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EXTRA WOOL

Se eu vivesse na Covilhã, morava na rua

Entre paredes invadidas por obras e assinaturas dos nomes mais destacados da arte portuguesa e não só, a Covilhã, a meu ver, está-se a tornar na capital da arte contemporânea. E quem tem a culpa disto tudo é a equipa do WOOL (o Festival de Arte Urbana da Covilhã). Desde que a Lara, o Pedro e a Elisabet começaram a explorar a cidade não quiseram mais sair e as iniciativas para levantar o interesse pela Covilhã têm sido constantes.

Eles querem mostrar que o betão pode ser muito mais que apenas isso. E tudo isto faz-nos ir até à Covilhã e a Covilhã para Portugal inteiro e além fronteiras.

“O WOOL quer aproximar a arte contemporânea, no geral, e a arte urbana, em particular, aos cidadãos desta região do interior de Portugal, corrigindo assimetrias regionais no acesso à cultura. Acreditamos que as artes contribuem para melhorar a qualidade de vida das populações, aumentar o seu raciocínio crítico e formar uma sociedade mais consciente e cívica” – WOOL.

Aqui não há limites, há vontades e há afazeres. E fazer tudo isto, fazem eles muito bem!

E porquê a Covilhã?

“A paixão pela Covilhã é intrínseca à qual não podemos fugir e a qual nunca tentámos ocultar. É a nossa cidade, por nascimento (dois dos elementos da organização) e por adopção (o terceiro elemento da organização). A segunda, e quase com a mesma validade temporal, a nossa paixão pelo graffiti e pela arte urbana e tudo o que envolve este meio.

Foi sempre por prazer que caminhámos quilómetros para apreciar as peças que artistas tinham deixado ao nosso alcance. Observando a evolução do graffiti e da arte urbana ao longo dos últimos anos, o aparecimento dos inúmeros eventos e festivais em diversas cidades do mundo, e o percurso, sempre em crescendo, dos artistas portugueses, muito naturalmente, há coisa de um ano, começámos a magicar que um festival de arte urbana na Covilhã seria a forma ideal de juntar estas nossas paixões.

O nosso modo de homenagear o importante passado histórico, e infelizmente muito esquecido desta cidade do Interior, servindo-nos do inúmero património que sobrou desse passado, perfeito para acolher as intervenções dos artistas, uma junção perfeita para este tipo de acontecimento.”

Depois do sucesso dos eventos com ARM Collective (Portugal), Vhils (Portugal), Btoy (Espanha) e Inside Out Project (França), não nos quiseram deixar com saudades e lançaram-se logo noutra aventura. E no passado mês de Abril, entre os dias 5 e 10, foi a vez de KRAM, vindo directamente de Barcelona, arrasar em 100 metros quadrados, numa fachada lateral de um edifício. “O objectivo principal que levou à realização deste evento “EXTRA WOOL” consistiu em não deixar morrer a dinâmica que se tinha conseguido criar, relativamente à arte urbana, durante a primeira edição. Também foi possível a realização da mesma graças à disponibilidade do artista, que aceitou vir à Covilhã realizar a sua intervenção, devido ao interesse que o festival já desperta ao nível internacional” – WOOL.

Inspirando-se numa lenda da Covilhã , “O monstro de olhos no focinho” ou “A Fera de Teixeira”, KRAM conseguiu explorar as suas características étnicas, mitológicas e abstractas, enquanto artista. Que resultou numa explosão de cor e, segundo o WOOL, agradou os residentes da região e tornou-se numa das preferidas.

Uma peça muito bem conseguida depois de dias e noites non stop, ao frio e chuva, vento e sol. Sempre rodeado de olhares despertos da população e dos seguidores mais atentos do festival, com um total de 76 horas de trabalho, o que os fez bater records.

Uma entrega total por parte de KRAM, que trabalha profissionalmente como artista urbano desde 2004, e por parte de toda a organização.

Esperamos ver mais intervenções destas e esperamos que o WOOL continue a fazer crescer a cultura da arte urbana e a despertar a vontade de querer ver e explorar cada vez mais o trabalho artístico daqueles que fazem as latas, as tintas e os pincéis as suas ferramentas de trabalho.

“Relativamente à continuação do festival, os cortes associados à Secretaria da Cultura, nomeadamente a decisão de não abrir o concurso aos apoios pontuais às artes, tem vindo a dificultar a confirmação da realização da 2ª edição do WOOL – Festival de Arte Urbana da Covilhã.

