isto. E aceitam o desafio, que vem, de facto, de uma estrutura informal, muito particular, e muito profissional e experiente. Depois, há aquele factor mágico: Lisboa é uma cidade maravilhosa, toda a gente quer vir até cá e estar connosco.

Com a expansão para Amesterdão no ano passado, a Experimenta tornou-se a única bienal a acontecer todos os anos. Partindo do pressuposto que se torna difícil construir um evento como este de forma completamente deslocada do ambiente em que se insere. Como é que se concretiza o mesmo evento em locais tão distintos na sua forma de trabalhar a arte?

A experiência de Amesterdão foi extremamente interessante e serviu para, precisamente, provar que a EXD é um modelo que pode acontecer noutras cidades, em profundo diálogo com as mesmas. Não encaramos a experiência de Amesterdão como algo que tenha que continuar só nesta cidade, pelo contrário. É extremamente positivo para a plataforma EXD no seu todo o alternar de contextos, embora seja imensamente exigente fazê-lo. Estamos a pensar noutras experiências… A EXD vai tornar-se cada vez mais uma bienal que acontece todos os dias e em sítios diferentes. Mas sem nunca deixar Lisboa e Portugal, a nossa casa.

Assumindo que um dos objectivos iniciais que deram origem à ideia da Experimenta seria valorizar o produto de design português, com esta expansão esse objectivo é ainda mais conseguido? De que forma se preserva a marca identitária nacional do evento lá fora?

Cada projecto que a Experimenta faz, seja com portugueses ou não, seja cá ou no estrangeiro, serve para potenciar a marca Portugal, o design português e a criatividade e produção portuguesas. Somos um projecto português, embora sejamos, afirmativamente, uma plataforma internacional. Valorizar a produção portuguesa não significa que tenhamos que trabalhar só com portugueses. Significa que temos de ser muito bons e que o critério é trabalhar com os melhores. Lá fora, seja na Holanda ou noutro país qualquer, continuamos a ser um projecto português que se define como uma plataforma internacional. Como sempre, o desafio reside em manter o que nos torna distintos por virmos de onde vimos, por sermos quem somos e por integrar elementos exteriores que nos tornam mais completos e que nos acrescentam novas dimensões, às quais nunca chegaríamos se não nos expuséssemos a novos contextos.

Amesterdão escolheu a EXD como parte do seu projecto de recolocação no top das cidades criativas a nível mundial. O que pensa que Amesterdão quis do evento e quis de Portugal com esta escolha?

Amesterdão tem uma política extremamente pragmática enquanto cidade e enquanto estratégia de desenvolvimento. Criou um gabinete, o Topstad Amsterdam, que identificou alguns eventos que consideraram ter capacidade de efectuar um “upgrade” da cidade em pouco tempo. A selecção da EXD foi, como é claro, um reconhecimento internacional do potencial da bienal, do seu trabalho e do seu interesse para o contexto onde opera. Todos sabemos, hoje em dia, quão importantes são os grandes eventos para as cidades e o que significa uma clara aposta na criatividade e na cultura. A EXD08 trouxe, sem dúvida, para Amesterdão um network internacional de grande prestígio e um know-how que não existia naquela cidade. Criou mais uma peça no puzzle da capital holandesa e no próprio puzzle que é a bienal.

A relação entre Portugal, o design e a arte em geral está a tornar-se cada vez mais estreita, ainda assim os eventos deste género ainda acabam por passar ao lado dos grandes públicos. A EXD pretende ser mais um evento de e para profissionais ou, por outro lado, procura diversificar públicos, chamando o todo da Sociedade à discussão destes temas? Em que medida um e o outro lado estão presentes?

A EXD é para toda a gente. O que não significa que não tenhamos projectos desenhados para públicos distintos, com diferentes necessidades. Mas temos sempre, seguramente, um programa inclusivo e a preocupação de ter um Serviço Educativo, que trabalha todo o ano, e que se dirige a todas as faixas etárias. A nossa programação tanto alimenta e informa criadores, críticos, teóricos, profissionais, como comunica com públicos menos conhecedores das áreas onde agimos. O grande desafio é esse. Leva o seu tempo, como é claro, mas estamos muito satisfeitos com o evoluir dos nossos públicos, nacionais e internacionais, ao longo destes dez anos.

Sendo a Experimenta um espaço simultaneamente de reflexão e criação. O que representa e o que leva alguém a optar por ser criativo, ter por profissão a criação, em tempos tão conturbados (crise económica, conflitos…) como os que vivemos actualmente? O trabalho artístico ganha especial importância? Um novo terreno, mais rico?

A arte e a cultura são bases fundamentais para o desenvolvimento social e económico do Homem. Tão importantes quanto a investigação cientifica e tecnológica, ainda mais determinantes em tempos conturbados e de crise. O trabalho nestas áreas toma nestes momentos maior relevância, representando uma actividade que é extremamente flexível e inovadora e com grande resistência. Plataformas como a EXD servem de estímulo, visibilidade e impulsão a estas áreas. Mas é preciso entender que é necessário uma grande capacidade de trabalho, de persistência e de profissionalismo para se obterem resultados visíveis e verdadeiramente alterantes. Só agora as indústrias criativas começam a ter a sua importância reconhecida. E vamos no princípio….

Quais são as expectativas para esta edição? Quer em termos de adesão quer em termos de resultados práticos, se é que estes já não se estão a sentir…

Já se estão a sentir. Basta verificar a forma como os nossos patrocinadores privados se envolveram na bienal, por exemplo, desenvolvendo projectos na área do design e da arquitectura e proporcionando encomendas e trabalho às várias comunidades criativas e criando, em alguns dos casos, legado para a cidade. Este é um impacto importantíssimo e que este ano se desenvolveu de forma muito expressiva, o que para nós, para todo o evento, é muito importante e é um marco na área da cultura e da sua associação a empresas e ao tecido privado. É preciso nunca esquecer, também, que um projecto desta dimensão envolve imensa gente e cria muito emprego indirecto e oportunidades de promoção e difusão directas.

Outro exemplo do impacto que já se sente é o número de propostas que recebemos para eventos tangenciais, fruto de desafio que lançámos aos criadores e empresas. Recebemos mais de 200 propostas e neste momento aceitámos mais de 60, o que significa um acréscimo em relação a 2005 de mais de 70%. A expectativa é que a EXD regresse a Lisboa ainda mais forte, com mais impacto e com maior amplitude de acção e de resultados. E que continue, sempre, a surpreender e a desafiar quem cria e a quem consome. Não queremos apresentar respostas mas sim colocar perguntas.



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