A organização já apresentou uma proposta com os artistas e a calendarização para esta 2ª edição à Câmara Municipal da Covilhã e está à procura de patrocinadores privados ou mecenas que possam vir a apoiar a continuação do WOOL.”

Qual tem sido o feedback dos locais em relação às intervenções?

Por sua vez, as intervenções têm e terão sempre lugar maioritariamente no centro histórico da cidade da Covilhã e no património arquitectónico industrial que existe em inúmeros pontos da cidade, onde se observa maior degradação e simultaneamente uma infinita base de trabalho.

O formato desenhado para o WOOL pretende assegurar uma proximidade com a população. Cada um dos 4 eventos inclui a criação de uma peça numa parede da cidade, processo que pode ser (e tem sido) sempre acompanhado ao vivo pelo público.

Por outro lado, o facto do WOOL pretender recordar e elogiar o passado da nossa cidade, cremos, não tem passado despercebido à população. E também da parte dos próprios artistas tem existido uma sensibilidade nas peças realizadas, sempre remetendo e/ou recriando elementos do universo e realidade covilhanense, sejam estes relacionados com a lã, neve, a interioridade, indústria, etc.

Desta forma foi e é fácil observar presenças e apoios constantes da população durante os trabalhos de pintura / escultura das várias peças, faça sol, frio ou chuva, dia ou noite.

Ou o facto de, sobre a peça que a artista catalã BTOY pintou numa fachada ’oferecida’ pela própria moradora, as vizinhas nos revelarem posteriormente que se sentem acompanhadas pela imagem do pastor.

Exemplos destes são inúmeros, como o caso das idosas que durante a realização da peça dos ARM Collective se reuniam durante as noites junto da igreja para acompanhar os trabalhos.

De referir ainda a participação bastante positiva da população na acção Inside Out do artista francês JR, para a qual fotografámos e entrevistámos antigos trabalhadores das fábricas e que nos revelaram bastante do modo como se vivia e trabalhava naquela época.

Mais recentemente, com a intervenção do artista KRAM, que transformou uma parede cinzenta, completamente invisível para a cidade e para os transeuntes, num todo de muita cor, muitos foram os moradores que se aproximaram e nos confidenciaram que esta era a sua peça favorita.

Há outros projectos semelhantes para outras cidades?

Concretamente não existem todavia iniciativas projectadas para outras geografias, mas temos sido contactados por outras autarquias, que sensibilizadas pelo impacto positivo que este tipo de intervenção tem revelado na população e na reconversão da paisagem urbana em geral, se mostram interessadas em desenvolver / investir neste tipo de arte.

Este facto levou-nos já a começar a trabalhar na exportação do WOOL, algo que encaramos como o recriar do passado do universo fabril que homenageamos com o festival.

Que outros artistas gostariam que estivessem presentes neste projecto?

Como já referido anteriormente, o WOOL nasceu de uma forma bastante natural, como um convergir de vários factores e, no que refere aos artistas presentes, também aconteceu dessa forma.

Apreciadores e seguidores do trabalho de todos eles há já muitos anos, com os quais tínhamos o prazer de já conviver e inclusive combinado visitas à nossa cidade para ‘deixar qualquer coisita por aqui’, podemos dizer que foi algo fácil obter respostas positivas ao convite oficial para integrar a 1ª edição do WOOL.

Tudo o que se revelou / divulgou durante a presença dos artistas nos vários eventos, a recepção aos artistas, a cidade, enquanto espaço histórico, espacial e potencial, o ambiente de trabalho, o acolhimento caloroso de toda a população, os meios de trabalho, podemos dizer, o WOOL no seu todo, surpreendentemente foi captado por quem o ‘via’ pelos mais diversos meios.

E o que pudemos constatar, para além do apoio constante a esta iniciativa que surge dos mais variados quadrantes e que se mantém até hoje, foi a aceitação imediata dos convites endereçados aos artistas (os 4 do topo da lista) que pretendemos ter connosco na 2º edição do WOOL, tanto os nacionais como os estrangeiros.

Obviamente não podemos revelar os seus nomes, mas o cartaz promete manter o nível de qualidade artística da edição anterior, mantendo o mesmo formato: 4 eventos, 4 artistas (2 portugueses e 2 estrangeiros), 4 técnicas, resultando sempre numa peça mural e numa actividade paralela didáctico-pedagógica (workshop ou palestra).



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